“Não queremos mais fabricar misérias”

Em: 15 de agosto de 2011
Pela primeira vez, a possi­bilidade da cria­ção de novos municípios no Estado te­rá fundamentação científica e não apenas política, afirma o geólogo Frederico Cruz, assessor especial do DNPM, nesta entrevis­ta ao Jornal do Commercio.
Pela primeira vez, a possi­bilidade da cria­ção de novos municípios no Estado te­rá fundamentação científica e não apenas política, afirma o geólogo Frederico Cruz, assessor especial do DNPM, nesta entrevis­ta ao Jornal do Commercio.

Pela primeira vez, a possi­bilidade da cria­ção de novos municípios no Estado te­rá fundamentação científica e não apenas política, afirma o geólogo Frederico Cruz, assessor especial do DNPM (Depar­tamento Nacional de Produção Mine­ral), nesta entrevis­ta ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – A maioria dos municípios do Estado não possui receita própria, então, vai-se criar novos municípios para se fabricar mais problemas, mais misérias?
Frederico Cruz – Por determinação do deputado estadual Tony Medeiros, que preside a Comissão de Assuntos Municipais, da Assembleia Legislativa, foi constituído um núcleo de acompanhamento às localidades que se pretendem tornar municípios. Paralelamente, foi criada uma boa consultoria jurídica para que a gente usasse o marco regulatório, a base legal que pudesse aliar as propostas da Assembleia com as propostas previstas em lei. O que nós não queremos mais é criar no Estado do Amazonas mais nichos de misérias, queremos criar governos que planejem, que executem de acordo com as vocações naturais das regiões.

JC – Hoje, o Estado conta com 62 municípios e muitas desigualdades regionais…
FC – Alguns municípios são mais desenvolvidos que outros e os independentes são exatamente aqueles que dependem de uma atividade chamada mineração. São os municípios de Coari e Presidente Figueiredo. Então, a nossa comissão está estudando, dentre outras coisas, as possíveis riquezas minerais existentes no subsolo das regiões que podem ser emancipadas. Estamos estudando a situação de Moura e Iauaretê, no rio Negro, e de outras localidades próximas à Região Metropolitana de Manaus como Novo Remanso, distrito de Itacoatiara que tem vida própria, anda com as próprias pernas, possui grande atividade agrícola. Estudamos Caviana, em Manacapuru, que tem petróleo, Badajós, com petróleo e que faz parte do arco Coari/Codajás. Também estudamos Santo Antônio do Matupi, região encravada na BR 230, Transamazônica, estrategicamente situada entre Manicoré, Humaitá e Apuí. Santo Antônio tem uma pecuária fortíssima, um PIB mais elevado que Manicoré e pode virar uma unidade municipal muito forte, tem uma base econômica, uma população residente e uma configuração geográfica estratégica.

JC – Há outras localidades com esse perfil, com densidade populacional e base econômica importante?
FC – Podemos citar Puru-Puru, situado entre Autazes, Careiro da Várzea e Careiro Castanho, com bom potencial econômico. Nós não queremos criar mais áreas empobrecidas e nem queremos tirar as partes ricas de municípios que têm alguma sustentabilidade, nenhum município será criado em detrimento de outro, nossa comissão é um núcleo de trabalho sério, encarregado de avaliar cada região prevista para ser emancipada, que condições de caminhar com as suas próprias pernas, diferentemente do passado quando se falava em criar municípios, mas não se estudava a vocação local.

JC – Este também seria um bom momento para se discutir a ideia do ex-vice-governador Samuel Hanan sobre a criação de polos econômicos ?
FC – Sim, porque nós devemos pensar em políticas econômicas mais justas, não podemos pensar só em Manaus, precisamos criar um superprograma de desenvolvimento.

JC – No passado, houve programas como o do governo José Lindoso, o Programa de Desenvolvimento Rural Integrado (PDRI) …
FC – O PDRI foi o melhor programa de desenvolvimento já realizado, porque levantou a situação dos recursos naturais, nós diagnosticamos os municípios que não executaram políticas locais acertadas. Todo município possui recurso natural, mas esse recurso não está sendo observado de uma forma evidenciada e elencada para que possa desenvolver determinada região. Barcelos, por exemplo, é o turismo, lá há um arquipélago de ilhas repletas de peixes ornamentais, de orquídeas, e muito minério, e não se admite mais que em Barcelos se venda um milheiro de peixes cardinais a dez reais e uma unidade desse mesmo peixe custar em Brasília a exata quantia de dez reais. Essa é a ideia do dr. Samuel Hanan, a ideia dos polos econômicos. A região do Alto Solimões tem vocação pra peixe e madeira, o Vale do Rio Madeira precisa de um importante programa de desenvolvimento. Lá, nós temos o Programa Extrativismo Mineral e Familiar, assistido pelo governo do Estado, precisamos que esse programa tenha sua cadeia produtiva desdobrada. Nós precisamos incentivar o surgimento da in­dústria de joalheria, transformando o ouro em ativo financeiro, agregando em Ma­nicoré e Humaitá o polo joalheiro. Já pensou um cordão de ouro fabricado ali, com a marca amazônica, com o designer amazônico, chegando ao mercado europeu?

JC – Para que tudo dê certo, então, sobre a criação de mais municípios, urge que o governo estadual planeje realmente e faça com que os prefeitos municipais sigam esse planejamento.
FC – Nesse sentido, acho que o governador Omar Aziz está sensível a esse planejamento que aconselhamos e queremos, o governador pode, inclusive, olhar o PDRI, um trabalho maravilhoso que foi feito no interior do Estado no final da década de 70 e início dos anos 80. O Governo do Estado tem que reestudar o Projeto de Dendê, lá em Tefé, e valorizar o Plano Amazonas conduzido pelo saudoso economista Raimar Aguiar, mostrando como as ações de governo podem avançar com a ajuda da ciência e da tecnologia. Vejamos o caso de Parintins, lá não tem só folclore e nem turismo em apenas uma época do ano, lá há perspectiva de haver mineração com petróleo e gás natural. Lá também pode haver silvinita e bauxita. Enfim, o homem interiorano hoje precisa ter renda e, para possuir isso, precisa de técnica de manejo, de conhecimento, tecnologia. Ele quer possuir bens econômicos que ele vê na televisão, não quer mais ser mero pedinte

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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