Para o presidente do Corecon/AM/RR (Conselho Regional de Economia do Amazonas e Roraima), Erivaldo Lopes do Vale, o aniversário da ZFM (Zona Franca de Manaus) é uma data a ser comemorada pelo Amazonas com festa. O dirigente destaca que, se não fosse pela implantação do mode-lo, a capital amazonense não seria uma metrópole moderna e o Estado não figuraria como a unidade federativa brasileira da região Norte com maior cobertura vegetal e menor índice de poluição em suas atividades produtivas. Embora pondere que a carga tributária brasileira e o gargalo logístico da região ainda trabalhem contra a competitividade da indústria amazonense – principalmente quando comparada às condições do setor em países emergentes como China e México –, o economista ressalta que o valor agregado aos produtos do PIM é um diferencial que contribui para sua boa aceitabilidade nos mercados. Eleito no começo de fevereiro com a proposta de modernizar a entidade, Erivaldo Lopes destaca o papel do conselho – o único do país a representar dois Estados –, mas salienta que os profissio-nais não tem a solução para todos os problemas economistas. Na conversa com o Jornal do Commercio, o presidente do Corecon/AM/RR fala dos reflexos da crise na nossa região, do peso da carga tributária para a atividade produtiva e refuta a tese de que economista gosta de crise: “Por natureza, participamos com nossas opiniões e críticas das ações e comportamentos dos agentes econômicos, sejam estes ativos ou passivos”. A seguir, a entrevista:
Jornal do Commercio – A ZFM está completando 42 anos. O balanço é positivo para o Amazonas?
Erivaldo Lopes – Não tenho dúvidas de que o balanço é altamente positivo. Sem a ZFM, Manaus não teria evoluído como a grande metrópole da Amazônia que é hoje.
JC – O modelo necessitaria de ajustes para os tempos atuais, principalmente quando enfrentamos os reflexos de uma crise econômica mundial? Quais as vantagens e desvantagens do modelo, levando em conta essa situação?
Lopes – A ZFM, como todo e qualquer centro industrial, precisa sempre de ajustes. Isso não significa que o processo está errado, mas que precisa ganhar e melhorar mais. O PIM, como pólo que agrega mais de 500 indústrias e com o crédito de ser o menos poluente da região, com políticas ambientais rígidas e menor índice de destruição da floresta, denota vultosas vantagens. E isso não somente para o Estado, mas para o mundo. Mesmo com esta crise, o pólo certamente segurará um número de empregos bastante significativo. Estamos numa economia em desenvolvimento e vivendo num período em que o capital não tem pátria. Seria utópico sonhar que nada aconteceria por aqui, levando em conta a envergadura da crise, se esta abalou os grandes centros.
JC – O que está faltando para tornar a ZFM mais competitiva em relação a outros mercados emergentes, como China e México?
Lopes – Manaus não é um país. É um pólo regido com legislação federal e estadual, mas que não se auto-regulamenta. A cidade tem perfil de centro industrial produtor para o mercado nacional. A despeito das exportações dos últimos anos, seu grande nicho é o nacional. A logística tem um peso no aspecto da competitividade, mas a qualidade e alta performance tecnológica aplicadas nos produtos do PIM os fazem serem bem aceitos pelo consumidor.
JC – O empresariado do pólo se queixa de que os custos de produção ainda são elevados em Manaus, apesar dos incentivos, uma vez que diversos tributos foram criados nos últimos anos, principalmente no âmbito estadual. A reclamação tem fundamento?
Lopes – Ninguém gosta de tributos, só quem os arrecada. Nossa carga tributária já está no limite e o empresário não pode jogar indiscriminadamente essa diferença nos preços de seus produtos, sob pena de não escoar sua produção. Daí, ele acaba sentindo o peso dessa tributação e tem de reclamar mesmo.
JC – Nos últimos meses, os go-vernos estadual e federal concederam diversos benefícios a alguns segmentos industriais por conta da crise. As medidas são adequadas ou há risco de comprometimento da capacidade de investimento do Estado?
Lopes – Nem um pouco, pois todos os incentivos foram bem planejados, mas podem ser revistos desde que o período acordado não seja suficiente para os resultados esperados. Hoje, o PIM tem um estoque superior a US$ 7 bilhões em volume de investimentos. O governo do Estado, através da Seplan (Secretaria de Estado de Planejamento e Desenvolvimento Econômico), tem sido sensível aos ajustes necessários em tentar minimizar os efeitos da crise.
JC – As empresas estão dando a necessária contrapartida aos benefícios concedidos pelo poder público? Algumas organizações demitiram em massa e outras estão traba-lhando com acordos de redução de jornada e salários?
Lopes – Há o esforço de todo mundo, mas não acredito que uma empresa demite por demitir. O governo está atento aos acordos entre patrões e empregados em alguns segmentos, até porque existem prazos e quebrar acordo vira um descrédito. A empresa que o fizer poderá sofrer a perda de confiança no futuro.
JC – Qual o papel e a importância do Corecon para a região, diante de um cenário de crise?
Lopes – O Corecon é uma instituição de caráter regulador e fiscalizador da profissão, como todo e qualquer outro conselho de classe. Pela natureza, o Conselho de Economia agrega em sua plenária profissionais atuantes em diversos setores da sociedade.
Em meio a este cenário de crise, o Corecon, acompanha os fatos, políticas e ações para seu enfrentamento. Colocamos nossos conselheiros à disposição de famílias ou instituições para contribuir e orientar para o equilíbrio orçamentário. O que não podemos é achar que paira em nós a solução para os problemas econômicos.
JC – O senhor e sua chapa foram eleitos recentemente. Quais são as principais propostas que serão colocadas em prática em sua gestão?
Lopes – Nossa prioridade baseia-se na reforma de nossa sede, adquirida em 1994, na gestão do hoje senador da República Jefferson Praia. Temos outras frentes de trabalho visando beneficiar o contribuinte do conselho e estamos formalizando alguns convênios e parcerias para a categoria. Pretendemos ainda dinamizar o site do Corecon com informações atuais e me-lhorar o atendimento ao nosso público. Por exemplo, a partir de março, para tirar as certidões de projetos, as empresas ou economistas não vão precisar ir à sede da entidade, pois o serviço estará disponí-vel em nosso sítio (www.corecon-am.org.br). Esperamos também criar um balcão de empregos para nossos economistas.
JC – Minha última pergunta é uma provocação: as más línguas dizem que economistas gostam de crise. Em tempos como os que vivemos, há mais mercado para os profissionais representados por sua entidade?
Lopes – Não gostamos de crise. Somos profissionais que lidamos com os fatos e os fenômenos econômicos. Por natureza, estamos participando com nossas opiniões e críticas às ações e comportamentos dos agentes econômicos, sejam estes ativos ou passivos. O economista é um profissional capaz de atuar em variados segmentos de uma economia. Os tempos atuais trazem desafios, mas, independentemente do período, as atividades produtivas podem e devem despertar oportunidades de atuação do profissional.






