A floresta é produtiva, diz pesquisador de Mamirauá

Em: 21 de julho de 2019
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No mês passado o biólogo paulista João Vitor Campos e Silva recebeu o Prêmio Rolex de Empreendedorismo, em cerimônia realizada em Washington, nos Estados Unidos. O pesquisador desenvolveu um modelo que recupera populações de pirarucu em regiões protegidas da Amazônia, onde ele vive há onze anos. Através de seu projeto, João Silva comprovou que o manejo consciente do peixe rapidamente apresenta resultados satisfatórios e é uma ferramenta fundamental para a preservação da biodiversidade nas águas amazônicas. 60 comunidades, com 1200 pessoas, se beneficiaram com o trabalho desenvolvido pelo biólogo, o qual pretende expandir para toda a extensão do rio Juruá, conforme relatou nesta entrevista ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio: Você está na Amazônia há onze anos. Por que se interessou em vir para cá?

João Silva: Desde muito cedo tive uma paixão muito grande pela Amazônia. Lembro-me que com dez anos minha mãe me presenteou com o livro ‘Vida Selvagem’, que tinha a biodiversidade amazônica como foco. Ver toda aquela diversidade de animais e plantas foi muito impactante na minha formação. Cresci com a certeza de que estar na Amazônia era apenas uma questão de tempo. Em 2008 cheguei a Manaus para fazer meu mestrado no Inpa e me conectei profundamente com a cultura amazônica. Trabalho no rio Juruá desde 2010. Sou apaixonado pela região e nutro o mais profundo respeito por esse povo tão sábio e acolhedor.

JC: E por que, entre os animais, o pirarucu lhe despertou maior interesse?

João Silva: Quando terminei o mestrado em 2010, fui trabalhar com monitoramento participativo da biodiversidade no ProBUC, um programa de monitoramento participativo executado pelo governo do Estado. Neste trabalho fui apresentado à diversidade cultural da Amazônia e sua intrínseca relação com a natureza e recursos naturais. Percebi, então, que não é possível pensar a conservação de forma isolada do componente humano. Nessa época conheci o manejo do pirarucu na região do médio Solimões protagonizado pelo Instituto Mamirauá e comunidades locais e me chamou muita atenção a possibilidade de unir a proteção da biodiversidade alinhada à melhoria da qualidade de vida das comunidades ribeirinhas. O manejo do pirarucu é um grande exemplo de sucesso de conservação, onde a proteção da biodiversidade e o desenvolvimento local andam lado a lado.

JC: Nesses onze anos o que descobriu de novo a respeito dessa espécie de peixe?

João Silva: Percebemos que o manejo do pirarucu é um grande exemplo de sucesso de manejo pesqueiro sustentável. Mas muito mais do que isso, essa atividade pode ser uma estratégia para impulsionar o desenvolvimento local. Na região do médio Juruá, em onze anos o manejo comunitário aumentou em 425% as populações de pirarucu. A rápida reprodução da espécie combinada com seu comportamento migratório durante as cheias possibilita que a recuperação populacional ocorra em lugares sobre pescados, que passam a receber indivíduos provenientes dos lagos protegidos. Os indivíduos adultos, no entanto, vão para a floresta inundada na cheia para se alimentar e se reproduzir, mas retornam na seca aos mesmos lagos protegidos. Essa fidelidade aos lagos protegidos justifica o alto esforço de proteção desses ambientes. Outras espécies também vêm se beneficiando da proteção dos ambientes aquáticos, como é o caso das tartarugas, jacarés e outras espécies de peixes. Mas muito mais do que isso, o manejo vem proporcionando uma substancial melhoria na qualidade de vida das comunidades rurais. Os lagos protegidos funcionam como uma poupança bancária que pode ser acessada anualmente. A renda oriunda do manejo beneficia os integrantes do manejo, mas também pode ser utilizada coletivamente em reformas de áreas comuns nas comunidades. Vimos também que pela primeira vez as mulheres estão recebendo renda da pesca, coisa que não acontece na pesca em geral, onde a mulheres desempenham uma função importante, mas a renda vai toda para os maridos. A possibilidade de manutenção cultural da atividade do pirarucu também é bastante apreciada por moradores locais, que têm uma relação forte com a prática da pesca. Toda essa gama de benefícios influencia o sentimento de autoestima da comunidade, que passa a ver na conservação um caminho para uma vida mais próspera. O pirarucu, portanto, é um peixe paradigmático que nos mostra que as comunidades locais indígenas e não indígenas desempenham um papel fundamental na manutenção das florestas e constituem uma das formas mais eficientes de proteção da Amazônia.

JC: Fale sobre a pesquisa que o fez ganhar o Prêmio Rolex de Empreendedorismo, em Washington, no mês passado?

João Silva: O prêmio não foi concedido por nossas pesquisas prévias, mas sim para uma proposta que irá ser executada no rio Juruá. Nossa ideia é consolidar um modelo de desenvolvimento local e conservação da biodiversidade em escala de bacia, onde o pirarucu é a grande celebridade. É engajar e conectar comunidades desassistidas para que elas passem a proteger a natureza e sejam beneficiadas por isso. Todo o prêmio da Rolex será revertido em investimentos ao longo do rio Juruá, através de nosso Instituto recém-criado: o Instituto Juruá. Ressalto, porém, que as comunidades ribeirinhas são as protagonistas de todo esse processo e são elas as maiores merecedoras de todos os aplausos. Uma das missões de minha carreira é tentar contribuir para que as comunidades rurais sejam valorizadas pelo grande serviço que prestam à humanidade, ao proteger as florestas, rios e recursos naturais.

JC: De que forma outras espécies, como tartarugas, jacarés e ariranhas, são beneficiados através de suas pesquisas?

João Silva: O interessante do manejo comunitário do pirarucu é que essa espécie funciona como espécie guarda-chuva, como dizemos na ciência. Ou seja o pirarucu, ao ser protegido, garante a proteção de muitas outras, incluindo o peixe-boi, tartarugas, jacarés e outras. Portanto, ao proteger os ambientes que o pirarucu vive, as comunidades rurais estão protegendo toda a biodiversidade aquática que vive naquele sistema.

JC: Quais outras espécies podem ser manejadas, além do pirarucu, e já estão sendo manejadas em outras regiões da Amazônia?

João Silva: O manejo do pirarucu nos mostra que podemos unir conservação com o uso dos recursos. Muitas outras espécies na Amazônia podem seguir o mesmo rumo, incluindo o jacaré-açú, quelônios, dentre outros. Mas é importante frisar que o manejo deve seguir bases científicas sólidas e para cada espécie há todo um arcabouço técnico que deve ser rigorosamente implementado. Por isso é importante temos um maior investimento em pesquisas que possibilitem o desenvolvimento de novas cadeias produtivas que gerem riqueza com a floresta em pé.

JC: Você acha que o ecossistema amazônico está ameaçado com essa política ambiental do Governo Federal?

João Silva: Existe um equívoco muito grande por parte do governo que é o de considerar a floresta improdutiva e a sua conservação uma barreira ao desenvolvimento. Essa visão é ultrapassada e desatualizada. Precisamos investir em geração de conhecimento para que a floresta gere riqueza e prosperidade de forma ambientalmente e socialmente sustentável. Não há como pensar a conservação da Amazônia sem incluir na narrativa o bem-estar das populações residentes e as relações que estabelecem com a biodiversidade. O manejo do pirarucu é a materialização dessa visão. A inclusão dos povos da floresta nessa perspectiva de desenvolvimento não é apenas uma questão de justiça social, mas também porque ninguém protege melhor a floresta do que seus próprios habitantes. Acredito que essa é a melhor forma de garantirmos a Amazônia, no espaço e no tempo.

João Vitor Campos e Silva

Idade: 35

Qualificação: Biólogo

Experiência: Há onze anos trabalha com manejo de pirarucu no médio Juruá

Área de atividade: Meio ambiente na RDS Mamirauá

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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