“Acabou de comer pega o beco, tem gente em pé querendo comer. Carapanã encheu, voou”. É com esse tratamento que Jorge, proprietário da peixaria Jorge do peixe, atrai uma clientela cada vez maior ao seu restaurante. A irreverência e as brincadeiras têm sido a principal arma do empresário, que foi pai aos 16 anos, para atrair a simpatia de novos fregueses e daqueles que já frequentam a peixaria. Ele garante que as pessoas que vão almoçar ou jantar em seu estabelecimento saem mais alegres e felizes.
A equipe do Jornal do Commercio teve a honra de entrevistar Jorge Naldo Cabral Bastos, mais conhecido como “Jorge do Peixe”, no momento de pico em seu restaurante, localizado no bairro Japiim I, e pôde constatar o clima de descontração que toma conta do lugar na hora do almoço. “É sempre assim, o movimento é intenso, porém, descontraído. Tento com minhas brincadeiras quebrar o clima tenso que vejo no semblante das pessoas, não sei quais os seus problemas, só sei que elas saem daqui mais alegres”, disse.
Jornal do Commercio – Como começou sua carreira profissional?
Jorge do Peixe – Começou quando eu tinha 14 anos, aprendi a dirigir cedo, foi aí que tive a ideia de trabalhar fazendo frete. Eu pegava as compras das pessoas e as acompanhava até a minha chev (veículo utilitário). Quando chegávamos ao carro elas se assustavam quando viam que quem ia dirigir era eu, mas muita gente me conhecia e me recomendava há outras pessoas, dizendo que eu era um dos melhores do lugar.
JC – Ser pai aos 16 anos, atrapalhou seus planos para o futuro?
Jorge – Aos 14 anos tive a minha primeira mulher, aos 16 já era pai. Foi difícil, mas sempre fui um cara dedicado ao trabalho, por isso nunca deixei faltar nada a minha família.
JC – Como você entrou no ramo de vendas de peixe?
Jorge – Entrei no ramo por acaso, fui a primeira pessoa a colocar uma D20 (pick-up) para fazer frete na Manaus Moderna (na época só existia kombi antiga). Em um belo dia, meu cunhado, que vendia peixe, ficou no prego com sua kombi velha, aí ele pediu para que eu alugasse meu carro. Em dois dias trabalhando com meu cunhado, percebi o quanto era rentável vender peixe. Foi a partir daí que entrei no ramo e nunca mais saí. Passei a comprar e revender, e já estou nisso há cinco anos. O diferencial é que, além de vender peixe para viagem, abri dois restaurantes.
Rei da Descontração
Entre uma pergunta e outra, Jorge atendia ao telefone (celular em forma de bola de futebol) e, ao mesmo tempo, dava atenção aos fregueses. Uma moça que fazia parte de um grupo de 25 pessoas da Empresa Faber Castel, que almoçava em sua peixaria, pediu a ele que lhe trouxesse um pires. Jorge gritou para a funcionária, “traz um pires de rico para essa moça aqui, não pega prato fuleragem não!”, arrancando risos de todos que almoçavam no restaurante.
JC – Entrar em um ramo que você não conhecia foi difícil?
Jorge – Todo início é difícil, mas em um ano empinei. Sou o único que possuo bancas de vendas de peixe e peixarias (restaurantes). Em minhas bancas o cliente escolhe o peixe que quiser comer e manda assar, seja o tipo que for (tambaqui e matrinchã sem espinha), com preços a partir de R$ 25,00, completo para três pessoas, com baião de dois ou feijão com arroz e farofa. Ele também não precisa se preocupar com a sobremesa, pois distribuo banana, melancia, morango e até iogurte. Com esta receita, cresci 100% em um ano.
JC – A concorrência nesse setor é muito acirrada, qual o seu diferencial?
Jorge – Eu diria que a higiene seja o meu diferencial. Tenho muito cuidado no trato com o produto que vendo. Observo que muita gente vende peixe sem o mínimo de higiene. Kombis sujas e enferrujadas servem de abrigo para o produto que vai ser consumido pela população, isso é uma falta de respeito.
JC – Como você concilia a administração das barracas e peixarias com sua vida familiar?
Jorge – Passei uma fase que não desejo nem para o meu pior inimigo. Separei da minha esposa e, com essa separação, perdi tudo que construí em cinco anos de trabalho. Fiquei devendo aos meus fornecedores mais de R$ 100 mil reais, pensei até em suicídio, mas, graças a Deus, consegui erguer novamente a cabeça e ir à luta. Emprestei R$ 300 para começar tudo de novo e, em pouco mais de oito meses, recuperei quase tudo que perdi e já paguei mais de 90% das minhas dívidas. Sou um homem protegido por Deus, meu pai também me ajudou muito.
JC – De onde vem o peixe que você vende?
Jorge – Mando buscar diretamente da reserva de Mamirauá, abaixo do município de Tefé/Am.
JC – Qual o público que frequenta seu restaurante?
Jorge – São todas as classes sociais, do empresário ao peão, do General ao conscrito, enfim, todos são bem vindos e muitos já me conhecem e sabem como eu sou. Até o dono da Churrascaria Búfalo já almoçou aqui e adorou o atendimento (risos). Os meus clientes acabam virando meus patrocinadores. Por R$ 300 ao ano, pinto a marca de suas empresas nos murais do nosso restaurante.
JC – Você tem alguma pretensão política?
Jorge – Alguns amigos surgiram com essa ideia. Não descarto a possibilidade, mas acho que ainda é cedo para pensar nisso. No momento, só penso em tocar meus três restaurantes e sustentar meus sete filhos. Quem sabe no futuro.
JC – Por que, em determinada época, o peixe amazônico fica com sabor ruim?
Jorge – O peixe que é criado em cativeiro é alimentado por ração, que modifica o sabor dele. O peixe de rio, no período da cheia, come sementes que alteram seu sabor e, normalmente, a carne fica amargando. Nesse período importo peixe de Boa Vista/RR.
JC – Quantas pessoas trabalham em suas peixarias?
Jorge – Sozinho não conseguiria nada. Emprego 25 pessoas que me ajudam bastante. Tenho um lucro razoável, são muitas as despesas, mas vale a pena.
JC – Como você explica a quantidade de faixas do restaurante espalhadas pela cidade, qual o propósito?
Jorge – Eu tinha uma barraca na Av. Silves, em frente ao conjunto Jardim Brasil. Tudo ía muito bem, até que o dono do ponto cresceu o olho e me pediu o ponto. Tive que procurar outro lugar e, como meus cliente não sabiam onde andava Jorge do Peixe, resolvi espalhar faixas pela cidade, para informar meu novo endereço. Nessa brincadeira, já investi R$ 11 mil reais em propaganda.
Reconhecido pelo público
O gerente da Empresa Faber Castel, Hélio Cortazzo, disse ter gostado do jeito irreverente que Jorge atende seus clientes.
“É a primeira vez que venho aqui, e estou gostando muito do atendimento. O clima é bastante descontraído, dá até para esquecer os problemas do dia a dia. A gente sai daqui com o espírito renovado. O peixe é bom e a companhia do Jorge é algo inusitado”.
Para o empresário Humberto Cinque, a irreverência de Jorge faz a diferença.
“Eu o conheço há 10 anos, e frequento a peixaria a dois. O Jorge é um cara muito simpático e irreverente, isso acaba atraindo as pessoas. Se ele mudar quebra o encanto”, disse Cinque, sorrindo.
Jorge, O irreverente
Uma pessoa irreverente é alguém que vai contra as normas da sociedade e da boa educação que considera sem importância, vive a vida do modo que se sentir feliz e à vontade, sem se importar com costumes antigos e regras sem motivo.






