
Evaldo Ferreira: @evaldo.am
Um artesão no meio da floresta, e produzindo com muita matéria-prima retirada de forma sustentável das matas à sua volta. Esse é o pernambucano Gilvan Cordeiro Leite, que há dez anos mora numa área isolada do ramal Andiroba, no município de Manaquiri, onde não para de produzir de simples objetos utilitários a móveis sofisticados.
“Sempre tive facilidade para criar e produzir objetos. Quando criança, em Pernambuco, meu pai não tinha condições de comprar brinquedos para mim, então eu mesmo os fazia, de latas de óleo. Adolescente, comecei a criar artesanatos em madeira, caixinhas, porta-chaves, e vendia tudo. Foi aí que comecei com os móveis, estantes de bambu, que causavam admiração em todo mundo”, lembrou.
Adulto, em Manaus, Gilvan se formou em teologia e foi pastorear em Manacapuru, Rio Preto da Eva, Itacoatiara, Senhor do Bonfim, na Bahia, Rondônia, Acre, até voltar para Manaus, 16 anos depois.
“Eu queria promover cursos de artesanato para os membros da Igreja, mas os líderes não permitiam. O máximo que fiz foram aquelas tendas brancas, tamanho 26m x 14m, com capacidade para até 500 pessoas, que eram montadas em terrenos da Igreja. Cheguei a fazer 15 delas. Saí da Igreja e para me manter tive que fazer o que sabia desde criança: artesanatos”, contou.
Mas o que se usava em Manaus era o cipó titica, com o qual Gilvan nunca tinha trabalhado, foi então ele que conheceu um artesão de nome Mota e este lhe ensinou o ofício.
Artesão e inventor
“Aí foi graça. Em 2007 comecei com meu primeiro ateliê, no Coroado, depois mudei para outro, perto do Hemoam, em seguida fui pro Alvorada, mais um na Major Gabriel e o último ateliê, no São Jorge. Nessa época conheci uma pessoa que estava vendendo esse terreno, no Manaquiri. Como eu sempre quis trabalhar com plantação, comprei. Em 2011 me mudei para cá e estou aqui, desde então”, revelou.


“Quando cheguei ao terreno, no ramal do Andiroba, não tinha ninguém, só uns índios lá pro final. Não era asfaltado e eu ia pra cidade de moto, ou de carona, quando passava alguém. Até hoje é assim”, disse.
A casa humilde de Gilvan fica literalmente isolada no meio do ramal do Andiroba, com muita mata nativa em volta. Alguns veículos bem antigos, na frente da casa, formam uma coleção particular do artesão. Na parte de trás está a oficina com todo o maquinário necessário para o seu trabalho. Ele até quis iniciar com a plantação, mas logo percebeu que os ganhos com artesanato eram mais rápidos, então criou a empresa Arte & Fatos.
“Hoje eu não uso mais o cipó titica nas minhas peças. Utilizo a fibra sintética, que é muito melhor, pois possui várias cores e demora muito mais para se destruir. O cipó titica a gente tinha que pintar e tem menos durabilidade”, informou.
Com uma engenhosidade natural, Gilvan utiliza algumas fibras naturais que ele próprio produz por meio de uma máquina desenvolvida por ele, e não gosta muito de falar sobre esse segredo industrial.
“Eu coloco na máquina as varetas de algumas madeiras e elas são transformadas em fibras de vários metros, dependendo do tamanho da vareta. Essas madeiras foram testadas por mim até descobrir qual produzia a fibra mais maleável e fácil de trabalhar, e são encontradas aqui nas matas”, contou.
Tenda escola


Da oficina da Arte & Fatos saem de pequenos artesanatos a belos móveis. São caixas porta objetos, cestas, baús, cadeiras de balanço, mesas de centro, mesas e cadeiras e o que a imaginação permitir.
“O artesanato menor é o que me sustenta, pois vende rapidamente, no Dia dos Namorados e Dia das Mães, principalmente, já os móveis são solicitados sob encomenda. Pode me mandar a foto do móvel que desejar, que eu faço igual”, garantiu.
Além das fibras sintéticas e das fibras que ele próprio produz, Gilvan também utiliza muita madeira, ferro e alumínio nos seus trabalhos.
“Eu não derrubo nenhuma árvore. Pego a madeira de árvores mortas ou que estão caídas na floresta, ou ainda de aparas. Os madeireiros cortam uma árvore, tiram fora as aparas ficando só com a parte central da árvore, mas as aparas me são muito úteis”, revelou.
Ainda avesso às redes sociais, o quase eremita Gilvan diz amar o local isolado onde vive e do qual tira inspiração para suas peças. Quem quiser conhecer um pouco do seu trabalho, seu Face e Instagram são Gilvan Cordeiro Leite, onde publica alguns dos seus artesanatos e móveis. Seu maior sonho, agora, é voltar a fabricar as tendas brancas para, sob elas, ensinar a sua arte.
“Sou só fazendo esse trabalho. Quero formar alunos para deixar o que sei como legado para o mundo. Pretendo construir uma tenda escola itinerante e viajar pelos municípios do Amazonas ensinando as minhas habilidades”, concluiu.
Quem quiser saber mais sobre os projetos de Gilvan pode passar um WhatsApp para ele: 9 9911-3209. O telefone convencional não funciona onde ele mora.






