Há pouco mais de dez anos o açaí só fazia parte do cardápio de quem morava no interior do Amazonas, porém, a frutinha com gosto de terra foi chegando a Manaus e hoje praticamente não há quem não goste de saborear um grosso açaí, sim, porque a bebida até deixou de ser chamada de vinho. Dados do Idam, do ano passado, mostram que a produção de açaí no Amazonas aumentou aproximadamente 150% entre 2018 e 2024, saltando de 550,8 mil para 1,3 milhão de toneladas de frutos. Ainda assim não dá para suprir o consumo dos manauaras e o preço do litro só aumenta.
De olho nesse filão, a Associação Sementes da Amazônia, com apoio do JPA (Juntos Pela Amazônia), fundo colaborativo que conecta empresas e organizações para investir em projetos estratégicos na Amazônia Legal, em parceria com a Ufam e a Associação dos Produtores e Criadores de Tapauá, criou o Projeto Euterpe Viva para estruturar a cadeia produtiva do açaí, na Floresta Estadual de Tapauá, Unidade de Conservação com mais de 84 mil km², localizada no rio Purus.
“Não existe um número oficial de quantos produtores de açaí atuam na Floresta Estadual de Tapauá, devido à grande extensão da Unidade de Conservação. O Plano de Gestão da Floresta, elaborado há alguns anos, aponta a presença de centenas de famílias distribuídas em diversas comunidades ribeirinhas, muitas delas tendo o açaí como base de subsistência e renda”, falou Valdiek Menezes, coordenador do projeto.
“O Projeto Euterpe Viva vai realizar um inventário dos açaizais e dos extrativistas, começando com cerca de 40 famílias diretamente beneficiadas, como um passo inicial para dar visibilidade, organização e formalização à cadeia produtiva do açaí na região”, completou.

Cinco toneladas
A produção de açaí em Tapauá é sazonal, concentrando-se principalmente entre os meses de dezembro e março, período que marca o pico da safra do açaí nativo. Fora desse intervalo, a oferta diminui de forma significativa, o que impacta diretamente a disponibilidade do produto e a renda das famílias extrativistas.
“Existem indícios empíricos de que, em alguns trechos da calha do rio Purus, determinadas variedades possam apresentar pico de produção antes de dezembro. No entanto, até o momento, não há estudos que comprovem esse comportamento, além disso, a maior parte da produção ainda ocorre de maneira informal, sem registros consolidados de volume”, disse Valdiek.
O Projeto Euterpe Viva tem como meta a produção de cinco toneladas de polpa de açaí, como projeto piloto, durante a safra de dezembro de 2026 a janeiro de 2027.
“Esse piloto é um passo importante para transformar o potencial do açaí em dados, renda e organização para as comunidades. O projeto nasce justamente para organizar uma atividade que já existe, mas que ainda carece de dados, estrutura e reconhecimento”, explicou.
Muitos pontos de venda de açaí, em Manaus, o anunciam como ‘Açaí de Anori’, mas o produto pode ter vindo de Tapauá.
“A maior parte do açaí produzido na região de Tapauá é destinada ao consumo local, mas uma parte menor é comercializada para Manaus, geralmente por meio de atravessadores. Com a estruturação da cadeia produtiva, a expectativa é ampliar e qualificar os canais de comercialização, fazendo com que os produtores negociem, eles próprios, sua produção”, afirmou.
Ainda sobem nas palmeiras
O consumidor, em Manaus, ao saborear o açaí, não imagina as dificuldades para o fruto chegar até seu copo.
O açaí é um fruto altamente perecível. Sem beneficiamento imediato e refrigeração, pode se deteriorar em poucas horas, especialmente em períodos de calor intenso. Além disso, práticas de manejo inadequado, como atrasos na coleta, acondicionamento impróprio e exposição prolongada ao calor e à umidade, comprometem sua qualidade, sem falar dos desafios logísticos, grandes distâncias, transporte fluvial demorado e acesso limitado a equipamentos.
Em plena era da tecnologia, a colheita do açaí, em Tapauá, é realizada de forma tradicional e secular, com subida manual nas palmeiras.
“Até existem equipamentos que tornam esse processo mais seguro e eficiente, mas eles ainda não estão amplamente acessíveis à populações ribeirinhas. O principal desafio está no beneficiamento. Grande parte do processamento ocorre de forma manual e com infraestrutura limitada, o que dificulta o controle sanitário, a vida útil e a agregação de valor. Em alguns casos, as comunidades recorrem a máquinas de terceiros ou atravessadores, o que reduz a autonomia da produção”, revelou o coordenador.
Durante o processo de mobilização, outras comunidades ribeirinhas e indígenas têm procurado a equipe do projeto, interessadas em participar das ações. Esse movimento reforça a importância de ampliar investimentos e parcerias ao longo do tempo, para fortalecer a estrutura produtiva e alcançar mais famílias de forma planejada e responsável.
“O fortalecimento da cadeia do açaí passa por organização, infraestrutura e cooperação de longo prazo. Reduzir perdas não é apenas uma questão econômica, mas também de respeito ao trabalho das famílias e ao alimento produzido na floresta”, concluiu.







