ARTIGO: A nota escolar revela o desempenho dos alunos? (Parte 3)

Em: 10 de maio de 2013
O homem moderno passou a atribuir um valor quase que divino as coisas por ele consumidas
O homem moderno passou a atribuir um valor quase que divino as coisas por ele consumidas

Hoje, mais do que em outros tempos, vivemos num momento histórico no qual “novos fetiches” passam a fazer parte de nosso dia a dia. Um fetiche que nos tem causado grandiosa preocupação devido aos efeitos extremamente nocivos aos seres humanos é o fetiche da “nota escolar” como indicadora da qualidade da educação escolar…, os gestores educacionais acreditam (e querem nos fazer acreditar) que a nota escolar (algo extremamente abstrato) revela o desempenho dos alunos (algo que deveria ser concreto).
O que é fetiche? O termo fetiche significa “objeto animado ou inanimado, feito pelo homem ou produzido pela natureza, ao qual se atribui poder sobrenatural e se presta culto” (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)…, parece-nos ser este o significado conferido ao fenômeno da atribuição de valor simbólico aos produtos que Karl H. Marx (1818* 1883†) observou ao estudar a totalidade de nuômenos sociais relacionados às relações de produção e as forças produtivas.
Karl H. Marx observou que no capitalismo qualquer mercadoria quando finalizada possui a capacidade de esconder a exploração do trabalho alienado, bem como a obtenção do lucro por parte do capitalista. O valor de troca é uma relação quantitativa de troca de mercadorias cujos valores de usos diferentes abstraem o valor de troca…, abstração essa que ocasiona uma camuflagem no modo operacional das relações de produção, pois se vê menos a complexidade do que a simplificação do processo de produção e de consumo das mercadorias.
Karl H. Marx usou a parábola de Moisés e, principalmente, a denominação atribuída ao “bezerro de ouro” para exemplificar como o homem moderno estava tratando as mercadorias (sapatos, bolsas, etc.), estas, que com o tempo passaram a constituir-se uma espécie de hedonismo (compulsivo). O homem moderno passou a atribuir um valor quase que divino as coisas por ele consumidas, fazendo-o comprar não pelo valor real das coisas, mas sim pela transcendência que determinada mercadoria representa.
O nuômeno do fetichismo não foi suficientemente esgotado por Karl H. Marx. outros filósofos e sociólogos como Max Horkheimer, Theodor Adorno, Walter Benjamin, Bernard Stiegler, Gilles Lipovetsky, Antonio Negri, Alain Badio etc. se ocuparam com este assunto, criando uma tradição analítica do fenômeno da fetichização, como esta se dá objetivamente e subjetivamente no ser humano e, principalmente, propondo encaminhamentos ontocríticos para a resolução desta problemática.
Adorno e Horkheimer de uma maneira pouco diferente de Karl H. Marx, ampliaram a concepção do fetichismo e da reificação; para eles tais fenômenos dependeriam menos do capitalismo e mais do fato da “dialética da razão”, ou seja, caminharam no sentido de secundarizar as figuras da razão ligadas a Eros e Cronos, privilegiando Logos. O império da razão instrumental é que faz com que tudo que é abstrato e, portanto, morto, viesse a contar como vivo, com o que é o que está vigente.
Uma calça, que é um objeto (morto) que é sempre possível de ser cortada para que sirva para nós (os vivos), fantasticamente cria vida e nos comanda, exigindo que cortemos o nosso corpo (por ginástica, dieta ou operação) para que nós possamos servir a ela. O morto comanda o vivo porque o morto, a calça, é o que é comum, genérico, abstrato – e tudo que é abstrato começa a mandar em tudo que é concreto em uma época em que o pensamento abstrato, próprio do Logos, se torna imperativo.
Somos motivados por um fetiche extremamente perigoso quando acreditamos (ou somos induzidos a acreditar) que a “nota escolar” traduz a formação de atitudes e valores produtores de sustentabilidade para a existência dos seres vivos, ou o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social etc…, a “nota escolar” não possui a capacidade e nem a qualidade de traduzir nada que o homem possa fazer de bom ou de ruim.
Quando acreditamos (ou somos induzidos a acreditar) que a “nota escolar” de uma escola no Enem reflete a qualidade da educação escolar que é recebida, absorvida e aplicada por qualquer discente dessa mesma escola estamos cometendo um erro grasso. Não devemos esquecer que a “nota escolar” “é algo extremamente artificial, é uma exigência colocada de fora para dentro da escola; diferente da avaliação, que é algo natural da ação humana consciente” (salienta Celso Vasconcelos).

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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