Autor dos livros “Cândido Mariano & Canudos”, (1997); “As artes de Genesino Braga”, prêmio literário da Academia Amazonense de Letras, (2006); “Administração do coronel Lisboa”, prêmio literário Cidade de Manaus, (2008); “Bombeiros do Amazonas”, (2013); e organizador de “Cinema e Crítica Literária de L. Ruas”, (2010) e “L. Ruas: Poesia Reunida (2013)”, o escritor e historiador Roberto Mendonça acaba de concluir aquele que, possivelmente, será o mais importante livro de sua obra, “Entre duas viagens”, no qual relata a história de Manuel Mendonça Malafaya, seu pai.
“Em 2014 a família se preparava para comemorar o centenário do patriarca neste 17 de janeiro de 2016, mas ele resolveu partir antes, em maio daquele ano, então eu e meu irmão Renato achamos por bem escrever o livro contando a saga do nosso peruano. Foi uma forma de homenageá-lo”, contou.
Por mais de um ano Roberto Mendonça seguiu os caminhos do pai em Manaus, Rio de Janeiro, Santos e até em Iquitos e Lima, no Peru, onde Manuel Malafaya nasceu. “Mendoza, também conhecido como ‘Manuel Peruano’, nasceu em Caballococha, uma povoação situada nas vizinhanças da fronteira Brasil-Peru, em “hermosa orilla” esquerda do rio Amazonas”, disse.
Victoria Malafaya, a mãe de Manuel, era uma índia ticuna nascida na mesma localidade, em 1890. Na época do ciclo da borracha, acabou se envolvendo com um caucheiro, possivelmente um homem rude, pois num dia qualquer de 1927, sofreu impiedosa surra do companheiro, o que a fez fugir para o Brasil, trazendo os dois filhos Manuel e Francisco.
“Hecho en Peru”
Em Manaus, Victória foi trabalhar como doméstica, enquanto Manuel, com apenas 11 anos, arrumou trabalho na taberna de seu Abade, um comerciante na rua Dr. Almino. A evolução financeira possibilitou a mudança para a Pensão Vaticano, um prédio de três andares existente na rua Dr. Moreira.
Em 1939, Manuel retornou ao Peru, visitou Iquitos e se inscreveu no serviço militar, mas logo voltou a Manaus onde obteve o primeiro emprego de carteira assinada, de balconista, depois gerente, na Fábrica Rosas, a padaria chique da cidade, instalada na avenida Sete de Setembro, 129, defronte à praça da Polícia. A edificação ainda se mantém de pé até hoje. Em 1944, junto com a noiva Francisca, viajou para Iquitos, onde casaram.
“Os dois até pretendiam se fixar na capital de Loreto, pois chegaram a organizar um comércio, porém, no início de 1946 voltaram para Manaus, com dona Francisca gestante. Então, posso garantir que sou “hecho en Peru”, todavia, nascido em Educandos, à rua Inácio Guimarães, onde mais adiante surgiria o Cine Vitória”, recordou.
Estabelecido em Educandos, Manuel frequentou assiduamente a paróquia do padre Antonio Plácido. “Esse vigário colaborou para que eu ingressasse no Seminário São José, instalado à rua Emílio Moreira, onde pretendia me tornar padre, e conclui o curso de humanidades. Mas achei melhor seguir a carreira militar, servindo ao Exército e depois à Polícia Militar, onde cheguei a coronel. Hoje estou na reserva”, explicou o historiador.
Por debaixo dos panos
“Voltando a falar de meu pai, o mesmo padre Antonio Plácido realizou o casamento dele com Doroteia, em 1958. Minha mãe havia morrido de tuberculose algum tempo antes. A nova união gerou cinco filhos (Zemanoel, Jorge, Luís, Ricardo e Carlinhos). Com minha mãe foram eu e meu irmão, Renato. No ano seguinte, a nova família de Manuel mudou-se para o Morro da Liberdade e, mais adiante, migrava para Santos”, recordou.
Novamente viúvo, Manuel passou os derradeiros anos de sua vida entre Manaus e São Paulo, visitando os filhos e netos, até morrer, em maio de 2014.
“Para marcar o centenário do peruano, no último 17 de janeiro, mandei confeccionar dois selos personalizados. Dois selos porque o homenageado estranhamente possuiu dois nomes. Explico: a sua certidão de nascimento registra – José Manuel Mendoza; todavia, ao desembarcar em Manaus, aportuguesou o sobrenome, refez o nome, incluindo o sobrenome materno. Desse modo, con mucho orgullo, sou filho de Manuel Mendonça Malafaya”, comentou.
Roberto Mendonça contou que começou a escrever “Entre duas viagens”, junto com o irmão Renato, em janeiro do ano passado. Realizou pesquisas, conversou com parentes mais antigos, viajou pelas cidades onde Manuel vivera e vasculhou fotos. “Conseguimos garimpar algumas raridades, como a da casa onde minha avó, mãe de Manuel, vivera no Peru, ainda no século 19. Acredito que o livro terá umas 50 fotos.
A ideia era colocar mais imagens e menos texto, tipo uma linha do tempo. Esse trabalho me rendeu mais algumas descobertas históricas, como o racionamento de produtos, na época da Segunda Guerra, na padaria onde ele trabalhou. O racionamento era rigidamente controlado pelos militares mas, por baixo dos panos, o dono da padaria sempre conseguia liberar alguma coisa a mais para os seus amigos”, entregou.
O livro só será lançado em junho, mas os dois selos o serão no próximo dia 30, sábado, na Agência Filatélica Ajuricaba, num evento organizado pelo Clube Filatélico do Amazonas.







