Desde o início da pandemia, inúmeros são os desafios enfrentados pelo poder público para controlar todos os setores da sociedade. Desde saúde à educação, os profissionais que compõem estes grupos são testados diariamente para cumprimento de suas missões em cargos estratégicos, mesmo com as adversidades vindas com o novo coronavírus e suas variantes.
À frente da Secretária de Saúde do Amazonas desde o final de junho de 2021, o médico urologista Anoar Samad é o ‘homem de confiança’ do governador Wilson Lima dada à sua competência e referência na área da saúde. Desde que assumiu, suas convicções têm sido preponderantes em importantes ações em benefício da população amazonense.
Sendo nosso entrevistado de hoje, Dr. Samad nos revela seus principais desafios ao longo dos últimos meses na Administração Pública Estadual, bem como sua visão do posicionamento do Amazonas durante o enfrentamento da pandemia.
O senhor é o responsável por um instituto, referência em Manaus, que leva seu nome, como ele está diante de sua dedicação à Administração Pública?
Eu havia sido funcionário público por muitos anos. Trabalhei na FCecon (Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas), como professor na UEA (Universidade do Estado do Amazonas) e na Ufam (Universidade Federal do Amazonas). Sobre a atuação na área privada, é quando você acaba por montar um consultório, uma clínica e por aí vai, assim eu fiz.
Quando recebi o convite, já sabia que teria que diminuir meus atendimentos clínicos particulares. Precisei escolher horários alternativos e então, atender à noite. Mas, acredito que a vida nos mostra muitos desafios e desde que você os aceita, você tem que cumpri-los da melhor forma possível. É isso que estou tentando fazer.
O que foi preponderante para sua decisão de trocar os consultórios médicos pela gestão da pasta da saúde do Amazonas?
As pessoas dizem: “Você não precisa disso’’. O que acontece é que no momento em que você é chamado pelo govenador do seu Estado, ele representa os anseios da população local, que em determinada conversa me disse que precisava de alguém com o meu perfil para ajudar a população.
Neste momento, conversamos duas ou três vezes e terminei aceitando o desafio, já possui oito meses. Eu gosto do que estou fazendo e de poder ajudar.
Quais tem sido os principais gargalos da saúde pública do Amazonas? O que tem sido feito para superá-los?
Nós temos gargalos históricos no Amazonas, desde que eu ainda era estudante de medicina. Quando estava na faculdade, já se falava de UTI no interior, em descentralização da saúde, regionalização da saúde, e trinta anos depois, sou eu que faço as UTI’s no interior, como em Parintins, por exemplo.
Os desafios principais da saúde hoje seriam as filas de cirurgia, primeiramente. Você vê o que está acontecendo, se o governador diz que você é capaz, é só pedir para Deus dar uma luz.
“A pandemia não acabou, nós só vencemos uma fase dela”
Como tem sido o enfrentamento da pandemia em sua gestão?
Desde que entrei, já tínhamos o problema da pandemia, então em julho do ano passado, começamos os mutirões de vacinação com 25 ações entre interior e capital. Com a estrutura montada na Arena da Amazônia, vacinamos cerca de 140 mil pessoas num final de semana. A partir dos mutirões, em conversa com o governador, nós vimos que essa estratégia de aguardar a população para se vacinar estava começando a diminuir por uma série de fatores, então, decidimos levar a vacina para mais perto da população.
Começamos a vacinação em shoppings, Vacina Premiada e Carreta da Vacinação, que tem sido muito bem aceita pela população, agora temos a vacinação nas escolas. Enfim, creio que esses números alcançados aqui no Amazonas foram um trabalho muito grande de toda a equipe da saúde em parceria com todas as prefeituras do estado.
Veio a alça epidêmica, algo que nos preocupou bastante, mas os movimentos que foram feitos lá em dezembro e janeiro, consecutivamente, deram esse cenário que nós temos hoje. Quer dizer, muitos estados do Brasil estão com o número de casos elevados, com internações em UTI, e aqui, caíram os casos de internação em UTI por Covid-19.
O segundo desafio é a fila de consultas e cirurgias. Com ondas na pandemia, tudo ficou parado. Em meio ao ‘lockdown’, as cirurgias foram suspensas, mas as outras doenças não pararam de ser demandadas. Não foi porque deram um tempo pela Covid-19 que as outras doenças foram se acumulando. As pessoas precisam de consultas e exames.
Já zeramos várias especialidades na fila na regulação e outras estamos prestes a zerar. Creio que esse foi um desafio muito grande, de reduzir ao máximo e em menor tempo possível as filas de qualquer coisa. Então, a pessoa precisa fazer um exame e se tiver tudo certo, no máximo, em trinta dias ela consegue o procedimento.
Além de terminar com as filas, fizemos o ‘Opera Mais’ com as cirurgias eletivas. Não é mutirão. Isso vai ficar de legado. Também fizemos o ‘Examina Mais’, com mais de 157 mil exames disponíveis por mês na rede pública de saúde. São essas atividades que lutamos para reduzir o tempo de espera, isso foi fundamental.
Qual sua expectativa em relação à pandemia?
Quando teve a primeira onda, em março de 2020, ninguém conhecia nada de Covid-19. Foi uma luta muito grande de todos os profissionais da saúde, de todos os pesquisadores e cientistas, para tentar achar uma saída.
A vacina veio surgir com a primeira dose, em dezembro de 2020, na Inglaterra e o Brasil foi atacado por uma variante chamada P1, muito agressiva e que violava os pulmões e os rins. O que lembramos de Covid-19 são as pessoas chegando sufocadas nos atendimentos, com um índice de óbitos muito grande pela agressividade do vírus.
Tivemos depois a variante Delta e com o avanço da vacinação tão rápida no Amazonas, sobretudo com a estratégia dos mutirões, fez com que houvesse uma reduzida muito grande nessa questão. E a variante Ômicron, pela sua transmissibilidade alta, não tem uma predileção tão forte pelos pulmões como tem a P1, a Delta e o coronavírus original. A Ômicron veio com um número de casos muito grande, nós preparamos a rede pública, fizemos alguns movimentos como impedir shows, eventos grandes e isso é o resultado desse cenário agora.
Hoje nossa realidade é essa. Já estivemos no primeiro lugar entre os estados afetados e, atualmente, estamos em penúltimo, estamos em penúltimo em taxa de transmissão. Nós diminuímos esse percentual e com isso conseguimos avançar com o retorno às aulas. O problema é sempre a taxa de transmissão, se perder o controle dessa taxa, o número de casos aumenta muito rápido e não tem leito para todo mundo.
O que marcará sua passagem pela Administração Pública?
Eu não tenho muita essa questão de ser lembrado ou deixar marca. Eu quero é que a saúde da população melhore, que a população sinta que a sua assistência à saúde pública melhorou, isso é o importante. Não adianta eu dizer aqui que fiz tanto investimento nisso ou aquilo, se a população não tiver o mesmo sentimento.
Quais tem sido os principais avanços da gestão Wilson Lima na área da saúde?
O governador Wilson Lima enfrentou duas ondas graves, com um vírus totalmente desconhecido, sendo uma das variantes extremamente agressiva. Isso foi um desafio muito grande na saúde pública.
Além do enfrentamento às duas alças epidêmicas, esta gestão também enfrentou a maior enchente da história do Amazonas e não foi fácil. Você trava uma guerra com um desconhecido. Enfrentar tudo isso e conseguir prestar assistência à população é avançar em direção ao bem comum.















