Mais da metade dos habitantes do Amazonas vivia em estado de pobreza, em 2022. Nada menos do que 55,1% da população, ou 2,2 milhões de pessoas, sobreviviam com renda inferior a US$ 6.85 de PPC (paridade de poder de compra) por dia – ou R$ 623 por mês. Dentro desse grupo, 10,5% (438 mil) já conviviam na extrema pobreza, subsistindo com menos de US$ 2.15 de PPC (R$ 195 mensais). A constatação vem da pesquisa Síntese de Indicadores Sociais de 2022, do IBGE. O Estado aparece com números piores do que a média nacional e a região Norte.
O rendimento médio de mulheres “pretas ou pardas” foi o menor do período e apenas 9,1% da população estadual contava com rendimentos per capita superiores a R$ 2.000. A boa notícia é que a proporção de amazonenses passando por privações de comida, água tratada, saúde e abrigo foi menor do que a registrada no ano anterior. Segundo o IBGE, a relativa melhora nas desigualdades sociais foi favorecida por programas sociais governamentais. Em sintonia, a região Norte, que obteve o maior crescimento da renda per capita em 2022 (+16,6%), também foi a segunda em volume de repasses por benefícios do gênero.
Em todo o país, o percentual de pessoas em extrema pobreza (12,7 milhões) caiu para 5,9%, após alcançar 9% em 2021 –o segundo ano da pandemia. Já a proporção de pessoas em situação de pobreza, retrocedeu de 36,7% (2021) para 31,6% (2022), somando 67,8 milhões. Ambas as faixas recuaram, com destaque para o Norte (-7,2 pontos percentuais e -5,9 p.p., respectivamente) e o Nordeste (-6,2 p.p. e -5,8 p.p.). O Nordeste detinha 27% da população total do Brasil, mas concentrava 43,5% na pobreza e 54,6% em extrema pobreza. Já o Norte, que reunia 8,7% dos brasileiros, teve fatias respectivas de 12,8% e 11,9%.
Renda, gênero e etnia
O Amazonas (10,5%) registrou percentual de habitantes vivendo na extrema pobreza quase duas vezes maior do que o da média brasileira (5,9%) e superou com folga o Norte (8%). Ocupa a nona posição do país, em uma lista com Santa Catarina e Distrito Federal (ambos com 1,8%) de um lado, e o Maranhão (15%), do outro. Também foi o segundo do ranking regional, perdendo apenas para o Acre (14%). Mas, conseguiu reduzir em 5,7 p.p. o quantitativo de pessoas nessa situação –que chegou a 16,2% em 2021. O IBGE ressalta, contudo, que a diferença se deve em boa medida ao arrefecimento da pandemia.
O Estado sobe no ranking, quando a parcela da população analisada é aquela que vive na faixa da pobreza. Com 55,1% (2,2 milhões) de seus habitantes nessa condição, ocupa a segunda colocação, ficando atrás apenas do Maranhão (56,7%). O percentual mais baixo do Brasil também está em Santa Catarina (12,8%). Neste caso, o Amazonas avançou proporcionalmente menos, quando comparado a 2021 (58,4%), ainda que tenha comemorado a saída de 103 mil pessoas desse grupo.
A sondagem mostra que 20,8% da população do Amazonas tinham rendimento domiciliar, per capita, de até um quarto do salário mínimo (ou R$ 325,50, em valores atualizados). Uma proporção maior, equivalente a 32% dos amazonenses, ganhava remuneração acima desse patamar e limitada a meio salário mínimo (R$ 651). Somente 4,5% recebiam de 2 (R$ 2.604) a 3 (R$ 3.906) mínimos e apenas 1,2% podiam contar com mais de 5 mínimos (R$ 6.510).
A renda média dos amazonenses de 14 anos ou mais de idade (a idade inicial para trabalhar, na medida do IBGE) foi de R$ 1.988, deixando o Estado na 20ª posição do ranking brasileiro, sendo que o Distrito Federal (R$ 4.403) e a Bahia (R$ 1.662) ficaram nos extremos. O rendimento domiciliar per capita foi de R$ 947, perdendo também para a média nacional (R$ 1.586) e da região Norte (R$ 1.096). Na média, os homens receberam R$ 957 per capta, e as mulheres R$ 936. “Brancos” ganhavam R$ 1.337, bem mais do que os “pretos” (R$ 971) e “pardos” (R$ 873). Homens “brancos” receberam a média de rendimentos mais alta (R$ 1.340) e as mulheres “pretas ou pardas”, os mais baixos (R$ 860).
“Em todo o país, a pesquisa revelou que o rendimento médio domiciliar per capita aumentou em 6,9%. O crescimento nos rendimentos das pessoas pretas ou pardas ficou em 11,8% e, entre as pessoas brancas, foi de 3,5%. Apesar do aumento da média dos rendimentos per capita, não houve recuperação das perdas sociais ocorridas nos anos de 2020 e 2021”, frisou o IBGE-AM, no texto de divulgação da sondagem.
Programas sociais
Na comparação com 2021, houve crescimento no rendimento médio domiciliar per capita em todas as grandes regiões geográficas, com destaque para o Norte (+16,6%), o Centro-Oeste (+10,6%) e Nordeste (+8,8%). Sudeste (+4,8%) e Sul (+6,2%) avançaram menos. O trabalho (74,5%) foi a principal fonte de rendimento dos domicílios, seguido por aposentadorias e pensões (45,6%) e depois por benefícios de programas sociais (44,3%).
A pesquisa aponta também o papel de destaque dos benefícios sociais de programas governamentais para reduzir os abismos de renda. Norte (64,8%) e Nordeste (69,3%) foram os maiores beneficiados em 2022. Na distribuição percentual dos benefícios de programas sociais governamentais (Benefício de Prestação Continuada, Bolsa Família/Auxílio Brasil e Outros Programas Sociais) o Programa Auxílio Brasil atingiu 60,3% de todos os benefícios. O impacto foi maior nos domicílios com menores rendimentos (até um quarto de salário mínimo).
O IBGE aponta que as transferências de renda geradas por tais benefícios “contribuíram positivamente” para redução da desigualdade no Amazonas e apoia seu argumento em dados do índice de Gini –que varia de 1 (extrema desigualdade) a 0 (extrema igualdade). “O coeficiente, entre 2022 e 2021, ficou em 0,509 (o mesmo da região Norte). Manaus, capital do Estado, ficou com índice de Gini de 0,495. No Norte e Nordeste, os programas sociais propiciaram as maiores reduções do país no índice de Gini, de 8,9% e 11,6%, respectivamente”, apontou.
O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, salienta que vários fatores influenciam a renda domiciliar per capita, como taxa de desemprego alta, salários baixos, “alta informalidade” e “grande número” de famílias atreladas a programas sociais de governo. “Mesmo assim, a pesquisa verificou que os programas sociais colaboraram com a desigualdade em 2022. Embora o Amazonas tenha melhorado o percentual da extrema pobreza em relação a 2021, ainda ocupa uma incômoda posição na comparação com outras unidades da federação”, concluiu.







