O Dia Mundial da Água é comemorado no dia 22 de março de cada ano. O tema é tão importante que temos, como Humanidade, o sexto Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS 6) proposto até 2030 pela Organização das Nações Unidas (ONU): ASSEGURAR A DISPONIBILIDADE E GESTÃO SUSTENTÁVEL DA ÁGUA E SANEAMENTO PARA TODAS E TODOS.
Desde o senador Bernardo Cabral, temos um vazio no Congresso Nacional de representantes que busquem analisar Recursos Hídricos na estratégia do Estado nacional.
As consequências já são visíveis, principalmente nas grandes capitais. Rio de Janeiro, que antes de Brasília foi a capital do Brasil, bebe ‘água de bosta’, ou como chamam os cientistas, água com coliformes fecais. São Paulo, capital do estado federativo mais rico, sofre em extremos: há alguns anos, pela estiagem prevista pelos meteorologistas e não planejada pelos gestores de plantão, teve que escolher entre matar a sede da população, ou dar água às fábricas, ao gado e à agricultura; a mesma Capital sofre com constantes alagamentos nas suas marginais, em bairros construídos em planícies de inundação.
Poderíamos falar de Vitória, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e Manaus, entre outras capitais que, por seu crescimento desordenado e um histórico problema de falta de planejamento habitacional e urbano, tornam-se noticiário de tragédias nos jornais, TV e internet, lamentavelmente, com perdas de vidas, pela força das águas.
Não estamos respeitando o nosso Ciclo das Águas.
Aprendemos o conceito do Ciclo das Águas nas escolas. A água dos rios, lagos, mar, evapora com o calor do Sol, vira nuvens e se precipita, na forma de chuva, caindo nas florestas, no campo e nas cidades. Quando cai na floresta, como um guarda-chuva, é amparada, perdendo sua força destrutiva. Ali, alimenta as plantas e animais, corre calmamente para o igarapé, ou rio mais próximo, ou infiltra na terra, formando reservas de água subterrânea.
A esses reservatórios de água no subsolo chamamos ‘aquíferos’.
Os aquíferos têm relações muito pessoais com os igarapés: na vazante, alimentam com água os igarapés; na cheia, são alimentados pelas águas superficiais dos igarapés. Em quantidade, há equilíbrio. Mas, em qualidade…
O aquífero Alter do Chão que abastece aproximadamente 30% da população de Manaus, possui uma profundidade de cerca de 200 metros. O crescimento urbano desordenado da nossa capital já compromete a qualidade ambiental de suas águas.
Artigos científicos apontam haver rebaixamento entre 20 e 40 metros do lençol freático pelo excesso de poços perfurados sem gestão, ou controle técnico, o que significa que, se antes conseguíamos, com um poço de 60 metros de profundidade, captar a água em volume e qualidade, hoje, temos que perfurar até 80 e 100 metros.
A parte mais superficial do aquífero, os primeiros 30 a 40 metros desde a superfície, não deve ser consumida pela qualidade duvidosa de suas águas – poderemos, mesmo sendo a agua cristalina, estar consumindo líquido contaminado.
Manaus reproduz a falta de um plano diretor de saneamento.
Como explicar ao planeta que há pessoas em bairros periféricos na cidade localizada na mais importante bacia hidrográfica do Planeta, a Amazônica, que não têm acesso à agua tratada; ou, nas ruas, vermos valas negras empurrarem para os igarapés urbanos o lixo do nosso descaso, de governantes e governados, moradores da cidade floresta?
Perdemos nossa “florestania”, uma cidadania urbana qualificada pela relação equilibrada entre a água e a floresta, vivida por nossos pais que namoravam nos cajuais da Cachoeirinha, se banhando no Quarenta, nos banhos do Mindu, ou no balneário da Ponte da Bolívia, onde tomei banho em 1994, quando cheguei para viver em Manaus.
Ao acessar os dados do site: https://sites.google.com/uea.edu.br/qualidade-da-agua-prosamim/projeto podemos observar resultados científicos do fiasco de nossas políticas públicas de gestão das águas e do planejamento urbano.
Estamos reféns e achando como natural, viver em prédios luxuosos na beira dos igarapés fétidos, andar e correr nos parques cheios de academias a céu aberto, construídos nas planícies de inundação, onde antes, haviam matas ciliares protegendo o percurso da água.
Os dados do estudo mais recente deste grupo de pesquisa da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) dão forma ao que se tornaram nossos igarapés urbanos em Manaus: antes, balneários públicos, hoje, esgotos vivos e sem vida caminhando rumo ao mar…
Hoje, para tomar banho numa fonte natural – segura, com água não poluída – tenho que pegar meu carro e percorrer 30 km para encontrar, fora da Manaus urbana, a qualidade perdida do equilíbrio água-floresta de nossos pais e avós.
Às vezes penso em ir me banhar na praia da Ponta Negra. Mas, não tenho sequer uma informação pública qualificada sobre a balneabilidade do local.
Não está fácil viver nas grandes cidades, como Manaus.
Não é fácil ir ao banheiro, tomar meu banho, fazer cocô e xixi, pagar integralmente uma taxa de esgoto em minha conta de água, e ver calado, passivamente, meus e nossos efluentes domésticos serem tratados pela empresa concessionária na forma de uma coleta e lançamento direto nos igarapés urbanos que correm ao grande rio Negro autodepurador.
Onde está a Prefeitura e a Câmara de Vereadores de Manaus que não discutem – como prioridade – este tema tão estratégico?
Água é vida. E, neste sentido, é sempre bom relembrar as palavras de nosso poeta Thiago de Mello, escritas em abril de 1964 ao amigo e saudoso Carlos Heitor Cony (1926-2018), em seu Estatuto do Homem (Ato Institucional Permanente): “ […] Artigo VIII – Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor. ”
Obrigado poeta!
Que venham as águas de março fechando o verão, prometendo vida em nossos corações…
*Daniel Borges Nava é geólogo, analista ambiental e professor doutor em Ciências Ambientais e Sustentabilidade na Amazônia







