Amazonas segue com o preço mais alto do milho no país

Em: 20 de fevereiro de 2021
O preço do milho para o Amazonas, no programa de “Vendas em Balcão” da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), ainda é o mais caro de todo o país

O preço do milho para o Amazonas, no programa de “Vendas em Balcão” da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), ainda é o mais caro de todo o país. Os dados mais recentes do levantamento periódico da estatal, referentes à segunda quinzena deste mês, mostram que o valor estipulado para a saca de 60 quilos de milho no Estado é de R$ 96. É um patamar consideravelmente mais elevado do que o que é cobrado nas demais unidades da federação, onde o custo frequentemente gira entre R$ 76 e R$ 80.

Apesar do possível argumento logístico para explicar a diferença, Estados vizinhos e com problemas semelhantes nesse sentido aparecem com valores bem menores do que o cobrado no Amazonas. É o caso do Acre (R$ 88,80) e de Rondônia –onde há uma variação de R$ 82,02 a R$ 84,60. Maior ainda é a diferença apresentada em Roraima (R$ 72,60), embora o estoque público tenha a mesma origem (Mato Grosso) e passe pela capital amazonense, antes de percorrer os 748 quilômetros que a separa de Boa Vista.

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É um patamar consideravelmente mais elevado do que nas demais unidades da federação
Foto: Divulgação

Indagado sobre os porquês do diferencial do preço amazônico, o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, esclareceu que a Conab possui metodologia própria para a definição dos valores, mas não deixou de ressaltar que o “Vendas em Balcão” é de importância estratégica no acesso dos pequenos e médios produtores rurais do Estado ao milho para uso na ração animal. Conforme o dirigente, o grão é a principal fonte de energia para aves e suínos (mais de 70% da dieta).

“Defendemos pela Faea que a Conab possa estabelecer um valor mais compatível com o praticado pela mesma Companhia em Estados vizinhos. Sobretudo porque a produção de milho no Amazonas ainda não atende à demanda dos criadores. Nesse contexto, o programa tem esse papel de uma importante política pública para viabilizar aos pequenos e médios um custo menor de acesso ao milho”, asseverou.

Muni Lourenço destaca que há diversos fatores de mercado que encarecem o produto. O principal seria a forte e crescente demanda do mercado internacional pelo milho, principalmente da China, que em janeiro realizou a maior compra diária desde julho do ano passado. Com isso, o produto alcançou sua maior cotação em sete anos. E, segundo o dirigente, a volatilidade do câmbio é outro entrave, já que incentiva exportações e escassez do produto no mercado interno, com o consequente efeito nos preços. 

“A China está comprando quantidades recordes de milho também nos Estados Unidos, para alimentar seu rebanho de suínos. Então, existe uma pressão de alta de preços no milho. Há de se ressaltar que os produtores brasileiros, tanto de milho, quanto de soja, têm priorizado a exportação, dada a desvalorização do real. Restando menos milho no mercado interno, os preços aumentam”, lamentou.

O presidente da Faea salienta ainda que, com a forte alta do milho, os custos operacionais das atividades criatórias do setor primário têm aumentado substancialmente, agravando a corrosão da margem de rentabilidade dos produtores rurais. “E isso acontece mais agudamente com os pequenos e médios criadores, que na maioria estão com custos operacionais já comprimidos ou com margens negativas de rentabilidade”, completou.

Sem autossuficiência

O titular da Sepror (Secretaria de Produção Rural do Amazonas), Petrucio Magalhães Júnior, concorda que o preço do milho e da ração está muito alto para os produtores rurais amazonenses, aumentando o custo de produção dos produtos de origem animal. O secretário estadual ressalva ainda que, embora tenha obtido crescimento na produção de grãos, nos últimos dois anos, o Amazonas ainda não é autossuficiente para atender as cadeias produtivas locais, dependendo da importação de grãos e rações provenientes de Estados produtores do Sul e Centro-Oeste. 

“Cabe destacar ainda a importância desse programa federal denominado de ‘Vendas em Balcão’ ao nosso Estado, pela Conab. Agora, o preço que vem sendo praticado atualmente não está ajudando nossos criadores de aves, suínos e bovinos como deveria. O governador Wilson Lima já reivindicou ao Ministério da Agricultura a prática de um menor preço ao Amazonas. Agora, no meu ponto de vista, não vejo sentido num valor diferente em Roraima e Amazonas, visto que o milho do estoque público tem a mesma origem, passa por Manaus e vai até o Estado vizinho Roraima”, questionou.

Apelo à união

Em texto postado em seu blog, o ex-superintendente da Conab, administrador com especialização no agronegócio e colaborador do Jornal do Commercio, Thomaz Meirelles, defende que a bancada federal do Amazonas “não pode mais” ignorar tamanho do preço do milho do estoque público praticado pela Conab no Amazonas. Para o especialista, no entanto, isso só poderá ser conseguido com a união de todos os representantes do Estado no Congresso.

“A regional da Conab no Amazonas e seus técnicos têm se esforçado para ter um preço melhor, mas só a presença política pode resolver o assunto. Estamos falando de um produto com ligação direta na produção de carnes e ovos, ligação direta com a geração de renda dos criadores rurais de aves e suínos, e com a segurança alimentar e nutricional do nosso povo. Nosso setor primário, nossos 350 mil produtores rurais, precisam da união da bancada federal”, frisou.

Solução no subsídio

Parlamentar que já demonstrou proximidade com as pautas do setor agropecuário do Estado, o deputado federal, Capitão Alberto Neto (Republicanos-AM) informa que já apresentou pleitos ao Ministério da Agricultura para a revisão dos critérios de definição de preço do milho, no âmbito do programa da Conab, para o Estado. 

“Esse programa federal de abastecimento é fundamental ao Amazonas, pois ainda não temos produção de milho suficiente para atender a demanda interna. Já sugeri ao governo federal o retorno do subsídio ao preço do milho do programa ‘Vendas em Balcão’ ao Norte e Nordeste. Esse é o caminho mais justo para ajudar a recuperar os pequenos criadores rurais afetados pela pandemia”, finalizou.

Foto/Destaque: Divulgação

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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