“Braga temia a ascensão de Rebecca”

Em: 31 de outubro de 2012
Nesta entrevista ao Jornal do Commercio, o deputado estadual Marcelo Ramos diz que o desempenho do PSB nas eleições municipais 2012 o consolida nacionalmente e intimida o poder de pressão do PMDB junto ao Palácio do Planalto
Nesta entrevista ao Jornal do Commercio, o deputado estadual Marcelo Ramos diz que o desempenho do PSB nas eleições municipais 2012 o consolida nacionalmente e intimida o poder de pressão do PMDB junto ao Palácio do Planalto

Nesta entrevista ao Jornal do Commercio, o deputado estadual Marcelo Ramos diz que o desempenho do PSB nas eleições municipais 2012 o consolida nacionalmente e intimida o poder de pressão do PMDB junto ao Palácio do Planalto. Marcelo defende o diálogo entre o prefeito eleito Artur Neto (PSDB) e o governador Omar Aziz (PSD) e critica “a truculência” do senador Eduardo Braga que, na sua opinião, descartou propositalmente a deputada federal Rebecca Garcia (PP) do processo eleitoral de Manaus. “Ele temia a liderança dela”, afirma.

Jornal do Commercio – Como o PSB vai se comportar, em nível nacional e em nível regional, depois das eleições 2012? O partido vai continuar aliado do governo federal?

Marcelo Ramos – O PSB continuará aliado do governo federal, mas de forma independente. É isso que faz o PSB crescer e apresentar-se como alternativa de poder ao país. O partido sai do atual processo muito fortalecido, foi o partido que mais cresceu proporcionalmente, elegeu cinco prefeitos de capitais, inclusive o prefeito de Belo Horizonte, um dos maiores colégios eleitorais do país. E um registro importante: em todos os locais onde o PSB enfrentou diretamente o PT, mesmo com as presenças da presidente Dilma e do ex-presidente Lula, o PSB saiu-se vitorioso. São os casos de Campinas, Recife, Cuiabá, Fortaleza e Belo Horizonte.

JC – O PSB, então, já um partido credenciado a lutar pela Presidência da República em 2014?

Marcelo – Não sei se o PSB, com as vitórias que acaba de obter, é um partido credenciado a disputar a Presidência nas próximas eleições, mas o crescimento e o fortalecimento do PSB têm um outro componente importante no contexto da República, porque ele diminui o poder de fogo de um partido que não faz alianças com base em programas, mas com base no fisiologismo. O governo federal deve entender isso, que o PSB diminui o poder de pressão do PMDB, um partido sempre marcado pelo fisiologismo.

JC – Quais serão os próximos voos do PSB no Estado do Amazonas depois da grande vitória obtida com os tucanos de Artur Neto?

Marcelo – Primeiro, vamos analisar os cenários. Na ordem natural das coisas, o ex-prefeito de Manaus, Serafim Corrêa, deverá candidatar-se a deputado federal e eu, Marcelo Ramos, candidato à reeleição e tentando fazer mais um deputado estadual.

JC – E com relação à eleição majoritária para 2014?

Marcelo – É óbvio que há dois cenários: as possíveis candidaturas de Eduardo Braga e Amazonino Mendes. Não cabemos em nenhuma dessas candidaturas. Vamos ter que construir alternativas, ainda que abrindo mão da possibilidade de elegermos deputado federal. Já estamos refletindo sobre tudo isso e em dezembro teremos uma importante reunião com todos os vereadores socialistas eleitos no interior do Estado. Já estamos refletindo esse processo.

JC – No segundo turno a campanha do PSB foi tão ostensiva como se fosse para ele mesmo e não para eleger o tucano Artur Neto. Evidente que o PSB vai querer participar diretamente do novo governo municipal. Ou não?
Marcelo – Não tenho dúvida disso, é a orde
m natural das coisas, pois o PSB não é partido de ficar em cima do muro. Declarou apoio, tem que participar da luta eleitoral. Cada um no seu limite, e ninguém poderia me cobrar no sentido de fazer campanha pro Artur, no segundo turno, mais do que fiz pra mim e pro Serafim Corrêa no primeiro turno. Nossas alianças não são firmadas em trocas, mas é claro que o PSB colocará nomes à disposição do prefeito eleito para ajudá-lo a governar. Mas a decisão final será de Artur Neto, que tem total autonomia para escolher seu secretariado.

JC – Como o PSB analisa as mudanças que parecem estar em marcha na política do Estado?

Marcelo – De 1996 até aqui cumprimos um ciclo com Serafim Corrêa. Agora, tem eu, Marcelo Ramos, tem o vereador Marcelo Serafim, o vereador Elias Emanuel, o vereador Ali Assi, novas lideranças que as eleições revelaram, assim como o Rodrigo Araujo e outros que as urnas mostraram. Isso é motivo de alegria. O PSB não é um partido de um homem só ou de dois homens sós, o que nos permite oferecer alternativas para Manaus. O que não seria natural era eu virar secretário do governo Artur Neto, porque eu sou deputado e, se eu deixo minha cadeira na Assembleia Legislativa, o suplente que entraria não pertenceria ao PSB. Agora, vou apoiar a nova administração municipal e também estarei atento para que ela não se desvie dos caminhos que foram propostos em campanha.

JC – Como o PSB analisa a aproximação do prefeito eleito Artur Neto com o governador Omar Aziz?

Marcelo – Acho que isso é digno de registro. Eu não sou daqueles opositores que só veem defeitos. O governador Omar Aziz teve uma atitude republicana durante todo o processo eleitoral municipal. Alguns podem até chamar isso de traição, mas não é traição, isso é postura de governador do Estado. Todo mundo sabia quem era a candidata dele e ele foi pro palanque da sua candidata, mas em momento algum ultrapassou os limites que o cargo de governador exige. Omar não ofendeu nenhum candidato e não cometeu nenhum arroubo. Portanto, é normal que ele dialogue com o prefeito eleito da cidade de Manaus, pois não há arranhões entre eles. É normal que Omar dialogue com Artur, até porque a cidade de Manaus representa 90% da economia do Estado que Omar governa.

JC – Que lições o processo eleitoral 2012 pode ter oferecido a um cacique como o senador Eduardo Braga, do PMDB?

Marcelo – A primeira lição é que truculência não combina com democracia, e o senador tem uma trajetória marcada pela truculência. Nas atuais eleições ele conseguiu ultrapassar todos os limites. O que ele fez com a deputada federal Rebecca Garcia (PP) significou ultrapassar todos os limites éticos, morais, pessoais e familiares. A segunda lição foi a resposta que o povo deu a ele, a resposta segundo a qual o povo não aceita mais esse tipo de truculência na vida pública.

JC – Quer dizer que a era Braga está no fim?

Marcelo – Vejamos a situação… Quem acha que o senador Eduardo Braga, apesar de tudo, é uma carta fora do baralho, está muito enganado. Se a eleição de 2014 fosse hoje, o governador seria ele, se não acontecesse nada extraordinário. O grupo que ele representa tem uma grande capacidade de se reinventar e esmagar qualquer um que surja como alternativa fora dele. Esse grupo esmaga desmoralizando politicamente ou cooptando. Quem não está cooptado e quem tem independência nesse processo e está preparado para enfrentar o senador Eduardo Braga neste momento? Quem? Então, a coisa não é tão simples assim, Eu acho até que ele foi o maior derrotado das eleições 2012, mas ele ainda tem muita força política. E essa derrota agora pode ser até perigosa, pois ela pode alertá-lo a mudar de postura e recompor suas estruturas políticas pra chegar com tranqüilidade em 2014.

JC – O cacique, então, pode renascer com muito mais força?

Marcelo – Claro que a vitória é boa, mas ela é sempre perigosa. Vale a pena citar Joaquim Nabuco. Depois da eleição de 1987, o Partido Conservador teve uma vitória acachapante. Em 1989, a monarquia, que esse partido defendia, caiu e a República foi proclamada. Joaquim recomendou “cuidados” aos conservadores, mas não foi ouvido. Quero dizer que a vitória acachapante de Artur Neto em Manaus aumenta o nível de responsabilidade do líder tucano no novo processo. Ele deve ter cuidado para saber lidar com as pressões que vai sofrer até janeiro de 2013, quando terá que anunciar o seu secretariado e a cara do que ele vai fazer. Aí ele poderá mostrar a estrutura de poder das forças que efetivamente apoiaram a sua campanha.

JC – Quando Eduardo Braga descartou a candidatura da deputada Rebecca Garcia, ela tinha 34% de projeção popular contra 4% de Artur Neto. Uma semana depois da troca de Rebecca por Vanessa as pesquisas da Perspectiva Tecnologia da Informação davam 23% para Artur e 17% para Vanessa. Estava criado o clima da revanche de 2010. Braga não fez essa leitura?
Marcelo – O senador Eduardo Braga deu ao povo de Manaus a chance da revanche de 2010, a covardia que ele tinha feito naquele ano. Também o que precisa ficar claro é que pessoas autoritárias, pessoas de pouco compromisso com a democracia, como o senador Braga, têm mais medo do surgimento de uma liderança de oposição do que de uma liderança surgida dentro do seu próprio grupo. No entanto, Braga teve medo da deputada federal Rebecca e o que ele fez foi matar no nascedouro uma liderança que poderia surgir dentro do seu próprio grupo. Ele teve medo dela, temia a ascensão dela. A deputada Rebecca é uma pessoa preparada, não aceita bajulação e, com certeza, não se submeteria aos arroubos do senador Eduardo Braga.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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