A Bahia de Liúba e de todos os santos

Em: 6 de setembro de 2017
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“Você já foi à Bahia, nêga? Não? Então vá! Quem vai ao ‘Bonfim’, minha nêga, nunca mais quer voltar. Muita sorte teve, muita sorte tem, muita sorte terá”, cantou o grande Dorival Caymmi. Pois uma nêga baiana fez o inverso. Veio a Manaus e não mais quis voltar para a ‘terra de todos os santos’. “Gosto das pessoas daqui, das praias de água doce, dos peixes, do jaraqui que comi e não me deixou mais sair daqui”, brincou a museóloga e arquivista e, desde o início desse ano, empreendedora Lívia Maria Liúba Baêta da Silva.

Mesmo com muitos baianos morando em Manaus, Liúba observou que a cultura baiana, nos trajes, na música, na dança e na gastronomia, é praticament inexplorada. Foi então que ela, que mora em Manaus desde setembro de 2015, teve uma ideia junto com a sócia Ana Paula de montar uma empresa que vendesse produtos da Bahia, que por sua vez tem forte inspiração africana. Assim surgiu a ‘Pretice das Nêgas’.

Da ideia ao surgimento da ‘Pretice das Nêgas’ se passaram seis meses, conta a microempresária. “Em setembro de 2016 eu pensei no negócio e, em março desse ano, a empresa já existia.
A primeira ideia foi criar uma camisetaria, na qual fossem desenvolvidas estampas afro-brasileiras, pintadas pelo processo da serigrafia e apliques. A partir de conversas e viagens a Salvador, percebi que poderia inserir mais produtos, tipo acessórios femininos: turbantes, bolsas em tecido, bijuterias (colares, brincos, pulseis e anéis), e cangas para banho”, lembrou.

Aos poucos passamos a microempresa passou a confeccionar a maioria dos próprios produtos. “Desde março de 2017 começamos a trabalhar com tecido africano e colares em coral africano trazidos de lojas africanas de Salvador. E continuamos trazendo novidades como os vestidos em estampas étnicas, camisas e batas com recorte de tecido africano e saias em chita”, listou.

E como a ideia é popularizar os produtos, nada melhor que uma feira. “Atualmente a ‘Pretice’ pode ser encontrada na feira da Eduardo Ribeiro, aos domingos, e em várias outras feiras que acontecem pela cidade. Também disponibilizo os produtos na internet”, lembrou.

E a internet é uma arma poderosa utilizada por Liúba. Durante as feiras ela grava vídeos de curta duração onde mostra os produtos de sua barraca de uma forma bem baiana, cheia de ginga e alegria. Com isso, conquista novos clientes que vão até a feira para verificar in loco o que é que a baiana tem, mas principalmente, conhecê-la pessoalmente.

Segundo a artesã, os produtos da ‘Pretice das Negas’ são muito bem aceitos pelas clientes. “Por exemplo, temos faixas e tiaras coloridas que saem bastante e os turbantes, nós ensinamos a montar na hora e as clientes já vão usando”, explicou. “Nossos produtos podem ser cópias de originais africanos, ou mesmo criados em cima dos originais, mas o que importa é que eles traduzem a verdadeira cultura africana através das cores, dos desenhos, dos grafismos e mesmo da religião. Minha religião é o candomblé, que aqui em Manaus é bem forte, por sinal”, revelou.

Orgulho de ser negra
Liúba, na realidade, é um apelido de Lívia, mas Baêta é seu sobrenome mesmo, um sobrenome com ascendência portuguesa e uma história bem curiosa. “No século 19, em Minas Gerais, o visconde Antônio Baêta se apaixonou pela escrava Antônia, que pertencia ao seu pai. Sabendo que não poderia casar com ela pelo fato de ser um nobre e ela uma escrava, Antônio resolveu fugir para bem longe com a sua amada, e foi para Salvador onde casou com Antônia dando-lhe o sobrenome e iniciando a família Baêta na capital baiana, que até hoje se perpetua”, lembrou. “Recentemente descendentes mineiros dos Baêta nos procuraram pra conhecer os descendentes baianos da família”, completou.

A empreendedora disse sentir orgulho de ser descendente de africanos e verificou que alguns dos poucos negros existentes em Manaus não se assumem como negros. “Dizem que são morenos, ou até mesmo brancos”, afirmou. A primeira vez que a baiana veio a Manaus, em 2009, foi para trabalhar como museóloga e arquivista.

“Realizei alguns trabalhos como voluntária no Museu Amazônico e no Igha (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e acabei fazendo grandes amizades. Fui embora em 2011.
Depois fui contratada pela Petrobras, em 2015, pra trabalhar no Projeto Gasoduto Coari Manaus, o projeto acabou e eu também acabei ficando aqui e não pretendo mais ir embora, apesar de minha ‘mainha’ ficar me chamando lá de Salvador”, disse.

Recanto baiano
E mais uma vez lembramos Caymmi quando cantou: “No tabuleiro da baiana tem. Vatapá, oi, caruru, mungunzá, oi, tem umbu pra ioiô…”.
É que Liúba notou que a culinária baiana praticamente inexiste em Manaus. “Estou pensando em trabalhar a gastronomia baiana, amadurecendo a ideia. Se todo o planejamento der certo, teremos um tabuleiro da baiana em plena Eduardo Ribeiro e outras feiras que tiverem na cidade”, adiantou. Liúba disse conhecer apenas um local que produz quitutes genuinamente baianos em Manaus, o ‘Recanto Baiano’, que funciona no Conjunto Castelo Branco, no Parque Dez, todos os sábados, das 17h às 21h, desde 2003. “Representamos a Associação das Baianas de Acarajé, aqui no Norte, e temos a responsabilidade de manter a tradição da culinária.

No ‘Recanto Baiano’ vendemos acarajé, abará, cocada e banana real”, falou Rose Baiana, que junto com sua mãe, a popular ‘Mainha’, são as proprietárias do espaço. “Também fazemos muqueca baiana, bobó de camarão, xinxim de frango, arrumadinho e escondidinho, típicos da Bahia, mas somente por encomenda”, esclareceu. Realmente a Bahia fica logo ali.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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