Houve uma época em que, com pouco dinheiro circulando nas mãos das pessoas (hoje não está muito diferente), as compras podiam ser feitas a retalho. Ao invés de um quilo de café, de açúcar, de sal, de arroz, de feijão, os pouco aquinhoados financeiramente levavam 500 gramas, ou até menos, do produto. Ainda existia o famoso caderninho no qual o comerciante anotava o produto e o nome do comprador para que a conta fosse paga depois.
Ao invés de parecer humilhante não ter dinheiro para pagar, ao contrário, ter o nome anotado no caderninho significava que a pessoa era honesta e boa pagadora e merecia estar ali naquela lista. Mas será que isso mudou, afinal, vivemos tempos em que não dá mais para se confiar em ninguém e o comércio eletrônico representa a modernidade.
Originalmente, em Portugal, as tabernas ou tavernas, eram lugares onde se vendiam vinhos. Os portugueses trouxeram esse tipo de comércio para o Brasil, e aqui, a lista dos produtos do estabelecimento foi ampliada para muito mais além dos vinhos, o que acabou se tornando uma característica das tabernas: um local onde se vende de tudo. Outra característica das tabernas é não ter nome, ou por outra, adotar o nome do proprietário, como aconteceu com a comerciante Rosilene Cabral, há 15 anos dona de uma taberna na rua da Felicidade (antiga Principal, no Japiim).
“O pessoal diz: vamos lá na Rosilene”, riu. Na taberna da Rosilene, em plena era de comunicação via redes sociais, tudo funciona como há décadas. A população da região é de baixo poder aquisitivo. “Sou de Urucurituba e lá ainda conheci a venda a retalho, mas aqui nunca vendi dessa forma, até porque hoje já compramos tudo ensacado com o peso de um quilo, mas tem produtos que vêm ensacados com 500 gramas”, disse.
Agora o caderninho e o fiado, esses existem. “Tenho um caderno onde anoto o que o freguês comprou e quando ele recebe, me paga. Atualmente tenho menos de dez fregueses na lista dos bons pagadores, mas já foram mais, ocorre que começaram a atrasar, ou não pagar, e eu tive que cortar da lista”, falou.
Sem propaganda em lugar algum, mas apenas com um bom atendimento a todos que vão ao local e um espaço de poucos metros quadrados sortido de produtos, Rosilene conseguiu ‘fidelizar uma carteira de clientes’. “Sim, tenho clientes fiéis, que compram comigo desde que abri a taberna e aqueles que vêm aqui diariamente comprar nem que seja uma caixa de fósforos. O produto que mais vende? A cerveja, mas aí o freguês compra a salsicha de tira gosto; o ovo ou a lata de sardinha pra farofa; o pão, a bolacha e o refrigerante pro lanche, e assim vai”, concluiu.
A hortifrúti Tomateti
Ao contrário de Rosilene, a paulista Daniela Branicio montou seu pequeno empreendimento, também num espaço de poucos metros quadrados, porém, recentemente e se ‘armou’ com as novas tecnologias das redes sociais para atingir fregueses bem mais distantes onde, a pé, ficaria demorado chegar.
O que iguala os dois empreendimentos é o tipo de comércio. Daniela abriu a Tomateti, uma loja de hortifrútis, ou seja, ela é uma “verdureira” dos tempos atuais.
Os verdureiros existiram em Manaus até o inchamento da cidade pós-instalação da Zona Franca, em 1967.
Eles compravam seus produtos na beira (do rio) e, após acondicioná-los em tabuleiros, depois colocados sobre a cabeça protegida por um pano dobrado, saiam pelas ruas vendendo-os nas residências.
Na Tomateti os tabuleiros foram substituídos pelos ‘modernosos’ expositores feitos de palets e Daniela não precisa colocá-los na cabeça para oferecer suas hortifrútis.
“Há 20 anos eu trabalho com esses produtos, sendo que no atacado. Somente agora resolvi vendê-los, também, no varejo, mas com uma proposta diferenciada. Quero que minha loja seja conhecida como um lugar onde se vende saúde”, adiantou.
Na Tomateti alguns dos produtos são orgânicos, outros naturais e regionais. “Temos castanhas, soja, ‘carne’ de soja, pão integral e me comunico com meus clientes pelas redes sociais, WhatsApp, Facebook, Instagram.
Talvez por isso a maioria dos meus clientes seja jovem, e noto que são jovens que buscam saúde, pois também vendo plantinhas para horta, tipo cheiro-verde, cebolinha, salsinha, hortelã, tomilho, entre outras, e eles as compram sempre para colocar nas suas casas e apartamentos”, lembrou.
Além dos jovens clientes, a tradição do segmento de hortifrúti, mantém o cliente também mais tradicional, explica Daniela. “Muitas pessoas ainda não são afetadas pelas propagandas e redes sociais, não vão a grandes lojas e estão longe do comércio eletrônico. Por isso nossa loja também não tem a aparência de loja de shopping ou banco, com seguranças nas portas.
Essas coisas não são atraentes para os mais idosos e atendemos também a estes, muitos compram ainda em pequenas porções e por isso investimos também nas vendas a granel”, comenta.
A Tomateti fica no conjunto Nova República, que tem dois condomínios em sua área, e ainda atende clientes do condomínio Eliza Miranda. “Eles fazem seus pedidos via WhatsApp e nós mandamos entregar”. Quanta evolução desde o tempo dos ‘verdureiros’.
O comércio manauara ontem e hoje
Em sua disssertação de mestrado, “A Crise da Economia Gumífera e o Mundo do Trabalho em Manaus (1910 – 1930)” de 2010, Benta Litaiff Praia fala sobre o comércio na Manaus antiga. “Muitos vendedores de guloseimas que transitavam com seus tabuleiros, paneiros, cestas e carrinhos de cocadas, bolos, pés-de-moleque, bananas em caldas e fritas, pastéis, salgados e outras iguarias regionais, principalmente pelas ruas e praças do centro urbanizado, por onde transitava um maior número de pedestres, traziam seus produtos, em grande parte, arrumados e cobertos, a fiscalização das autoridades sanitárias nesse perímetro da cidade era mais rigorosa. Assim, doces, quitandas e petiscos caseiros confeccionados pelas mulheres de suas famílias eram vendidos aos trabalhadores em trânsito, homens de negócios, funcionários públicos, moças chics, senhoras elegantes vestidas em muitos casos à francesa, habitualmente as crianças e adolescentes constituíam o grosso da freguesia”. Apesar de toda a modernidade, muito disso ainda pode ser visto na Manaus de hoje.
E nesses novos tempos, as mulheres a frente de empresas tem sido algo cada vez mais comum no Brasil e Manaus vem para atestar esta tendência.
As mulheres comandam as empresas com zelo e boas práticas de administração e muitas vezes em atividades comerciais e empresariais dominadas por homens, tornando verdadeiro um levantamento feito pela Serasa Experian, que afirma que 8% de toda a população feminina do Brasil é empreendedora.
A pesquisa registrou que, entre todos os donos de empresas no país, 43% são do sexo feminino.
E quando se trata de abrir um negócio próprio, a mulher também toma a frente. A maioria dos empreendedores que buscam os recursos do Programa de Microcrédito da Afeam (Agência de Fomento do Estado do Amazonas S.A.), o Banco do Povo é formada por mulheres, jovens com idade aproximada entre 20 e 35 anos.
De acordo com a Agência, para o atual momento de crise econômica, o próprio negócio é alternativa contra desemprego. “E a busca pelo financiamento cresce em tempos de crise porque com o recurso é possível investir em um empreendimento, ainda que pequeno, mas que poderá gerar renda alternativa ao emprego perdido. Quem está desempregado e não consegue uma nova recolocação no mercado de trabalho, tenta instalar o próprio negócio, e para tanto, um financiamento é importante para iniciar uma atividade econômica, por menor que seja, geralmente no setor comercial, o mais demandado”, explica a assessoria da Afeam. E o setor comercial ainda é o mais procurado por quem tenta constituir uma microempresa.







