Ao mestre, com carinho

Em: 19 de agosto de 2016
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Hoje, sexta-feira (19) é o Dia Mundial da Fotografia. Em 19 de agosto de 1839 o francês Louis Daguerre apresentou formalmente na Academia Francesa de Ciências o daguerrótipo, bisavô das máquinas fotográficas, ao mundo. Por causa de sua invenção as pessoas puderam eternizar momentos passados em milésimos de segundos, e o mundo nunca mais foi o mesmo. Nada mais justo que, em função da data, homenagear o fotógrafo há mais tempo em atividade no Amazonas, o venezuelano Carlos Navarro, que este ano está completando 50 anos de profissionalismo, com os olhos atentos, atrás do visor de uma câmera fotográfica.
A história de Navarro com a fotografia começou nos turbulentos anos de 1960. “Em 1964 eu tinha 17 anos e pertencia a um movimento guerrilheiro com ideologia comunista que lutava pela queda dos presidentes ditadores venezuelanos, Juan Vicente Gómez e Marcos Pérez Jiménez. Um dia o jornalista de uma revista de circulação nacional venezuelana foi fazer uma matéria conosco, na floresta onde nos escondíamos, e minha foto saiu estampada na revista. Depois eu vi essa foto. Começou ali minha relação com a fotografia”, recordou.
No ano seguinte Navarro foi preso e ficou um ano nas prisões do país vizinho até ser, devido a menoridade, deportado para a Espanha, em 1966. “Cheguei a Barcelona com 21 anos. Minha intenção era ficar uns dois anos na Europa e depois retornar, mas fui ficando… ficando. Como não sabia fazer nada, li no jornal sobre um curso de fotografia e resolvi fazê-lo. Por causa desse curso consegui meu primeiro emprego, num laboratório fotográfico”, contou.

Restaurador de memórias

Mas o destino de Navarro com Manaus estava selado. “Em 1973 o empresário uruguaio Nuno Caplan, que foi proprietário da famosa empresa Sonora, estava em Barcelona e colocou um anúncio num jornal procurando uma pessoa capaz de montar um laboratório fotográfico em sua empresa. Naquela época as fotografias tiradas em Manaus eram reveladas em São Paulo e levavam cerca de 30 dias entre envio e retorno do material. Caplan queria revelá-las aqui. Seis meses depois eu estava em Manaus montando o laboratório para ele”, lembrou.
E quem lembra das máquinas Love, as maquininhas de plástico, que cabiam na mão e eram reutilizáveis? A pessoa tirava as fotos, entregava a máquina no laboratório e já recebia uma máquina nova para tirar outras fotos. E o processo se repetia infinitamente. Uma mina de ouro para Caplan. “A fábrica dessas máquinas estava falida nos Estados Unidos, mas Caplan a comprou por US$ 500 mil. Entre 1979 e 1980 ele instalou a fábrica em Manaus, e eu estava lá. Durante anos a Love foi um sucesso não só em Manaus, mas em todo o Brasil, onde a Sonora montou representações”, disse.
Em 1982 Navarro saiu da Sonora e, já há quase dez anos no Brasil, casado e com filhos, resolveu iniciar sua vida como fotógrafo profissional. “Segui por três caminhos distintos: primeiro comecei a promover cursos de fotografia, depois passei para a cobertura de eventos e, em seguida, em minha casa, abri um laboratório para realizar grandes ampliações. É no que tenho trabalhado nesses anos todos”, explicou.
Navarro se considera um restaurador de memórias. “Acho que esse é o papel do fotógrafo, tanto amador quanto profissional: registrar um momento que irá ficar para a eternidade”. E ele não tem um tema específico que goste de fotografar. “Não tenho nenhum, mas trabalho o conceito memória. Sempre que fotografo alguma coisa, imagino o quanto será importante que aquela imagem fique perpetuada eternamente, ou pelo máximo de tempo possível”, esclareceu.

Passar dos 100, fotografando

Nesses 50 anos de fotografia, Navarro perdeu-se entre as tantas imagens que já fez. Milhares. “Nunca me preocupei em contar quantas clicava. Minha preocupação era clicar”. Da mesma forma o mestre não tem ideia de quantos profissionais formou.
“Só sei que muitos se tornaram excelentes fotógrafos. Boa parte está no fotojornalismo, outros estão aí, realizando seus trabalhos ou fotografando apenas como hobby”, comentou.
E Navarro nem pensa em parar. “Quero passar dos 100 anos com minha máquina pendurada no pescoço”, riu. O fotógrafo executa projetos atrás de projetos. Atualmente estão em execução o “Pé de Moleque”, com fotos que ele fez principalmente em áreas de várzea, no Nordeste e no Amazonas, mostrando crianças jogando futebol. Ele tem mais de 200 imagens sobre o tema. Exposição homônima com algumas dessas fotos pode ser visitada até novembro na Galeria Itinerante Manoel Borges, no Largo de São Sebastião. “Ainda tenho outros projetos em desenvolvimento sobre o patrimônio histórico de Manaus, pesca, ecossistema, decadência urbana, los niños del rio Amazonas, mas um que estou dando atenção especial é o do grupo que estou formando só com fotógrafas, amadoras e profissionais. Existem poucas mulheres fotógrafas, em Manaus. Quero mudar isso. A participação no grupo é gratuita. Lá nós iremos conversar, debater assuntos e repassar conhecimento. É só nos procurar no Icbeu”, disse.
Como se vê, 50 anos foram poucos para o tanto que Navarro ainda pretende ensinar.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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