Amazonas: das ‘drogas do sertão’ e especiarias à indústria

Em: 31 de agosto de 2018
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* Na série do Jornal do Commercio sobre a evolução do Amazonas, que no dia 05 de setembro celebra a elevação do estado à categoria de província, a matéria a seguir mostra as mudanças econômicas e substituições de riquezas no Amazonas ao longo destes 168 anos.

Quando o Amazonas foi elevado à categoria de província, em 5 de setembro de 1850, ou seja, tornou-se politicamente independente do Pará, tinha uma população com menos de 50 mil pessoas e uma economia que já movimentava as cidades surgidas ao longo do grande rio desde a fundação de Belém, em 1616.
“As principais ocupações dos amazonenses até 1858 estavam centralizadas em uma unidade de produção, que mantinham uma agricultura de subsistência auto-suficiente, importavam produtos industrializados através dos regatões, colhiam as chamadas drogas do sertão entre ela a salsaparrilha, exportada para os Estados Unidos, e, no tempo das praias, abandonavam tudo para colher os ovos das tartarugas, transformados em manteiga, envasada em potes de barro, e pescar o pirarucu, transformado em mantas. Estes dois últimos produtos eram exportados para o Pará”, contou o historiador Antonio Loureiro.

A partir do final daquela década, começou a surgir aquela que seria a grande, a principal, e até hoje lembrada, riqueza que o Amazonas e a Amazônia possuiriam: a borracha.

“A borracha tomou força após a instalação das linhas regulares de navegação a vapor da Companhia de Comércio e Navegação, pertencente ao Visconde de Mauá, com a distância Belém-Manaus reduzida para sete dias e uma maior tonelagem de carga sendo transportada. Manaus passou a centralizar o ciclo como centro financiador (aviamentos) dos seringais e das casas exportadoras”, contou. “Mas a grande comercialização dependia do transporte controlado pelos ingleses (The Amazon Steamship e Booth Line) e a revenda da borracha, no mercado mundial, nas Bolsas de Londres e Nova Iorque, onde os lucros das firmas eram enormes, com o preço atingindo 20kg de ouro por tonelada, em 1910, devido ao avanço da indústria automobilística”, disse.

“Quando a produção asiática de borracha superou a da Amazônia, em 1910, o preço da borracha amazonense despencou, levando junto a rica economia da região, mas mesmo assim continuamos a produzir à custa da pobreza das regiões produtoras do interior”, lamentou.

“Após o período áureo do comércio da borracha, 1890/1910, continuamos a exportar alguma borracha e iniciaram-se atividades na exportação da castanha e de couros de jacaré, além de outras espécies, que foram quase ao extermínio, e em nível de madeiras, se exportou mogno, acapu e pau amarelo, também quase extintos. A população urbana e do interior vivia em geral na miséria, com alimentos importados caríssimos e insuficientes e sempre os que as salvou foi o peixe e a farinha”, revelou.

“Na década de 1950, dois produtos novos apareceram na nossa economia: a juta e a refinação do petróleo. A juta, trazida pelos imigrantes japoneses de Vila Amazônia, prosperou na região e foram instaladas indústrias de sacarias, que cresceram bastante, dando alento à criação de novos empregos a nível primário. Logo seguiu-se a instalação da Refinaria de Manaus, em 1957, refinando seis mil barris diários de petróleo da Ganso Azul, empresa da região de Pucalpa, no Peru, o que abriu possibilidades para pessoal do nível médio ter emprego, o que voltaria a acontecer, a partir de 1967, com a criação da Zona Franca”, lembrou.

        Governos perdidos com várias alternativas
        Mas, e se não tivesse existido a Zona Franca? Como estaria a situação da economia de Manaus e do Amazonas? “Hoje, devido à Zona Franca, a capital amazonense concentra 72% do PIB (Produto Interno Bruto) estadual, o interior apenas 28%”, salientou o economista Osiris Silva. “Vale lembrar que, com todas as dificuldades, o setor primário vem dando alguns saltos de qualidade, como em relação à produção pecuária e de ovos de galinha.  A agropecuária no Amazonas pode crescer expressivamente desde que o governo direcione investimentos em segmentos estratégicos (piscicultura, fruticultura, pecuária, exploração madeireira) baseada em projetos de manejo sustentável previstos em lei”, detalhou o economista.

        “Quanto à mineração, continua sendo uma perspectiva sem parâmetros bem definidos. Há medições comprovadas que demonstram viabilidade em diversos segmentos. O governo do Amazonas concentra suas expectativas em ampliar a exploração de riquezas minerais hoje restritas ao petróleo, gás natural e seus derivados. A estrela de maior realce dessa constelação é a silvinita, o princípio ativo do potássio, quase cem por cento importado pelo Brasil. Merecem ainda destaques o nióbio (o mais estratégico mineral do planeta hoje), ouro, cassiterita, argila e o caulim”, listou.

        “Outras alternativas econômicas que se apresentam estão no potencial hídrico, reservas minerais, hidrocarbonetos, exploração madeireira, bioenergia, bioengenharia, serviços ambientais e biofármacos. Em qualquer situação o governo brasileiro terá de assumir riscos e realizar investimentos pesados no sistema de ensino, ciência, tecnologia e inovação, tendo em vista gerar as condições básicas para, sustentavelmente, conciliando sua preservação, transformar a floresta em ativo altamente rentável para a economia regional e brasileira”, afirmou.

        Osiris Silva citou ainda o turismo e a pesca, como segmentos mal explorados. “Há muito o que explorar no Amazonas, porém o setor, entra governo sai governo continua não mais do que mera perspectiva. Não se trata de questão de falta de recursos, mas da qualidade de sua aplicação. A questão essencialmente não tem mudado nessas últimas décadas”, reclamou. “Com a pesca ocorre o mesmo. Os recursos do FTI e FPMES elegem a atividade como prioritária, mas o Amazonas não tem projeto e sistema de produção definindo as bases tecnológicas para a o desenvolvimento sustentável da piscicultura em nosso interior. O Brasil e o mundo demonstram a importância da pesca na cadeia alimentar humana mas, mais uma vez esbarramos na falta de investimentos adequados no segmento”, lamentou.

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Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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