A festa

Em: 3 de maio de 2018
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Foi realmente um dia de festa para mim, onde a compreensão de alguns detalhes sobre o que reputo ser um pouco do diminuto do que já conhecia me fez despertar para uma realidade nua, sórdida e DANTESCA que assola o nosso país, provavelmente o mais rico de todos os da Terra e, em paradoxal contrapartida, um dos mais pobres e corroídos pela desfaçatez criminosa implantada por aqueles que, por dever de ofício, deveriam promover o seu crescimento e grandeza, em prol da verdadeira igualdade de direitos e possibilidade de conquistas do cidadão e não esse mar de lama, corrupção e hipocrisia instalados no âmbito de Instituições das mais importantes do país, que, em tese, deveriam ser confiáveis.

Meu filho insistiu o quanto forças teve, até me subjugar. “Eu já sabia” o que viria, pois acompanho o noticiário envolvendo o momento político do país, principalmente desde o afastamento formal da presidente da República, nos limites circunscritos às minhas atividades rotineiras e no trâmite do percurso de chegada da notícia na região Norte. O que diminuiu sobremaneira a sensação de estar permanentemente atrasado foi a “febre” dos “WattsApp” da vida, que possuem o lado negativo de nos aprisionar e de entulhar o aparelho celular com algumas mensagens de valor, um sem fim de lixo, baboseira ditas a esmo e por mensagens de discórdia, inseridas por pessoas que não compactuam com o nosso pensamento e se imiscuem em grupos para destruí-los.

“O MECANISMO”. Lá estava o título da série que trazia à tona, em sequência inédita para o público comum, os meandros iniciais da “Operação Lava Jato”, que ficou conhecida com esse nome e respeitada em todo o Brasil, nos noticiários locais e mundo afora. Inicialmente muito confusa pelos detalhes técnicos e pela criatividade do produtor, o ainda nebuloso cenário da série encaixava-se, aos poucos, nos labirintos dos meus neurônios para integrar ficção e realidade factual.

Paulatinamente, os personagens irmanavam-se, em coincidências irrefutáveis, às personalidades vivas do dia a dia de uma nação empobrecida e maculada, em seus valores mais nobres, pelas ações nefastas daqueles que deveriam, por DEVER DE OFÍCIO, repetirei sempre, primar por preservar e engrandecer. O quadro é estarrecedor. Exagero meu? Liberdade poética de expressão? Sou um arauto do apocalipse? Eterno insatisfeito com o que tem e pessimista nato? Absolutamente assim não me vejo ou me entendo.
Otimismo foi o que nunca me faltou no transcorrer da minha vida, onde dividia com meus oito irmãos os frutos do salário mínimo recebido por meu pai por suas atividades como funcionário público.
O soldado raso que fui; as minhas conquistas, sempre por concursos e cursos realizados; a chegada ao topo do que me era permissível chegar pelos parcos méritos que iluminavam a minha ignorância; a minha formação em Direito na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro); os dois livros publicados e o prazer de escrever para o Jornal do Comércio do Amazonas; a inusitada honra vivida ao trabalhar por cinco anos na Defesa Civil do Estado do Amazonas e a alegria de ter formado, no Aeroclube do Amazonas, muitos Pilotos e Comissários de Voo (curso homologado na minha gestão), que hoje navegam nos céus do Brasil.

Ocorre que o nu e cru de uma realidade assustadora iluminam, a olhos vistos, o cenário que assustaria o próprio Dante. Fala-se em uma quadrilha criada para espoliar o país; do conluio de três ou mais Partidos Políticos irmanados sub-repticiamente para atingir tal fim; da união de homens públicos que, em atitudes pessoais apartidárias, formaram um grupo coeso que, ao mesmo tempo em que se fortalecem individualmente, mais e mais envolviam seus Partidos Políticos e deles se locupletavam, imergindo-os no mar de lama que, passo a passo, instalavam no cenário político-econômico brasileiro.

À medida em que o tempo passava, com os olhos fixos no televisor, eu sorria o sorriso de todos os desencantos, ao perceber que não havia uma quadrilha agindo, como supunha. O que constatei existir, na verdade, se resumia à montagem de um esquema sistêmico onde as peças-chave se perpetuariam no poder.

A personalidade do mandatário não necessariamente se faria substituível, e poderia apresentar variações ideológicas de maior ou menor radicalismo, mas sempre ajustadas ao sistema. No calor das eleições, os impropérios mútuos pela conquista dos votos aconteceriam de forma livre e acirrada, para serem sumariamente extirpados após o período eleitoral, quando as ofensas se transformariam em abraços à sombra dos corredores e as benesses desfrutadas seriam nababescamente divididas ao longo dos mandatos, quando o erário seria literalmente surrupiado e dilapidado.

No contexto geral, todos estariam protegidos. A preservação da ideologia fundamental seria garantida pelo abraço fraterno de todos os envolvidos no “esquema de corrupção” e pelo usufruto das benesses proporcionalmente compartilhadas nos moldes dos acordos espúrios firmados na calada da noite. Crime perfeito: perpetuação no poder; honorabilidade a toda prova; riqueza; luxo. Um verdadeiro lamaçal. Lixo fétido. Hipocrisia. Canalhice.

Esqueceram que a história do mundo não é contada assim. Nunca foi assim. As grandes Torres de Babel sempre ruíram. Impérios grandiosos foram desmantelados por inteiro pela correnteza dos desmandos, das inconsequências e das falcatruas. Grandes Imperadores sucumbiram indefesos nas ondas fétidas da ambição desmedida e das fraquezas humanas. Assim foi. Assim é. Assim será.

O processo sistêmico de corrupção evoluiu e tomou corpo. Quanto mais se alastravam os seus tentáculos, maior o poder e a sensação de impunidade, que se consolidavam até alcançar os limites do inconcebível. As riquezas se avolumavam nos paraísos fiscais e até mesmo no país, posto que os melindres da dúvida aos poucos eram soterrados pela certeza de que jamais seriam atingidos pelas barras da lei.
As mentiras e os engôdos faziam sorrir de alegria os menos afortunados, engabelados por esmolas disfarçadas, que tão somente os mantinham vivos o suficiente para trabalhar e para manter as mordomias e o enriquecimento ilícito da casta criminosa do poder, sem lhes oferecer dignidade, mínima que fosse. Mais estarrecedor ainda: os via e tratava como mero instrumento de poder.

Crime perfeito? Faço questão de repetir. Um erro aqui, outro erro ali. Um pequeno descuido acolá. A visão da impunidade provoca cegueira para tudo o que existe à nossa frente, nos deixa mais confiantes e, paradoxalmente, vulneráveis ao perigo iminente.

Um novelo de lã. O agasalho confeccionado ponto a ponto pela cerzideira ou noveleira, como queiramos chamar. O fio da meada. De detalhe em detalhe, meticulosa e pacientemente, os arquitetos da lei construíram o agasalho protetor do homem de bem. Minuciosamente, uma linha de ação foi concebida e estabelecida. A denúncia formal. O primeiro MANDADO DE PRISÃO. A covardia inerente a todo criminoso. As grades de uma cela calam profundo na alma, enfraquecem e instabilizam. O pavor de viver miséria semelhante à que impingiu à sociedade destrava a língua e apavora os cúmplices mandatários.

O castelo era de areia e ruiu ao primeiro sopro. Desmantelou-se, provocando estupor geral. O esquema de corrupção teve suas entranhas expostas e um sem-fim de “nada sei” e de “jamais compactuei com a corrupção” deram vazão a um mar de “minha inocência será provada”, deixando visíveis as “caras-de-pau”, lustradas com “óleo de peroba”, clamando uma vã inocência que se viu apequenada diante do irrefutável das provas materiais e testemunhais.

Estarrecido, presenciei cada detalhe da série e, a cada instante, me convencia de que não existia quadrilha, mas um processo sistêmico de corrupção e de apropriação indevida e criminosa do dinheiro público, extremamente pernicioso à sociedade, pelo enriquecimento em proporção geométrica de quem mais possui e pela institucionalização da miséria disfarçada em falsas benesses para o povo em geral, constituída para os miseráveis, que assim permaneceriam no engodo das esmolas oficiais, e para aqueles que ainda não o são, mas rapidamente a esse patamar chegariam, conduzidos como gado pela casta detentora do poder.

Acredito também, piamente, que não se separa o joio do trigo sem ferimentos; que não se poda a laranjeira sem o corte, na lâmina afiada do facão, dos galhos envelhecidos pelo tempo; que, por vezes, é fundamental o uso da força bruta para desenraizar a erva daninha que suga a água e mata a árvore sadia.

A quantidade e qualidade do remédio para curar uma doença devem ser proporcionais aos danos por ela provocados ou dos que puder provocar, dependendo do estágio em que se encontra. Ignorar e fazer pouco caso dessa verdade é praticamente permitir ou até mesmo compactuar para que o joio afogue o trigo, a poda necessária não seja feita, a erva daninha não seja extirpada e a doença se estabeleça e aniquile a vítima já debilitada. Simples assim, diria meu irmão. Terrivelmente simples assim, digo eu. O ser humano tem a liberdade indiscutível de escolha entre o bem e o mal. Um ou outro trarão consequências a quem os escolhe e os pratica. O cume das cordilheiras ou o fundo do poço. Os criminosos, assim nomino os já condenados nos termos da lei, sentiram o gosto amargo do fel invadindo a garganta. Não há como mensurar se vivemos o início, o meio ou o fim de uma jornada que, em meu entendimento, será bem mais longa do que nossa vã inteligência possa imaginar, mas tenho a minha plena certeza de que justiça se fará e os frutos virão. Não duvide, caro leitor. O tempo dirá.

*é escritor e coronel da Aeronáutica. E-mail: [email protected]

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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