As instituições públicas brasileiras são responsáveis por grande parte da formação social e acadêmica de milhares de jovens brasileiros. Nos últimos anos, intensos movimentos e manifestações vieram a público como forma de chamar a atenção de governantes e reitores das universidades.
Entre as várias reinvindicações, temos o corte de bolsas e verbas, a ameaça de extinção dos restaurantes universitários, a falta de corpo docente, além das péssimas condições estruturais dos ambientes escolares. O Brasil inteiro voltou os olhos para a educação pública e esforços começaram a serem feitos para que essa realidade fosse mudada.
No Amazonas, não foi diferente. Uma forma de pedir mudanças dentro de uma universidade é o diálogo com representantes atuais e futuros. A beira de uma eleição de reitoria, a Universidade do Estado do Amazonas começou a participar de constante reuniões e discussões com os possíveis representantes, colocando em exposição os pontos positivos e negativos que circulam o ambiente.
Como parte do processo democrático, no último mês, a Universidade do Estado do Amazonas passou pelo momento da escolha dos novos reitores da instituição. Com 53,20% dos votos, os professores André Zogahib e Kátia Couceiro venceram o pleito e deverão representar a reitoria até o ano de 2026.
André Zogahib é egresso da primeira turma do curso de Administração da Universidade do Estado do Amazonas, além de ser membro-titular do corpo docente da instituição há 14 anos. Como gestor público, Zogahib ocupava até meados de fevereiro de 2022 o cargo de diretor-presidente da AmazonPrev, onde esteve nos últimos três anos.
Já Kátia Couceiro é graduada em Medicina há 25 anos, tendo como especialidade a Cardiologia. Atua como professora da UEA desde 2005 e possui o sonho de equiparar todos os setores da universidade, priorizando o trabalho em grupo. Um dos desafios que deseja cumprir, é a criação do hospital-escola, que até o momento, é inexistente dentro da instituição.
Nossos entrevistados de hoje são os recém-eleitos para o cargo de reitor e vice-reitora da Universidade do Estado do Amazonas, Prof. Doutor André Zogahib e Prof. Kátia Couceiro. Com muita experiência e conhecimento de território, os novos representantes da UEA mencionam o desejo e expectativa de assumir um cargo de extrema visibilidade, sendo responsável e tendo coragem de enfrentar novos desafios.
Nesta entrevista, teremos uma chance de enxergar a universidade pelos olhos de quem possui vontade e visão técnica de como alavancar a presença da UEA na sociedade amazonense.
André Zogahib
Após uma intensa campanha conhecendo as unidades da Universidade do Estado do Amazonas, como sua gestão pretende otimizar e ampliar os recursos disponibilizados à universidade visando melhorar ainda mais a qualidade do ensino superior oferecido pela instituição?
Nós temos um plano, nós temos uma estratégia, uma base de estudos em que nós pretendemos dialogar com as prefeituras para que nós tenhamos uma parcela de recursos dos municípios, assim como no interior e capital por meio do ISS ou alguma outra contrapartida que as prefeituras possam nos fornecer no sentido que a universidade contribua com o desenvolvimento do município.
Outras universidades do país possuem modelos e organizações de financiamento que priorizam a troca de serviços. A UEA já possui algum plano em andamento para também avançar nesse sentido?
Iremos trabalhar outras situações relativas à contribuição voluntária com a universidade, buscar financiamentos. A USP tem um modelo em que as empresas contribuem e essa contribuição voluntária faz um abatimento no imposto de renda. Então nós vamos também ter a possibilidade de fazer da forma que a USP faz, com um estudo econômico de maneira muito bem planejada para que nós consigamos investir esses recursos dentro da universidade da melhor forma possível.
“vamos trabalhar de forma incansável”
No último ano, a UEA obteve um orçamento de R$ R$683 milhões para gerir unidades na capital e nos diversos municípios no interior. Como sua gestão pretende administrar os recursos existentes? Como pretende equilibrar a estrutura física das sedes e valorizar o corpo docente que atua na instituição?
Os PCCRs (Plano de Cargos Carreiras e Remuneração) têm valores atrasados, temos a questão dos retroativos que precisam ser pagos, bem como nossa reposição salarial; de igual modo, temos que começar a organizar a questão do pagamento das bolsas para que elas saiam no prazo. É uma série de situações que iremos ter que analisar e priorizar.
Durante sua campanha, ficou bem evidente seu desejo de interiorizar ainda mais a universidade estadual. Apostando no talento dos alunos, no uso de novas tecnologias que permitam o aprimoramento, além da formação de novas parcerias, você acredita que a UEA estará cada vez mais próxima e atuante na sociedade?
Nós vamos trabalhar de forma incansável, incessante, para que nós cumpramos nosso plano de gestão à risca. Nós queremos cumprir com todos os pontos que foram levantados durante nossos estudos para que no final dos quatro anos, nós consigamos entregar à sociedade uma UEA melhor. Então podem esperar que nós vamos arregaçar as mangas e vamos trabalhar muito.
Kátia Couceiro
Qual sua prioridade ao assumir o cargo de vice-reitora?
A nossa prioridade será justamente o que nós comentamos durante a campanha. Primeiro, precisa ser feito um estudo mais detalhado das principais prioridades. A Universidade do Estado do Amazonas é um universo, e nós vimos que infelizmente há muitos problemas, não só na capital, mas também no interior.
Então, realmente, teremos que priorizar aquelas situações mais precárias; como exemplo bem básico, posso citar o não oferecimento de cursos, a falta de estrutura para dar continuidade aos projetos. Precisamos dar prioridade aos casos mais urgentes.
A senhora já havia participado de alguma forma da direção da instituição? Como surgiu a oportunidade de concorrer à eleição?
Na verdade, não. Eu sou médica há 25 anos, sou cardiologista, dou aula de Cardiologia na Escola de Saúde da UEA desde 2005, e é claro que nós temos um amor, de vestir essa camisa da universidade sempre, mas estava na minha zona de conforto.
Eu acredito que assim, apesar de não ter sido planejado nada, ter conhecido o Professor André, visto o potencial dele em gestão nesse processo, como ele é preparado para gestão pública, e hoje nós vemos que a UEA precisa de um gestor, de uma gestão profissional, isso me animou bastante.
Eu percebo que o Professor André se cercou de vários bons profissionais, isso deu mais força para a gente. Eu acreditei e pensei: “bom, talvez seja a hora de dar a minha parcela de contribuição’’.
Uma proposta muito positiva para o público é a participação feminina numa chapa. Como a senhora vê e percebe essa participação da mulher dentro da universidade?
Foi uma aceitação fantástica, eu até fiquei bem impressionada com isso, eu acredito muito nessa sensibilidade feminina de enxergar, de ter esse olhar mais sensível para determinadas situações e eu vi também que a liberdade possibilita outras pessoas de chegarem, falarem, conversarem. Tínhamos esse slogan de “gestão, participação e respeito”, e o respeito é o que todo mundo quer, principalmente a mulher que quer ocupar seu lugar.
“Daqui há quatro anos, eu quero ver uma UEA estruturada”
Qual sua expectativa ao ocupar o cargo e como pretende enxergar a UEA daqui há quatro anos?
Estou super confiante. Acredito que junto com o Professor André, possamos fazer uma grande diferença. Tivemos a oportunidade de conhecer alguns polos, alguns centros da universidade e é triste falar que tem alguns que estão em situações precárias.
Isso afeta muito a mim, minha família é do interior do Amazonas, de Boca do Acre, e eu tenho um carinho muito grande, eu tenho um respeito pelo povo do interior, porque eles batalham muito e grande parte de seus filhos do interior estão fazendo carreiras e não devem nada a ninguém. Temos que investir dessa maneira no interior.
Daqui há quatro anos, eu quero ver uma UEA estruturada, quero ver o aluno contente, com orgulho de estudar nessa universidade, gostaria que todo mundo de manhã levantasse e fosse para a aula com prazer, é isso que falta. Durante a campanha vi vários questionamentos de alunos dizendo que não tem mais orgulho de estudar na instituição, é tão difícil passar no vestibular, estudar aqui e desistir. É muito difícil ouvir essa frase. Não quero nunca mais escutar isso.















