Dançar não é para qualquer um. É necessário dedicação, esforço e certo preparo físico. Pois dançar balé clássico é para menos pessoas ainda. “É a dança mais difícil que existe”, assegurou a professora e coreógrafa Juliana Borges Cardoso, bailarina desde 1991 quando iniciou no balé com ninguém menos que José Rezende, um dos maiores mestres dessa dança que o Amazonas já conheceu. Juliana é, atualmente, a diretora da Escola de Ballet da Cia de Dança Encontro das Águas. “Em 2009 fazia parte da Companhia de Dança Encontro das Águas quando encenamos o espetáculo de dança ‘Complexo de Édipo’, então, quando fundei a escola de balé, em 2015, resolvi homenagear a companhia”, explicou.
Direcionar o ensino para o balé clássico foi natural, por conta da formação de Juliana. “Estudei balé de 1991 a 1997, depois parei e só voltei em 2004, continuando até os dias de hoje. Me formei em dança na UEA (Universidade do Estado do Amazonas) e pela RAD (Royal Academy of Dance) de Londres, na Inglaterra”, completou. A RAD tem a maior banca examinadora de balé clássico do mundo, perante a qual cerca de 200 mil candidatos prestam exames durante todo o ano para ingresso nos cursos ministrados na academia. “Durante cinco anos, em Salvador, fui avaliada pelos examinadores da RAD, que viajam o mundo, classificando os alunos para níveis mais elevados, ou não”, disse.
Criando a cultura do clássico
Juliana verificou, em suas viagens por Rio de Janeiro e São Paulo, que as escolas de lá conseguem manter turmas de adultos, algo ainda difícil em Manaus. “Acho que é questão de tempo para conseguirmos ter mais alunos e alunas adultos praticando o balé em Manaus. Ainda temos poucas escolas e as pessoas precisam descobrir esse prazer de dançar o balé clássico. É difícil? É, mas o prazer de se conseguir fazer as coisas difíceis é maior”, ensinou. “Em relação às outras danças, o balé clássico exige mais disciplina, mais educação, mais técnica, afinal de contas é uma dança que vem sendo desenvolvida há quatro séculos. Não poderia ser diferente”, completou.
Para a criação dessa cultura, a Encontro das Águas aceita alunos a partir dos três anos até os 29 anos de idade e para Juliana esta faixa etária necessita de capacitação específica. “Resolvi delimitar essa faixa etária porque existe o balé adulto, exatamente para essas pessoas que já passaram um pouco da idade de começar a aprender a dança, mas ainda nutrem o sonho”, afirma a professora.
Segundo Juliana, fechar turmas, formáw-las e reter esses talentos é complicado.
“Desde que abri a escola tentei formar uma turma de adultos, mas eles vão desistindo aos poucos. Alguns não voltam mais depois da primeira aula. É mais uma empolgação. Um sonho mesmo. Tenho uma única aluna, de 29 anos, mas ela faz suas aulas junto com as adolescentes”, falou.
O balé, chamado clássico, aquele em que o destaque são as bailarinas dançando nas pontas dos pés e todos logo lembram de “A Morte do Cisne”, apresentado pela primeira vez em 1905, foi criado nas cortes da Itália renascentista, no século XV. Depois começou a ser dançado em teatros na França, Inglaterra e Rússia, tendo este último país passado a possuir uma das escolas mais respeitadas do planeta. Atualmente existe o balé contemporâneo, uma variação do clássico.
Homens querem pressa
Atualmente a Encontro das Águas tem 45 alunas e nenhum homem. “Não considero um preconceito por parte deles. Os homens gostam de coisas mais rápidas, preferem workshops. Pretendo formar uma turma só com homens, separados das mulheres, porque o ensinamento é específico para eles. Quem estiver interessado, pode nos procurar”, adiantou Juliana. A Escola de Ballet da Cia de Dança Encontro das Águas tem aulas às terças, quintas e sextas-feiras, das 17h30 às 21h30; e as sábados, das 9h às 18h. Contatos pelo fone (92) 9 9102-0556.
O grande mestre
Se dependesse de incentivo, patrocínio ou reconhecimento locais, o jovem José Rezende, que deixou Manaus nos primeiros anos de sua infância, ainda na década de 1930, para estudar na Escola de Dança do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, não teria alçado os mais altos degraus da vida artística. Uma de suas primeiras mestras foi Maria Oleneva, a fundadora da Escola de Danças Clássicas do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e criadora do primeiro corpo de baile do Brasil. Além dela, o amazonense estudou com Tatiana Leskova, Ismael Guiser e, especialmente, com Nina Verchininna, a precursora da dança moderna no Brasil, em cuja companhia de dança Rezende teve o privilégio de dançar.
Na busca por ampliar seus horizontes com mais conhecimentos e experiências, Rezende desembarcou na Europa, em fins da década de 1940. O bailarino teveaulas em Zurique (Suíça) com Bóris Kniassef, em Paris (França) com Nora Kisse e Madame Preobajenska, e em Londres com Rex Reed, o coreógrafo do Australian Ballet, que o convidou para integrar a sua própria companhia de dança, levando-o nas várias turnês que rodaram a Europa. Foi na Europa que Rezende fez as suas mais importantes apresentações. Dançou em Paris, em 1956, e na Espanha ao lado do bailarino Pedro de Córdoba.
De volta ao Brasil, integrou o elenco do Ballet Brasileiro da Bahia ao lado de Márcia Haydée e Richard Cragun, sob a direção de Dalal Achcar. Em 1959, foi convidado a participar do Ballet Acadêmico Metropolitano como primeiro bailarino. Em 1967 teve a honra de dançar no espetáculo inaugural do Teatro Castro Alves, apresentando-se com a Companhia Nacional de Ballet. Trabalhou também no Teatro Municipal do Rio de Janeiro por mais de 27 anos, se destacando em várias produções. Em Manaus, além das aulas na Academia de Ballet Professor Rezende, fundada em 1971, José Rezende se dedicou a 12 anos de trabalho no Teatro Amazonas, onde tentou estabelecer um grupo que formasse a base de um futuro corpo de baile. Dos vários prêmios que recebeu ao longo de sua carreira, destacam-se a Medalha de Mérito Artístico de Dança que o Conséil Internacional de La Danse (Cidd – Unesco) lhe concedeu, e a nomeação, em 1988, para exercer o cargo de delegado do CBDD (Conselho Brasileiro de Dança), no Amazonas.
José Rezende manteve sua escola por mais de 30 anos, acompanhado da pianista Jerusa Mustafa na execução de partituras de música para exercícios de balé durante suas aulas e, principalmente, nos espetáculos como pianista convidada. O grande mestre do balé faleceu em 2011, aos 84 anos. Em 2010 ele fora homenageado pela última vez durante o II Festival Amazonas de Dança.







