Agricultores e pesquisadores defendem resgate de alimentos ancestrais da Amazônia

Em: 6 de junho de 2026
Gastronomia ancestral na prática (Foto: Divulgação)

 

Espécies alimentícias tradicionais da Amazônia, muitas delas cada vez menos presentes na mesa dos brasileiros, estiveram no centro dos debates da 6ª edição da Festa da Floresta – Justiça Climática e Cultura Alimentar, realizada nos dias 30 e 31 de maio, na Área de Proteção Ambiental (APA) Adolpho Ducke, em Manaus. O evento reuniu agricultores, pesquisadores, educadores, artistas e comunidades para discutir caminhos que unem produção de alimentos, preservação ambiental e valorização dos saberes tradicionais da Amazônia.

Mais de 50 espécies em debate

Durante dois dias de programação, 150 participantes vivenciaram atividades de agroecologia, oficinas culinárias, apresentações culturais e experiências de cultivo coletivo. Entre os destaques esteve a apresentação do pesquisador e botânico Valdely Kinupp, que compartilhou conhecimentos sobre dezenas de espécies alimentícias ainda pouco utilizadas no cotidiano da população, apesar de seu potencial nutricional e econômico.

A programação também evidenciou o papel da agricultura familiar na segurança alimentar da região. Agricultores da Associação dos Produtores Rurais do Puraquequara (ASPROB) participaram de oficinas e trocaram experiências sobre sistemas agroecológicos desenvolvidos com apoio do Instituto Tera Kuno, em especial o projeto Sisteminha.

“Foi inspirador. A gente descobriu um tesouro que já existe aqui no nosso território”, destacou a presidente da associação, Sílvia Serra.

Gastronomia ancestral na prática

A gastronomia foi um dos pontos altos do encontro. Pratos preparados com ingredientes regionais e Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) apresentaram ao público possibilidades de uso de espécies pouco exploradas comercialmente. Entre os alimentos utilizados estavam a batata ariá, pupunha, coração de banana, ora-pro-nóbis, além de variedades tradicionais de milho e macaxeira.

“A cozinha virou encontro. Todo mundo ajudando, descascando, cortando, cozinhando junto”, relata Nora Hauswirth, curadora do evento.

Arte, memória e território

Além das discussões sobre alimentação e sustentabilidade, o evento promoveu apresentações musicais, teatro e manifestações culturais que reforçaram a relação entre território, memória e produção de alimentos.

“A floresta fala. A oralidade carrega nossa memória”, afirma a artista indígena Acácia Mié.

O ator Dimas Mendonça também destacou a conexão entre cultura e alimentação. “Estar em Tera Kuno é celebrar a terra e a comida que ela nos dá”, disse.

A agricultora Majé Beth trouxe reflexões sobre memória e transformação dos hábitos alimentares ao longo do tempo. “A floresta não é só onde a gente pisa. É alimento, memória e cuidado”, ressaltou.

Os grupos Jiquitaia Coco de Roda, Leandro Ribeiro e Arraial de Manaós levaram música e ritmo para a programação. “Plantar, colher, dançar e cantar — tudo junto”, resumiu uma das musicistas.

Realizada pelo Instituto Tera Kuno, a Festa da Floresta buscou fortalecer o debate sobre justiça climática, agroecologia e cultura alimentar, aproximando comunidades urbanas e rurais por meio de experiências ligadas à educação, à valorização da biodiversidade amazônica e ao resgate de saberes ancestrais.

Fomento e Realização

Com curadoria e produção de Nora Hauswirth e Alexandre Vitor, a Festa da Floresta foi realizada pelo Instituto de Pesquisa e Divulgação Agroecológicas Tera Kuno, por meio do programa Arte & Escola na Floresta. O projeto foi contemplado pelo Edital de Fomento Cultural Multilinguagens (Nº 09/2025) do Fundo Estadual de Cultura, recebendo o apoio do Governo do Amazonas (por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa) e do Ministério da Cultura do Governo Federal, através da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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