O presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Marcelo Rech, conversou, na última quarta-feira (8), com jornalistas e profissionais de comunicação do Jornal do Commercio. Na ocasião, ele reforçou a importância do jornal impresso como importante ferramenta de difusão de informação e conhecimento em meio a um cenário de fake news e uso irresponsável das redes sociais. Defensor da informação profissional e apurada, ele destacou a valorização do profissional de imprensa e o papel dos veículos de comunicação com o desenvolvimento social do país e a defesa da democracia.
Formado em Jornalismo pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Rech também é presidente do Fórum Mundial de Editores, entidade ligada à WAN-Ifra (Associação Mundial de Jornais). O executivo do Grupo RBS assumiu a presidência da ANJ em 2016.
Jornal do Commercio – Como você vê o atual momento do jornalismo brasileiro com o crescimento da informação nas redes sociais?
Marcelo Rech – Eu acho que o Brasil vive uma situação muito parecida com a dos outros países, não é diferente do que está acontecendo, há uma apreensão econômica e uma pressão política também da sociedade sobre os veículos de comunicação mais tradicionais, mas, ao mesmo tempo começa haver uma percepção, uma reversão da sociedade sobre a essencialidade do jornalismo e da comunicação profissional. A gente vem vivendo nos últimos anos ondas de desinformações, as fake news que se popularizaram começam a sofrer reversão, as pessoas estão começando a se dar conta da importância da informação certa, correta e profissional. Gradualmente, acho que ainda falta muito as pessoas verem a importância da mídia profissional, mas gradualmente estão valorizando novamente essa mídia. E temos visto isso em pesquisas recentes, mostram que organismos de maior credibilidade são o rádio, a televisão e o jornal, e os mais baixos, são as redes sociais. A XP – corretora de investimentos que contratou o Ipesp (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas) – divulgou recentemente uma pesquisa que 64% dos entrevistados apontavam o rádio como meio mais confiável e de credibilidade. 61% indicavam a televisão e o jornal impresso. O relatório do XP mostra que para 72% dos entrevistados, Facebook e WhatsApp só divulgam notícias falsas. Somente 12% acreditam que o WhatsApp tem notícias verdadeiras. No Twitter, 52% avaliam que tudo que é postado é falso e 16% que é verdadeiro. Segundo os entrevistados, o Instagram tem 17% de notícias verdadeiras e 55% de falsas. Isso mostra que a sociedade mais do que nunca precisa confiar e ter confiança em marcas.
Jornal do Commercio – A popularização e o surgimento de novos veículos de comunicação nas mídias digitais é uma ameaça ao jornalismo tradicional (Tv, Rádio e Impresso)?
Marcelo Rech – Você entraria em um banco sem uma marca? Colocaria a gasolina no seu carro em um posto que você não conhece a marca do combustível? Não significa às vezes, que a marca não é confiável. Existem marcas novas de jornalismo que são confiáveis e conseguiram se estabelecer com qualidade e postura ética profissional com uma percepção de valorização. É uma situação difícil, eu acho que o fato das pessoas, qualquer um produzir seu combustível, sua gasolina em casa, gerou uma percepção de que todo mundo iria consumir uma gasolina caseira, mas não é assim. Uma gasolina caseira não tem a qualidade de uma gasolina industrializada, profissional, vendida por uma marca tradicional consolidada há décadas. Um jornal que tem mais de 100 anos de credibilidade, por exemplo, que buscou princípios e valores e conquistou todo um arcabouço técnico que nos guia a gerações não tem como perder espaço. Mas, em última análise, existe uma percepção crescente, não generalizada, de que o enfraquecimento e até o desaparecimento de veículos regionais é uma ameaça à sociedade de uma forma geral. A ameaça, obviamente é na questão democrática, quando a sociedade pressupõe que as pessoas façam escolhas. E fazer escolhas pressupõe que se tenha informações. E ter informações pressupõe em ter as informações corretas e precisas. Um conteúdo errado pode levar a uma escolha errada. Uma informação não correta contamina, contagia e deturpa todo o processo democrático. Então a primeira ameaça evidente é à democracia.
Jornal do Commercio – Como você vê a situação dos veículos de comunicação regionais?
Marcelo Rech – A situação da mídia regional é extremamente preocupante. Estamos vendo em algumas partes do mundo e no Brasil começa acontecer também, algumas regiões do país já sem nenhum veículo local. Sem rádio local, sem televisão local, sem jornal local. O que acontece nessa circunstância? A sociedade primeiro perde porque ela não se ver refletida nas suas questões do dia a dia, do cotidiano. Os atores, as lideranças econômicas não veem refletidas as suas demandas de defesas. Imagina Manaus. Quem é que vai defender a Zona Franca de Manaus se não tiver a imprensa local? O papel da imprensa regional é insubstituível, é insubstituível essa defesa dos interesses locais da sociedade. E outra por interesse econômico. E por fim, os interesses políticos, não de um político e outro, mas dos interesses da democracia, porque é melhor ter uma imprensa crítica do que os políticos ficarem a mercê dos bandoleiros, aventureiros, pistoleiros digitais, às vezes chantageando e extorquindo. Isso é o risco de enfraquecimento e perda da imprensa profissional e a sociedade em determinados momentos começa a entender isso, mas ainda falta muito, por exemplo, é fundamental que os líderes econômicos do Amazonas apóiem a imprensa regional com publicidade de investimento, porque quem vai falar pelo Amazonas?
Jornal do Commercio – Como os jornais podem combater as fake News?
Marcelo Rech – Os jornais estão em um ramo de produção de conhecimento amplo. Em um primeiro momento as pessoas começaram acessar tudo e houve uma perda de referência. Mas, nós enxergamos em várias partes do mundo uma retomada da valorização das marcas de comunicação de imprensa de confiança. As últimas eleições no Brasil, as pessoas passam a identificar o risco das fake news. Tem um benefício grande de chamar a atenção para o risco e gradualmente já tem menos difusão de notícias falsas no whatsapp, porque as pessoas passaram a se controlar mais e a desconfiar mais. Principalmente após as eleições. Porque todo mundo tratou do assunto, tratou os jornais, trau as revistas, tratou as rádio. O STF (Supremo Tribunal Federal) tratou disso, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) tratou disso. O Ministério Público tratou disso.E os veículos se uniram para tratar disso e as pessoas acordaram.
Jornal do Commercio – Quais a vantagens da informação de um veículo tradicional de comunicação?
Marcelo Rech – O jornal contribui para o leitor ampliar o horizonte de conhecimento. Na rede social que o sujeito vive em bolha, ele vai receber os mesmos conteúdos sobre as mesmas coisas e apenas aquilo que ele quer. Ele não se enriquece, e se ele não se enriquece, ele fica dentro da caixa e seu status social é mais rebaixado, porque o status social do indivíduo seja na sua carreira profissional ou na sala de aula na universidade, está muito ligada à capacidade daquela pessoa agregar conhecimento. Ter visões e informações corretas em determinada circunstância, seja numa reunião com grupo de amigos ou com seu chefe. A promoção de alguém é decidida porque determinada pessoa é mais completa e mai ricas do ponto de vista de conhecimento e visão de mundo, do que outra bitolada e estreitada numa visão limitadíssima pelo mesmo tipo de conhecimento restrito aquele círculo de pessoas que pensam da mesma forma.
Jornal do Commercio – Nesta sua visita à Manaus qual visão que você teve dos veículos de comunicação visitados?
Marcelo Rech – A imprensa regional do Amazonas e do resto do país não fica nada a dever à imprensa regional da Europa e dos Estados Unidos. Tanto do ponto de vista de gestão das organizações, pelo contrário, os nosso veículos, e aqui no Amazonas também, tem uma capacidade de adaptação e de se transformar com mais velocidade. Nós no Brasil somos calejados de solavancos de toda ordem econômica e política, que outros veículos de outros países não têm. Nós temos uma capacidade de adaptação e transformação enorme de entender o cenário e de tomar decisões mais fortes. Nós vimos o fechamento de muitos jornais nos Estados Unidos e infelizmente em 10 anos fecharam 1.800 jornais lá. E nós temos muito pouco fechamento de jornais no Brasil. Isso, levando em conta que a economia brasileira vai muito pior do que a economia americana neste últimos 10 anos. Porque temos a capacidade de nos inventar e se adaptar mais do que alguns veículos americanos e europeus.
Jornal de Commercio – Quais as estratégias que o jornal impresso e as empresas de comunicação devem adotar em meio a esse cenário de digitalização da informação?
Marcelo Rech – Eu acho que tem duas palavrinhas que se conseguimos ficar nelas, vai conseguir gerar um posicionamento de futuro. Um deles é exclusividade. Porque eu sou diferente e o que eu faço de único na minha comunidade, na minha região ou na minha cidade. A segmentação, especialização, singularidade, exclusividade e identidade própria. Isto é decisivo na percepção de valor. Aquilo que é ordinário e é comum não tem valor. Foco muito tenso nisso. O segundo é o rompimento das bolhas por meio da pluralidade. Com publicações de diferentes posições, ou a favor ou contra. Publicar sempre os dois lados. Essa pluralidade que é a parte natural de nossa atividade jornalística, de buscar equilíbrio e outras visões, a gente não encontra nas redes sociais, onde a pessoa vive numa bolha e só radicaliza de forma extrema. Então, a imprensa e os jornais são civilizatórios nesse aspecto. São os construtores. São os que unem as diferentes alas e facções e grupos da sociedade.
Jornal do Commercio – Como você analisa a decisão do Ministro Alexandre de Moraes que mandou retirar um conteúdo que ligava Toffoli à delação de Marcelo Odebrecht?
Marcelo Rech – Houve uma censura lamentável. Não tem outra palavra para definir. Houve um enorme equívoco do ministro. Felizmente a reação da sociedade foi extremamente positiva para a liberdade de imprensa. A decisão dele de censurar um veículo gerou uma onda tão grande, tão clara de repulsa, que eu acho que os valores da liberdade de imprensas foram reafirmados no Brasil com muita nitidez.







