A Santa Casa (de Cultura) de Misericórdia

Em: 27 de abril de 2017
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Feriado do dia 1° de maio e a Santa Casa de Misericórdia vai receber o quarto abraço, coordenado pela artista plástica Rosa dos Anjos. Desde o ano passado Rosa está à frente de um movimento pela restauração e utilização como espaço cultural da Santa Casa de Misericórdia. Nesse tempo, já conseguiu reunir um grupo de profissionais de vários segmentos, que a estão apoiando na empreitada. A mais recente conquista do grupo foi o despacho da juíza federal Jaiza Maria Pinto Fraxe no qual escreveu que, “o Estado do Amazonas informa a impossibilidade de cumprimento do Plano de Ações Emergenciais apresentado pelo Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e afirma que não realizará composição amigável”.

Segundo Rosa, o documento tem uma enorme importância. “Foi como que uma ‘carta branca’ dada pelo Estado e pela Justiça para que a sociedade civil possa atuar em benefício da Santa Casa”, falou Rosa. Mas, por que a Santa Casa chegou a esse estado de abandono? A primeira Santa Casa foi fundada em 1498, em Lisboa, Portugal, destinada inicialmente a atender a população mais necessitada, com funções como alimentar os famintos, assistir aos enfermos, ‘consolar os tristes’, educar os enjeitados entre outras. Mais tarde passou ainda a prestar assistência aos ‘expostos’, recém-nascidos abandonados na porta do hospital. Desde então as Santas Casas se espalharam pelos países colonizados por Portugal, sempre administradas por uma irmandade que, em Manaus, por motivos diversos, em quase 137 anos de existência da Santa Casa, nunca atuou satisfatoriamente. Há pouco mais de três anos uma comissão de três interventores foi indicada pelo Ministério Público para direcionar os rumos da Santa Casa, mas ao se observar o estado de abandono e deterioração do prédio nesse tempo, nota-se que praticamente nada foi feito.

Rosa dos Anjos lembra da primeira intervenção da comissão no prédio histórico. “Quando realizamos o primeiro abraço do prédio, em 5 de outubro passado, umas 30 pessoas apareceram. Eu havia feito a convocação pelas redes sociais, porque ficava muito triste em ver o estado de abandono da Santa Casa cada vez que passava por lá”, contou.

Naquele dia o grupo de amigos de Rosa se direcionou para limpar e arrumar os destroços existentes na capela. “Havia muito lixo, móveis destruídos, inclusive o altar, e um sem número de desvalidos ocupando as dependências do hospital, inclusive a capela era local para o consumo de drogas e encontramos dezenas de carcaças de celulares, com certeza, roubados nas ruas do centro de Manaus”, falou.

Apoio da iniciativa privada
Em 17 de novembro do ano passado, Rosa articulou um novo abraço e o grupo de amigos aumentou para mais de 100, agora com o apoio das Forças Armadas. “Aí começaram a surgir os empresários interessados em, de alguma forma, ajudar. Posso citar aqui, até porque ela foi a primeira a se apresentar, a empresária Cláudia Mendonça, dona da Paradise Turismo. Cláudia ficou bastante interessada em ajudar na restauração da capela”, lembrou. Outra empresa bastante empenhada em apoiar Rosa é o Hotel Villa Amazônia, localizado bem em frente à Santa Casa. “Eles são nossa base de apoio quando estamos trabalhando aqui e já se prontificaram a dar futuras ajudas”, adiantou.

Casa de Cultura e Museu
No mais recente abraço, acontecido em 19 de dezembro, quase 200 pessoas compareceram ao local demonstrando que o apoio à causa iniciada por Rosa só tem ganhado adeptos. “Só avançamos em nossa caminhada”, garantiu. “Criamos uma comissão interinstitucional, formada por vários profissionais, cujo objetivo é preservar e restaurar o patrimônio histórico da Santa Casa, transformando-a em uma Casa de Cultura, onde toda forma de arte será bem-vinda, inclusive com a criação do Museu da Santa Casa”, disse.

Restauro de 20 a R$ 50 milhões
De acordo com o titular da ManausCult (Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos), Bernardo Monteiro de Paula, a restauração da Santa Casa foi calculada entre R$ 20 e R$ 50 milhões.

“Continuaremos nossa luta. Onde vamos conseguir esse dinheiro? Através de Parcerias Públicos-Privadas, órgãos privados, municipais, estaduais e federais, e entre empresários que nasceram na Santa Casa, além das empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus”, adiantou.

Fechada há 12 anos
É de 1870 a lei de 12 de maio que autoriza o presidente da Província a mandar construir um edifício para o Hospital de Caridade. Era presidente, Clementino José Pereira Guimarães. O artigo 6° da Lei referida diz que o hospital e a enfermaria acomodariam 80 leitos, sendo 30 para esta. O terreno para a construção do prédio foi solicitado pela Província ao Ministério de Agricultura, Comércio e Obras Públicas, sendo concedido por Aviso de 26 de outubro de 1873. Mas não foi na rua Dez de Julho, e sim no primitivo local escolhido, ou seja, à antiga praça de Uruguaiana.

No mesmo ano de 1873, por intermédio do comerciante Francisco de Souza Mesquita, foram encomendados em Portugal os blocos de cantaria. A inauguração da Santa Casa ocorreu em 16 de maio de 1880. Apenas nove anos depois, apareceram os primeiros problemas da viabilidade econômica do hospital, apesar das facilidades tributárias recebidas.

Reportagem publicada em 7 de dezembro de 2004 no jornal O Estado de São Paulo, noticiava o fechamento do hospital. “Santa Casa endividada fecha as portas em Manaus. Apesar de atender em média 1,5 mil pacientes por mês, a Santa Casa de Misericórdia fechou as portas nesta terça-feira. Com os funcionários sem receber há sete meses e já acumulando cerca de R$ 4 milhões em dívidas com fornecedores, um dos mais tradicionais hospitais da cidade não conseguiu resistir a mais esta crise financeira”.

Fontes: Blog do Coronel e Baú Velho

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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