A importância do setor primário para a economia

Em: 16 de março de 2018
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Há algum tempo atrás, recebendo aqui em Manaus um pesquisador sênior da área de macroeconomia da Colorado State University – CSU/USA, fui contestado sobre a questão da riqueza que se externaliza no Estado do Amazonas, principalmente na capital Manaus, quanto ao desperdício que se processa dos bens alimentícios provenientes do Setor Primário, notadamente daqueles do segmento extrativista primário predatório -a pesca extrativa. Passava-se em final de setembro, plena safra de fartura de pescado lá no “porto de desembarque” da Panair, na ocasião se viu alguns conteiners cheios de peixes estragados ou podres, resultantes do processo de armazenagem e transporte nos barcos pesqueiros e nos procedimentos de desembarque, momento em que falou o americano; vocês do Amazonas são muitos ricos, pois desperdiçam um dos produtos mais caros do mundo.

Como também, até hoje me incomoda, ver aquele nível de desperdício de peixes, enquanto milhares de pessoas passam fome, em Manaus, no interior do Amazonas, no Brasil e no mundo, mesmo já conhecendo seu questionamento irônico, perguntei de que se tratava? Ele então, fotografando aquelas cenas, respondeu: Did you still see? Excuse me, my friend, but I’m talking about it here. Fish are the best animal proteins man can consume, and you waste them. They are rich do not need many things to live, because here nature gives them many natural resources, already ready for consumption, perhaps for this reason this great waste. Essa visão representa para nós aqui do Amazonas uma revelação importante e uma valiosa compreensão do que seja o Desenvolvimento Econômico Regional (DER) como um processo de fortalecimento e acumulações de competências que permitam nesse atual estágio do projeto Zona Franca de Manaus (ZFM), 51 anos de implementação, já ter diversificado a estrutura produtiva amazonense, principalmente a produção de alimentos de consumo imediato, na direção de bens e serviços com maior incorporação de conhecimentos científicos, tecnológicos, e de valor agregado, notadamente aqueles provenientes do Setor Primário.

Como propagam os economistas do Clube de Economia da Amazônia (CEA), mudanças estruturais promovem o desenvolvimento regional e geram crescimento econômico com acelerado aumento da renda e permitindo atingir melhorias de bem-estar das comunidades envolvidas. Ressalte-se que após décadas de abandono e estagnação econômica, os municípios que compõem as nove sub-regiões do Amazonas merecem outros olhares, outras visões, os recursos naturais e seus potenciais econômicos não podem mais serem desperdiçados, não aproveitados, pois penalizam aqueles amazonenses interioranos duplamente, e encarece o custo de vida na capital Manaus, pois a hora é essa de se promover o desenvolvimento econômico nesses territórios. Pesquisas e Estudos fez ressurgir interesses em promoção do desenvolvimento econômico regional, principalmente, quando se vislumbra que outros Estados da Região Norte avançam e já ultrapassam o Amazonas, que permanece refém do único projeto de desenvolvimento que é o Zona Franca, atualmente, representado pelo Polo Industrial de Manaus (PIM). Talvez, essa onda de busca de caminhos próprios de desenvolvimento regional, se deva por diversas causas, que vão desde o surgimento de inovações analíticas, como a Teoria do Crescimento Endógeno, a Análise NeoSchumpeteriana de economias em estágios de desenvolvimento e, possivelmente, a maior disponibilidade de dados (especialmente o Penn World Table (PWT) que fornece um conjunto de séries temporais econômicas baseadas em contas nacionais cobrindo a maioria dos países do mundo. O conjunto de dados é produzido por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia (Penn) e baseia-se nas chamadas comparações de referência do International Comparison Programme (ICP)), assim como, o interesse despertado pelo desempenho das economias em desenvolvimento e grandes projetos em implementação por outros estados regionais de condições econômicas semelhantes ao Amazonas. Somente para relembrar que a Economia caracteriza-se por possui sistema interdependente, de atividades transversais, em níveis principais com o Setor Primário, Setor Secundário, Setor Terciário e, para muitos o Setor de Turismo, sendo que o Setor Primário corresponde às atividades que o homem realiza diretamente sobre a natureza, ou seja, as atividades extrativas vegetal, animal e mineral, a agricultura, a pecuária etc., de modo geral a produção de alimentos e, em razão dessas atividades, localiza-se predominantemente no meio rural. Por outro lado, cada setor tem sua máxima importância no sistema econômico, o que caracteriza um espaço territorial por suas atividades produtivas, nas quais os recursos naturais são utilizados como fatores de produção – físicos e humanos – tendo em vista à satisfação das necessidades humanas, também voltadas a dar continuidade do sistema, com respeito ao grau de desenvolvimento socioeconômico em que o território se encontra, referindo-se à qualidade de vida que sua população vive.

Portanto, o Setor Primário desempenha uma papel fundamental no desenvolvimento econômico, sendo que se reconhece a importância das interações entre as atividades primárias e o restante dos setores secundário e terciário, como se pode demonstrar: 1) a demanda por produtos primários aumenta com o crescimento econômico e a escassez de oferta pode se constituir em um entrave ao crescimento regional; 2) as exportações de produtos primários geram divisas e reduzem a taxa de câmbio, minimizando as restrições cambiais à importação de bens de capital; 3) o emprego do setor secundário tende a aumentar com o aumento da produção e da produtividade de produtos primários; 4) a renda gerada no setor primário contribui para o aumento da poupança interna, ampliando as fontes de financiamento do investimento produtivo, e o 5) crescimento da renda da população rural provoca o aumento da demanda por produtos do setor secundário e terciário. Para os economistas do CEA, segunda a teoria da base econômica, além de contribuir diretamente com o crescimento do produto agregado, a dispersão espacial das atividades do Setor Primário impulsiona as atividades produtivas destinadas a suprir os mercados locais, formando um círculo virtuoso de consumo rural-urbano nessas localidades. Esse círculo virtuoso, ocorre à medida que a área urbana demanda a produção primária, gerando o aumento da renda rural e também de demanda por produtos do setor secundário, estimulando a geração de emprego urbano, levando à diversificação produtiva e beneficiando as atividades econômicas em seu entorno, e o aumentando da renda e da demanda por produtos rurais, principalmente alimentos.

Nilson Pimentel

Economista, Engenheiro, Administrador, Mestre em Economia, Doutor em Economia, Pesquisador, Consultor Empresarial e Professor Universitário: [email protected]
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