“Nosso desejo é celebrar mais um tanto do que lamentar”. Em 2006, num cenário instável do rap paulistano, surgia o “Ainda Há Tempo”, primeiro disco do ainda Criolo Doido. Para comemorar os dez anos do disco, desde março, o rapper está em turnê que revisita o registro, que agora também ganhou uma nova edição. Em entrevista por telefone, Criolo fala sobre energia, política, machismo e critica o modo como o país trata a educação.
“Queria ter 200 músicas para poder regravar com todas as pessoas talentosas que passam pelo caminho, que tem energia boa para dividir”, destaca ele sobre o álbum que acaba de voltar às prateleiras. O produtor Ganjaman foi o responsável por reunir nomes brasileiros contemporâneos para reinterpretarem o clássico underground. Dividem a lista de créditos nomes consagrados, de grife internacional, como Tropkillaz, artistas em evidência como Papatinho, Nave e Sala 70, e novas apostas como Deryck Cabrera.
“O processo foi muito tranquilo e eu acompanhei de perto cada faixa que ia pro estúdio. Foi um processo intenso de pesquisa”, diz Criolo. Com o disco pronto, ele garante que não teria feito nada diferente há dez anos. “A energia gerada por cada pessoa é o que alimenta o projeto final. Tudo é o momento e ‘Ainda há Tempo começou a ser pensado em 2001. A energia que faz nascer tantas coisas…”. Sob a ‘batuta’ de Ganja e do coprodutor Marcelo Cabral, o time cavou fundo para transformar pedras brutas em joias perfeitamente lapidadas.
“Eu preciso de convite!”
“É muito corriqueiro pensar o quanto tem gente maravilhosa que poderia chegar a Manaus. Por que não o contrário? Tem muita gente de Manaus que poderia estar no Rio, em São Paulo, ensinando a gente”, questiona ele, que lamenta ainda não ter se apresentado em nenhuma capital do Norte brasileiro. “Eu preciso de convite! No dia que rolar vai ser com muita emoção. Pode escrever”, adianta.
Um dos diferencias de Criolo, é que ele teve a chance de trazer para o destaque uma cena marginalizada e, muitas vezes esquecida pela grande mídia. Uns apoiam a aproximação ao mundo Pop. Outros não. Enquanto isso, Criolo simplesmente ‘aceita convites’. “Quando falamos em ‘concordar’, isso vem de modo doce, mas se falamos ‘eu discordo’, pode doer. Quando lidamos com emoção, paixão e amor, é preciso não interferir e respeitar o que cada um sente. Eu tive a oportunidade de cantar Tim Maia com uma cantora que também ama Tim Maia (ele refere-se a Ivete Sangalo), por exemplo. Ali não eram cantores de ritmos distintos, eram dois fãs agarrando a chance singela de homenageá-lo”, explica.
Engajamento
Desde o início da carreira, Criolo sempre foi um agente motivacional dentro do movimento rap, mas ele se vê apenas como mais um na multidão. “Eu sou apenas mais um dessa turma toda fazendo som, dividindo energia. E isso acontece não só na música, mas com os jovens, os coletivos. Gente que se emociona e traz algo”, defende.
Criolo faz questão de enfatizar que todo mundo tem voz ativa. “Todos têm em si a energia que pode mudar algo. Vivemos num sistema em que, dependendo do lugar onde nasce, ou você segura a onda e sobrevive, numa luta absurda; ou faz o que o coração pede. Sou igual a todo mundo e divido isso com o mundo. Nascer numa favela, filho de pai preto não é fácil”.
E por falar em ‘gente que se mexe’, Criolo comenta sobre o vídeo que fez convocando os amazonenses a prestigiarem o evento “Todas São Manas” (um festival de Hip Hop totalmente protagonizado por mulheres, realizado no último fim de semana). “Nossa! Quando me falaram que tinha a ver com pessoas cheia de energia, atitude, Hip-Hop e só mulheres? Que coisa linda! Eu que agradeço por ter sido lembrado. Como ser o contrário? Tem gente fazendo em todo canto do mundo, fazendo o mundo acontecer… O mundo é machista, sim! E existem episódios que são vistos hoje que não deveriam ter existido nunca!”, alfineta.
Segundo Criolo, a regravação de “Ainda Há Tempo” é um marco por vários motivos. “No final, esse pequeno sumário de 10 anos de rap, Brasil e mundo pode deixar um gosto amargo, uma sensação de que nada mudou substancialmente. De fato, algumas coisas pioraram, mas tem tanto também a se comemorar”, garante o artista -que descarta a responsabilidade de influenciar pessoas da nova geração.
De fato, é admirável que um disco composto sem pretensões de grandeza, pensado em rodas de periferia, numa época de descrédito de um gênero todo, tenha sido o embrião de uma geração que conquistou um espaço sólido e grandioso na música brasileira. “Ainda Há Tempo” era cheio de preocupação e ceticismo, mas também transbordava a esperança de um compositor e de uma comunidade que não queriam sucumbir. “Não quero ver você triste assim, não. Que a minha música possa te levar amor”, Criolo cantava em 2006. Em 2016, ainda há tempo para ouvi-lo.







