O valor da cesta básica em Manaus fechou janeiro com seu primeiro aumento, após seis meses consecutivos de redução. A cidade acompanhou o movimento de outras 23 capitais brasileiras, mas apresentou o maior índice de alta da lista. O valor aumentou 4,44% diante do mês anterior, passando de R$ 620,42 para R$ 647,97, com ímpeto suficiente para eliminar o corte de dezembro (-1,43%). Os dados são da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, levantada pelo Dieese e pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Em nove meses, a alimentação básica ainda acumula baixa de 3,54% na capital amazonense.
Das 27 capitais brasileiras, só três registraram quedas mensais nos valores: São Luiz/MA (-0,57%), Teresina/PI (-0,51%) e Natal/RN (-022%). Em contraste, as altas foram puxadas por Manaus/AM (+4,44%), Palmas/TO (+3,37%) e Rio de Janeiro (+3,22%). Com o repique de janeiro, a capital amazonense passou do segundo para o terceiro mais baixo valor na região Norte, perdendo para Porto Velho/RO (R$ 601,01) e Rio Branco/AC (R$ 631,20), e tendo Palmas/TO (R$ 700,44) na outra ponta. A cidade tem o oitavo mais baixo preço médio no ranking brasileiro, que tem Aracaju/SE (R$ 552,65) e São Paulo/ (R$ 854,37) nos extremos.
Tomate, banana e pão
O levantamento revela que metade dos 12 produtos que compõem a cesta básica de Manaus ficaram mais caros na passagem de dezembro para janeiro. Essa lista inclui tomate (+21,88%), banana (+5,64%), pão francês (+3,06%), manteiga (+2,91%), carne bovina de primeira (+2,23%) e farinha de mandioca (+0,42%). Na outra ponta, óleo de soja (-5,93%), café em pó (-5,29%), arroz agulhinha (-3,70%), leite integral (-2,39%), feijão carioca (-1,47%) e açúcar cristal (-1,36%) ficaram menos distantes dos bolsos dos consumidores manauaras, na mesma comparação.
A análise do acumulado confirma redução no custo da alimentação básica na cidade em período mais prolongado. De abril de 2025 a janeiro de 2026, foram registradas oito quedas de preços acumuladas na cidade, incluindo arroz agulhinha (-25,48%), tomate (-18,59%), farinha de mandioca (-15,61%), açúcar cristal (-’10,57%), leite integral (-5,64%), manteiga (-5,13%), banana (-3,54%) e café em pó (-1,08%). Na outra ponta, os quatro itens que sofreram majoração de preços no mesmo período foram carne bovina de primeira (+9,01%) feijão carioca (+5,16%), óleo de soja (+1,28%) e pão francês (+0,58%). Vale lembrar que a pesquisa do Dieese só voltou a ser realizada na cidade a partir de maio do ano passado.
O Dieese explica que os aumentos de custos de energia elétrica, de matéria-prima e de farinha importada, explicam o reajuste do pão, enquanto a “menor oferta de frutos de qualidade”, puxou os valores do tomate para cima. Em contrapartida, a expectativa de maior oferta de soja, a valorização do real frente ao dólar e a “fraca demanda doméstica” baratearam o óleo de soja. O café também ficou mais acessível, apesar das “condições climáticas, do cenário macroeconômico global e do ambiente cambial”, em função dos já “elevados preços” do varejo. Os “altos estoques” diminuíram os preços do arroz e do leite, ao passo que a maior oferta de produto de “menor qualidade” fez o mesmo pelo açúcar.
Safras, inflação e ‘tarifaço’
A ex-presidente do Corecon-AM e professora do Departamento de Economia da Ufam, Michele Lins Aracaty e Silva, reforçou à reportagem que o atual cenário macroeconômico afeta o custo dos produtos. “Foi possível observar que fatores climáticos, aumento da demanda e custos logísticos foram os grandes responsáveis pela variação nos preços. Considerando-se a atual conjuntura, acreditamos que os valores se mantenham em patamares elevados nos próximos meses. Isso exigirá das famílias, principalmente das assalariadas, pesquisa de preço, mudança de hábito, substituição de compra ou redução quantitativa de itens. E, em último caso, ajustes no orçamento doméstico”, recomendou.
O economista, e ex-supervisor técnico regional do Dieese, Inaldo Seixas, aponta os ‘tarifaços americanos’ e a mudança climática como principais motivos para as variações. “Produtos de primeira necessidade tiveram reduções significativas, como arroz e leite. O café vinha sofrendo pressão nos preços, por conta da estiagem e quebras de safras. Mas, a próxima tende a ser boa e já existe uma expectativa de queda de preços. Por outro lado, os aumentos foram pouco significativos. No caso da carne, o Brasil abriu novos mercados e os frigoríficos brasileiros continuaram exportando [gerando redução na oferta interna]”, citou.
A consultora empresarial, professora universitária e conselheira do Cofecon, Denise Kassama, enfatiza que os números confirmam o fim de um ciclo. “O ano de 2024 foi difícil para a agropecuária, com muitos eventos climáticos que prejudicaram o setor, como enchentes, secas e incêndios. O ano de 2025 foi de recuperação, com safras recordes. Além disso, por conta do ‘tarifaço’, produtos que deixaram se ser exportados vieram para o mercado nacional, aumentando a oferta e reduzindo o preço. Mas, já estamos na fase de ter uma outra safra, e a cesta básica deve oscilar conforme o estoque regulador”, frisou.
Salário mínimo
Conforme o Dieese, em janeiro, o trabalhador de Manaus que sobrevive de salário mínimo (R$ 1.621) precisou trabalhar 87 horas e 56 minutos para adquirir a cesta básica. O tempo necessário para bancar o gasto foi menor do que o do mês anterior (89 horas e 55 minutos) e está aquém da média do país (93 horas e 47 minutos). Considerando o mínimo líquido, após o desconto de 7,5% da Previdência Social, o trabalhador precisou comprometer 43,21% de sua renda mensal para bancar a alimentação de sua família, fatia igualmente inferior à registrada em dezembro (44,18%) e pouco abaixo da média nacional (46,08%).
No texto de divulgação da pesquisa, o Dieese estima que, com base na cesta básica mais cara do Brasil (a de São Paulo), e em uma família padrão de dois adultos e duas crianças, o valor do salário mínimo necessário deveria ser de R$ 7.177,57. A instituição explica que o cálculo se baseia na “determinação constitucional” que estabelece que a remuneração pelo piso nacional deveria ser suficiente para suprir as despesas com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência.
“Com o aumento real do salário mínimo acima da inflação, o nível de comprometimento da renda do consumidor de baixa renda diminuiu, enquanto seu poder de compra aumentou. Esse percentual já foi de 50% e está caindo, Se não tivermos nenhum choque de oferta e a desvalorização do dólar for mantida, a perspectiva é que os preços caiam um pouco mais, com tendência de estabilidade no longo prazo”, conjecturou Inaldo Seixas.
Em entrevista anterior, Denise Kassama observou que um reajuste do mínimo nessa proporção elevaria custos operacionais e trabalhistas das empresas, além de gerar impactos na máquina pública. “Precisamos de mais crescimento econômico e produtividade para que essa renda possa aumentar de forma geral. Mas, esse valor acaba sendo irreal para a realidade brasileira. Conheço muita gente com nível superior que não ganha esse valor de R$ 7.000, na atual conjuntura”, concluiu.







