O crescimento recente da cafeicultura no Sul do Amazonas ganhou escala, método e identidade própria. O avanço da atividade, que reposiciona Apuí no mapa produtivo do Estado, recebe uma importante contribuição a partir da atuação da Amazônia Agroflorestal, empresa responsável pela produção, certificação, compra garantida e comercialização em mercados nacionais.
Essa estruturação da cadeia de valor ganhou marca com a criação do Café Apuí Agroflorestal, reconhecido como o primeiro café agroflorestal sustentável da Amazônia brasileira, produzido integralmente em sistemas que combinam café, floresta em pé e agricultura familiar. A iniciativa trouxe valor e diferencial para o produto oriundo de sistemas agroflorestais familiares.
“O Café Apuí Agroflorestal conseguiu reposicionar a economia de Apuí ao demonstrar, na prática, que é possível gerar renda elevada para a agricultura familiar mantendo a floresta em pé. Esperamos posicionar o município cada vez mais como exemplo de produção sustentável, deixando para trás a posição de destaque no desmatamento e assumindo a referência em produção agroflorestal”, afirmou a diretora executiva da Amazônia Agroflorestal, Sarah Sampaio.
Mas para chegar à viabilidade produtiva do café no Amazonas foi preciso um longo tempo de aprendizado, experimentação e pesquisa. A partir da constatação técnica de que espécies nativas de rápido crescimento criavam um microclima ideal para o café, combinando sombra, umidade e estabilidade térmica, nasceu em 2015 o Café Apuí Agroflorestal, estruturado sobre Sistemas Agroflorestais (SAFs) que integram café, culturas alimentares e espécies florestais. Além do café, os produtores passaram a colher mandioca, arroz, cacau, buriti, hortaliças e frutas, reduzindo a insegurança alimentar e ampliando as fontes de renda.
Atualmente, 134 famílias integram diretamente a iniciativa. De acordo com Sarah Sampaio, o modelo vem reposicionando a economia local ao oferecer uma alternativa real à pecuária extensiva. “Em um hectare de sistema agroflorestal, o produtor diversifica sua produção, garantindo segurança alimentar e renda com alimentos como hortaliças, melancia e abacaxi, além do café, cuja compra é garantida”, explicou. Há casos em que produtores alcançaram cerca de R$ 100 mil em vendas de alimentos já no primeiro ano de implantação do SAF, tornando o sistema até dez vezes mais rentável por hectare do que a pecuária extensiva.
A Amazônia Agroflorestal se posiciona como a responsável por organizar toda a cadeia do Café Apuí Agroflorestal, desde a implantação dos sistemas agroflorestais até a venda do produto final. Para a empresa, trata-se do primeiro café 100% robusta orgânico cultivado em agrofloresta na Amazônia brasileira, com plantio sombreado em meio a espécies nativas, o que garante microclima favorável, mais qualidade sensorial e maior resiliência produtiva. Além do “terroir” amazônico singular, o modelo se consolida como alternativa concreta para manter a floresta em pé, recuperar áreas degradadas e gerar renda no campo.

Organização empresarial
Com a expansão do projeto e o aumento da produção, surgiu a necessidade de garantir estabilidade econômica aos agricultores. Em 2019, foi criada a Amazônia Agroflorestal, com a missão de assegurar a compra de 100% do café produzido pela agricultura familiar no município, buscando oferecer preços justos, acima do valor de mercado, com prêmios adicionais por qualidade, produção orgânica e manejo agroflorestal. A empresa também passou a ser responsável pela distribuição e comercialização do café em todo o Brasil, mantendo a agregação de valor no território. Todo o café sai de Apuí já beneficiado, torrado e embalado, gerando empregos locais.
Os impactos vão além da renda. Segundo Sarah, o modelo agroflorestal gerou transformações profundas na vida dos produtores, especialmente na organização comunitária e no acesso a mercados diferenciados. A assistência técnica contínua e a atuação em rede permitiram que produtores de Apuí alcançassem reconhecimento nacional: em 2025, quatro agricultores ficaram entre os 30 melhores cafés do Brasil no Coffee of the Year. “Estamos identificando que o café agroflorestal de Apuí tem qualidades únicas de sabor e aroma que esperamos, em breve, comprovar cientificamente”, destacou.
A Amazônia Agroflorestal também aposta no Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) como instrumento de valorização da floresta em pé. A empresa pretende regenerar 300 hectares com espécies nativas e café conilon e, até 2026, evitar o desmatamento de mais de 13 mil hectares de floresta, por meio de projetos de PSA e créditos de carbono voltados à agricultura familiar. O modelo combina investimentos a fundo perdido e capital privado, sempre com apoio técnico do Idesam, parceiro desde a origem da iniciativa.
Para a diretora executiva, a experiência do Café Apuí Agroflorestal demonstra que o desenvolvimento sustentável na Amazônia depende da valorização das pessoas do território e da construção de parcerias sólidas. “É possível gerar benefícios para todos os elos da cadeia — produtores, municípios, empresas, consumidores e a floresta — quando se alia qualidade, inovação e justiça social”, afirmou. A expansão das áreas de café agroflorestal e a expectativa de triplicar a produção até 2027 reforçam a consolidação de um modelo que une agricultura familiar, bioeconomia e conservação ambiental no Sul do Amazonas.







