Caiu então, por acidente, a xícara de chá no chão do casarão, a menina Helena, fez menção de se abaixar para limpar a bagunça quando foi reprimida por sua tia Joaquina. – Não faças o trabalho de uma escrava. Não vês que és fidalga e que a ti não cabe o trabalho, pois este é desonra para os nobres!
As linhas acima, livremente criadas por mim, poderiam ser uma narrativa corriqueira na sociedade brasileira do período colonial dotada de uma atmosfera patriarcal seguidora do modelo de “civilização” então vigente na Europa cujo pensamento social era inebriado de preconceitos quanto à condição do trabalho –visto como sinônimo de escravidão, condição indigna para os que estavam nas camadas mais elevadas. A alta classe apenas preparava os homens para assumirem cargos políticos e administrativos em geral. As classes imediatamente abaixo da elite percorriam o mesmo caminho: fugiam da “condição indigna do trabalho” e aspiravam o status de elite.
Nos dias atuais, ainda se nota o reflexo desse pensamento no comportamento de muitos de nós tal como uma nódoa em lençol branco. Percebe-se o desrespeito pelo serviço das profissões ditas “menores” como os faxineiros, os garis, os zeladores, os pedreiros, os porteiros, os carregadores etc. Esses ofícios são importantes como qualquer outro, pois, tal com engrenagens integram a grande máquina social. Essa mácula de ofício, ou seja, essa rotulagem de que há ofício nobre e outros não, impedem-nos de exercitar a empatia e as coisas simples.
5S, síntese da educação doméstica
Apesar de o Programa 5S ser creditado ao japonês Kaoru Ishikawa (1915 – 1989 ) ele está, de certa forma, inscrito nas noções de estética e harmonia peculiar a qualquer povo e cultura. Dessa forma, os 5S ou cinco sensos -utilização, ordenação, limpeza, padronização (ou saúde) e autodisciplina – estão muito ligados à educação doméstica. Assim, parece que praticar o 5S é praticar “Bons Hábitos” ou “Bom Senso”, porém esse bom senso é fatalmente transferido a terceiros. Desse modo, é comum em empresas haver grande resistência em se implementar o programa 5S principalmente em áreas cujos profissionais são graduados. Julgam-se acima do simples, do bom hábito de zelar pelo seu posto de trabalho, de eliminar os excessos e organizar seus instrumentos e equipamentos. Reflexo da mácula de ofício. “Não estudei pra isso”, dirão uns, “nem na minha casa eu limpo” falarão outros. O senso de limpeza, por exemplo, incute um significado mais profundo do que simplesmente o ato de limpar propriamente dito, mas o ato de manter a limpeza (que foi feita por um zelador, por exemplo) por um maior período de tempo. Isto é respeito. Respeito a quem fez o trabalho, aos demais e a si mesmo. Essa falta de espírito de coletividade é mais latente em ambientes de uso comum como banheiros e logradouros públicos. Joga-se lixo na rua por acreditar que há alguém para fazer isso. Já ouvi dizerem: “os garis são pagos para limpar”.
Apesar da simplicidade da idéia e da facilidade de aplicação, a prática efetiva de 5S não constitui uma tarefa tão fácil. Isto se deve porque na essência da filosofia dos sensos está a promoção de mudança de atitudes das pessoas, é dizer, sobretudo, livrar-se da mácula de ofício e isso se dará à medida que tivermos modelos inspiradores seja em casa pelos pais (nossos heróis de infância), seja na empresa pelos chefes, gerentes, diretores, seja pelas nossas lideranças políticas, seja por um ídolo pop.
O efeito Pigmaleão
O excêntrico rei de Chipre, Pigmaleão era exigente com as mulheres. Por não encontrar a mulher ideal, usou seu talento e esculpiu uma em mármore. Diante desse “modelo feminino ideal” com tamanha perfeição, tratava-a como se fosse de carne e osso, cercando-a de galanteios e homenagens. Tocada por tamanha veneração, Afrodite, a deusa do amor, atende aos desejos do escultor de modo a tornar a sua obra numa mulher de verdade. Galatéia, era assim que se chamava, e Pigmaleão casaram e tiveram um filho, Pafos.







