A renúncia do governador de Nova York, destaque do noticiário nos últimos dias, demonstra que, num país sério, isso é o mínimo que faz o político quando é “pego com a boca na botija”. Descoberto como cliente de uma prostituta e tendo-a pago com o seu próprio dinheiro – não o do erário nem o de empreiteiras – Eliot Spitzer, em nome da dignidade do cargo público, viu-se na obrigação de sair de cena e pedir desculpas à população por ter traído sua confiança. Na Alemanha, a modelo e empresária que apareceu com os seios “quase à mostra” em fotografias de sua grife, desistiu da candidatura a um governo estadual. Políticos orientais denunciados, além de renunciar, cometem o suicídio para escapar à desonra.
Quanto mais desenvolvido e organizado o país, mais respeitado é o exercício do mandato popular. A ele só têm acesso e permanecem homens e mulheres comprovadamente capazes, probos e portadores de dignidade, carisma e liderança que os tornam guardiões do interesse público. Como tal, são figuras que não podem “errar” ou deixar dúvidas, principalmente no aspecto comportamental. Seu erro reflete-se diretamente na parcela de confiabilidade do poder que exercita e o torna moralmente inaceitável à sociedade que o elegeu.
Colocado como uma das principais economias do mundo e postulante a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), o Brasil não pode ficar à margem de valores e procedimentos éticos que suas nações parceiras cultuam natural-mente e as fazem respeitadas até pelos adversários. Os episódios acima são significativos e devem ser observados e imitados por todas as nações que ainda não chegaram ao estágio avançado de comportamento dos seus agentes públicos.
Toda vez que aqui eclodir um escândalo, deve tornar-se praxe que o envolvido –culpado ou não– se afaste do seu posto para evitar danos à instituição e diminuir a possibilidade de, com seu prestígio, prejudicar as apurações e relegar o interesse público. Poderá encontrar-se um meio de, até, permitir a volta dos que restem comprovados inocentes. Esse procedimento evitará a repetição de episódios como os do mensalão, dos sanguessugas e outros que têm emporcalhado a imagem da classe política nacional e –o pior– atinge indistintamente a reputação dos bons e dos maus.
Vivemos, no Brasil e na América Latina pós-ditaduras, a falsa idéia de que democracia é o “tudo pode”. Temos de, urgentemente, reformar esse conceito errôneo, passando a cultivar a plenitude de valores como dignidade, honestidade, verdade, civilidade, patriotismo e respeito. A permissividade que se tem visto jamais levará à verdadeira democracia. Pode, no muito, constituir a anarquia…
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da Aspomil (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo). E-mail: [email protected]







