Após mais de três décadas no PSDB, o ex-senador e ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, decidiu retornar ao MDB, partido do qual também foi um dos fundadores. Em entrevista ao Jornal do Commercio, ele afirma que a mudança foi motivada por “convicção” e pela busca de um espaço mais alinhado às suas posições políticas atuais. Ao longo da conversa, Arthur fala sobre o cenário nacional, a polarização política, a defesa da Zona Franca de Manaus e a possibilidade de disputar uma vaga na Câmara Federal em 2026.
Com trajetória marcada por passagens pelo Senado, pela Prefeitura de Manaus e pela diplomacia parlamentar, Arthur também faz uma avaliação crítica do ambiente político brasileiro e afirma que “a política não pode ser movida apenas por antagonismos”. Ao comentar o futuro, diz não ter mais nada a provar, mas reforça que continua disposto a contribuir com o debate público e com os interesses do Amazonas.
A seguir, você acompanha a íntegra da entrevista com Arthur Virgílio Neto.
Jornal do Commercio – O senhor deixou o PSDB após mais de 30 anos. O que, na prática, deixou de fazer sentido no partido?
Arthur Virgílio Neto: Tenho pelo PSDB um profundo respeito e gratidão por tudo o que construímos ao longo de mais de 35 anos. Foi um partido fundamental na minha trajetória e na história recente do país. No entanto, com o tempo, percebi que havia diferenças de visão e de prioridades que foram se tornando mais evidentes. Isso é natural em organizações políticas vivas. Em determinado momento, entendi que o mais correto seria seguir um novo caminho, preservando a relação de respeito, mas buscando um espaço onde eu pudesse atuar com mais sintonia em relação às minhas convicções atuais.
Jornal do Commercio – Sua ida ao MDB é convicção ou estratégia eleitoral para 2026?
Arthur Virgílio Neto: Vejo essa decisão muito mais como um passo de convicção do que como um cálculo eleitoral. Ao longo da minha trajetória, sempre procurei estar em espaços onde pudesse contribuir com ideias e com um projeto de país. O MDB é um partido com história, capilaridade e um papel relevante na construção democrática brasileira, inclusive, fui um dos fundadores do partido, na verdade voltei pra casa, e acredito que nesse momento posso colaborar mais nesse ambiente. Evidentemente, a política também envolve disputa eleitoral, mas ela precisa estar ancorada em coerência e propósito.
Jornal do Commercio – O senhor já disse que cogitou disputar a Presidência. Por que esse projeto não avançou?
Arthur Virgílio Neto: Na verdade eu fui candidato numa prévia do PSDB, mas eu fiquei em terceiro lugar na votação. Foi uma reflexão legítima naquele momento, motivada pelo desejo de contribuir com o país em uma posição de maior alcance. No entanto, projetos dessa natureza dependem de uma série de fatores como construção partidária, alianças, contexto político, etc.
Jornal do Commercio – Depois de prefeito e senador, por que voltar como deputado federal — é um recuo ou reposicionamento?
Arthur Virgílio Neto: Não vejo como recuo, e sim como uma forma de continuar contribuindo com a vida pública, com mais experiência, claro. Tive a honra de exercer cargos importantes e cada etapa trouxe aprendizados e responsabilidades diferentes. A Câmara dos Deputados é um ambiente fundamental para o debate nacional, para a construção de leis e para a defesa dos interesses da população. Encaro essa possibilidade como um reposicionamento natural, em que posso colocar minha experiência a serviço do país e seguir participando ativamente das decisões que impactam o Brasil, em especial, o Amazonas.
Jornal do Commercio – O MDB hoje abriga forças muito distintas. Como garantir coerência sem virar um partido de ocasião?
Arthur Virgílio Neto: O MDB sempre foi um partido plural, e essa diversidade faz parte da sua história e da sua força. Naturalmente, isso traz o desafio permanente de construir unidade em torno de princípios e objetivos comuns. Coerência não significa uniformidade absoluta, mas sim compromisso com valores claros como a defesa da democracia, o respeito às instituições e a responsabilidade com o país. O que garante que um partido não se torne de ocasião é justamente a capacidade de dialogar internamente e agir com previsibilidade nas decisões mais importantes.
Jornal do Commercio – O senhor apoiou Omar Aziz ao governo. O que espera em troca politicamente — ou não há troca? Em Brasília, qual será sua primeira batalha concreta: Zona Franca, reforma tributária ou outra pauta?
Arthur Virgílio Neto: Meu apoio ao Omar Aziz foi baseado em uma avaliação do que considero melhor para o Amazonas. Não encaro a política como uma relação de troca pessoal, mas de convergência em torno de projetos e compromissos com a população. Evidentemente, quando há alinhamento, espera-se diálogo e parceria institucional para viabilizar iniciativas importantes para o estado, mas sempre dentro de uma lógica republicana. Em Brasília, minha prioridade será a defesa dos interesses do Amazonas. A Zona Franca de Manaus é, sem dúvida, uma pauta central, por tudo o que representa em termos de emprego, renda e preservação ambiental. Ao mesmo tempo, a reforma tributária exige atenção permanente para garantir que não haja prejuízos à nossa competitividade.
Jornal do Commercio – O senhor citou Tarcísio de Freitas como nome ideal à Presidência. Como o senhor observa a continuidade da polarização na disputa para o comando do país?
Arthur Virgílio Neto: Ao mencionar o Tarcísio de Freitas, me referi a um perfil que considero capaz de dialogar com diferentes setores e ajudar a construir pontes. A polarização é um fenômeno que não se resolve de forma simples ou imediata, mas acredito que ela pode ser atenuada à medida que surjam lideranças dispostas a colocar o interesse nacional acima das disputas mais acirradas. O país ganha quando o debate político se eleva, quando há espaço para o contraditório com respeito e quando se busca convergência em temas essenciais.
Jornal do Commercio – O senhor teve uma relação de amor e ódio com o ex-presidente Bolsonaro. Como o senhor avalia hoje Jair Bolsonaro?
Arthur Virgílio Neto: Tive, de fato, momentos de aproximação e de divergência com o Jair Bolsonaro, o que é relativamente comum na vida pública. Procuro fazer uma avaliação serena do seu papel recente na política brasileira. Ele representou, em determinado momento, uma parcela significativa do eleitorado que buscava mudança, mas também adotou posturas que, a meu ver, tensionaram desnecessariamente o ambiente institucional. A política não pode ser movida apenas por antagonismos, ela precisa produzir resultados concretos para a população.
Jornal do Commercio – Aos 80 anos, o que ainda falta provar na política?
Arthur Virgílio Neto: Faço 80 no final do ano e a essa altura da vida, não vejo a política como um espaço para provar algo a alguém. Vejo como uma oportunidade de continuar contribuindo com a experiência que acumulei ao longo dos anos. Tive a honra de ocupar cargos importantes e de participar de momentos relevantes da vida pública do país. Se há algo que me move hoje, é a vontade de ser útil, de ajudar a qualificar o debate e de colaborar com soluções para os desafios que o Brasil ainda enfrenta. A política, para mim, segue sendo um serviço.















