Arte e superação

Em: 25 de agosto de 2016
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No final do ano passado a professora de ensino infantil, Rejane Melo, viu sua vida mudar por completo. Ela teve um deslocamento de retina, por isso ficou sem a visão de um dos olhos e acabou perdendo o emprego que tanto adorava. Nesse período, entrou em pânico e pensou que não conseguiria se reinventar, mas fez a cirurgia, se recuperou e passou a ver a vida com outros olhos. “Fiquei em depressão e desesperada, porque pensava: Como é que eu, com 50 anos, em plena crise vou arrumar emprego e manter a casa? De repente apareceu a artista plástica Luciana Severo e mostrou esse trabalho fantástico de pintura com as crianças”, relembra. Um mês depois, ela reformou a sala de casa para transformar em um novo espaço, o Ateliêré brincando e criando. O cenário composto de muitas cores, músicas, brinquedos, quadros pintados e telas em branco recebe nos finais de semana, 32 alunos entre 5 e 13 anos para desenhar seus sentimentos. “Em pouco tempo ressurgir, mudei a minha vida totalmente e a arte me ajudou nisso. Estou feliz com o retorno e as descobertas que fiz sobre mim mesma”, afirma Rejane.
Criado há seis meses, a proposta do ateliê é tirar as crianças que vivem conectadas em jogos eletrônicos de celulares e outros aparelhos e criar uma alternativa diferente de entretenimento por meio da arte, segundo a professora. Ela explica que, usa a pesquisa para estudar artistas locais e internacionais, além da visitação em espaços culturais para ajudar a desenvolver o trabalho com os pequenos. “No primeiro momento, eles são inseridos no conceito da Pop Art e conhecem alguns artistas, também visitam museus para o resgate da nossa cultura, que é pouco valorizada. Mas são deixados à vontade para que desenvolvam e mostrem suas pinturas, para então trabalharmos cada um em sua linha de destaque”, conta.
Rejane diz que os temas são livres, mas a maioria dos alunos preferem fazer uma nova roupagem de quadros de artistas plásticos consagrados como Romero Britto e Luciana Severo. Mas também já há quem construa as próprias pinturas. “Tenho duas alunas que possuem sua própria identidade visual e adoram pintar paisagens e animais. Nesses casos, aos poucos vou tirando o Pop Art e aplicando mais o regional, porque acredito que ali é a praia delas. Mas todas são crianças extremamente criativas com traços perfeitos que só precisa ser investido e trabalhado, porque já tem o dom de saber as combinações de cores, pega perfeitamente o pincel, sabendo trabalhar as nuances e formatos”, observa a professora.
Rejane, aproveitou o que já sabia com a experiência de 25 anos como professora infantil e foi se adequando ao novo universo dos pincéis e tintas. “Por não saber todas as técnicas, pesquisei muito e o que já sabia fui aperfeiçoando diariamente. Procuro fazer cursos e sempre estou investindo para repassar novos conhecimentos às crianças”, disse.
No Ateliêré, os pequenos são ensinados passo a passo, que incluem a lixar e preparar a tela para pegar a tinta, além de fazer o desenho e inserir a pintura. As telas usadas são compradas, mas recentemente a professora inseriu pedaços de compensado e pellets para incentivar a sustentabilidade. “São matérias que iam para o lixo e acabam se transformando em peças fantásticas”, pontua.
Em julho, os quadros pintados pelas crianças fizeram parte de uma exposição em uma galeria de artes no Vieiralves. A próxima mostra será no mês de outubro, onde mais de cem quadros farão parte do projeto FUÁ (Feira Urbana de Alternativas) “Fomos convidados a participar e estamos na expectativa de mostrar a criatividade desses pequenos artistas”, garante Rejane.
Em paralelo a ensinar, Rejane também descobriu o gosto pela pintura. Recentemente, ela esteve em Brasília e foi convidada para expor as suas telas na Noruega. “Comecei a pintar e adoro paisagem e cores, devido ao trabalho que desenvolvo com as crianças. Me descobri artista e agora viajo no mundo das artes em busca do meu estilo. Estou em um momento muito feliz e mostro isso nas minhas pinturas”. Mas para quem quiser conferir em terra manauara, o trabalho dessa nova artista, basta ir neste final de semana na exposição do FUÁ.

Benefícios em estimular a criatividade

Dentre as vantagens que a pintura traz para o desenvolvimento de uma criança, uma das mais importantes são estimular a criatividade e a sensibilidade. É fundamental observar atentamente os rabiscos dos filhos, orienta Rejane. “Toda criança começa a mostrar os sentimentos dela através da pintura, tem umas que desenham com tons mais escuros e talvez mostre que ela pode estar com problemas pessoais. Muitas vezes são situações despercebidas, mas que são mostradas nas telas. Tenho feito descobertas em cima das pinturas e junto com os pais, vamos trabalhando para identificar o que está acontecendo”, explica.
A mãe da pequena Marcela de 2 anos e meio, Márcia Cristina Thomaz, diz que a filha teve uma mudança positiva nos últimos seis meses, período que faz aulas de arte no Ateliêré. Ela conta que Marcela sempre foi ativa e com dificuldade de concentração. “Observei que ela desenvolveu a parte da imaginação e a pintura ajudou a se concentrar mais. Além da mudança psicológica, porque ela tem alegria quando pinta e isso reflete em tudo, teve a melhora na coordenação motora, ela já segura firme os lápis e pincéis”, comemora.
Uma das alunas, a estudante Gabrielle Souza de 13 anos fala que gosta de pintar desenhos clássicos infantis, como o Pequeno Príncipe e a Minnie. Ao total, tem seis telas prontas, que também farão parte da exposição em outubro. “Estou um pouco nervosa, mas feliz. Considero as minhas telas bonitas e não consigo definir da qual gosto mais”, disse. Além da pintura, ela faz teatro e quando crescer, quer ser arquiteta.

Movimento inspirado na Cultura Pop

A Pop Art foi um movimento inspirado na cultura de massa, ou seja, popular, essa vertente transformava temas do cotidiano em obras, refletindo de maneira criativa e ácida os traços e contornos da sociedade de consumo. Uma das principais características da pop arte era a crítica irônica que fazia a sociedade, por meio dos objetos de consumo. Temas da publicidade, quadrinhos, ilustrações entre outros, eram constantemente utilizados como inspiração para compor sua trajetória no mundo das artes.Impossível falar de pop arte sem citar Andy Warhol, com uma visão irônica e ácida do mundo, ele costumava fazer serigrafias e retratos seriados sobre telas de mitos como Marilyn Monroe, Pelé, Elizabeth Taylor, Jacqueline Kennedy e Elvis Presley. O que possibilitou que ele mostrasse sua concepção da produção mecânica da imagem em substituição ao trabalho manual. Além de Andy Warhol, outros artistas como Robert Rauschenberg, Roy Lichtenstein, Andy, Cleas Oldenburg, Georges Segal, também ajudaram a construir a história da Pop Arte. No Brasil Romero Britto é considerado um ícone da cultura pop, tem criado obras-primas que invocam o espírito de esperança e transmite uma sensação de aconchego, colecionadores e admiradores a chamam de “arte da cura”.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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