As medalhas de ouro do Waldocke

Em: 11 de julho de 2018
O coronel creditou as conquistas de seus alunos principalmente aos professores de matemática da escola: Wilson, Mael, Mona Lisa e Saraiva
https://www.jcam.com.br/1107_B1.png
O coronel creditou as conquistas de seus alunos principalmente aos professores de matemática da escola: Wilson, Mael, Mona Lisa e Saraiva

Houve uma época, até a década de 1970, em que escola pública era sinônimo de ensino de qualidade. Depois, por motivos vários, a coisa degringolou e se tornou comum citar ‘escola pública’ como local onde não se aprendia nada. Mas bastam algumas ações para que as coisas se modifiquem.

“Quando a PM assumiu a direção da Escola Estadual Professor Waldocke Frick de Lyra, no Tarumã, o coronel Rudney Caldas, seu primeiro diretor, tinha como objetivo transformar o Waldocke numa escola de referência. Os resultados começaram a aparecer em 2014, quando assumi a direção da escola em substituição ao coronel Rudney e dei continuidade ao trabalho dele. Naquele ano, e no ano seguinte, dois de nossos alunos ganharam medalha de ouro na Obmep (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas)”, falou o coronel Alysson de Almeida Lima, atual diretor do Waldocke.

Este ano os alunos do Waldocke foram mais longe e seis deles (Alessandra, Ana Flávia, Luiz Alberto, Raphaela, Thiago Matos e Felipe Vieira) ganharam medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática sem Fronteiras, organizado pela Rede POC (Programa de Olimpíadas do Conhecimento). Pelo feito, foram convidados a integrar a delegação do Brasil que irá a Bangcoc, na Tailândia, participar da Aimo (Asia International Mathematical Olympiad), entre os dias 3 e 7 de agosto. E eles vão. Já estão com passagens, passaportes e diárias nas mãos.

Essa segunda conquista se deu graças ao fato de o Waldocke ter sido a única escola pública do Amazonas a conquistar as tão almejadas medalhas de ouro. “Após eles ganharem as medalhas, fomos fazer uma visita ao secretário de Educação Lourenço Braga e eu falei sobre o convite para irmos a Bangcoc. Prontamente o secretário liberou as passagens e estadias para os alunos, mais dois professores e eu, como chefe da comitiva”, exultou Alysson.

O coronel creditou as conquistas de seus alunos principalmente aos professores de matemática da escola: Wilson, Mael, Mona Lisa e Saraiva. Mael, inclusive, foi aluno do Waldocke e foi apontado por alguns dos alunos medalhistas como seu principal mentor para o gosto pela matemática.

Ensino moderno e diferenciado

“Para se aprender matemática com mais facilidade, primeiro você tem que gostar da matéria, depois, ter alguém que te inspire. Quando ensinamos matemática precisamos relacioná-la aos assuntos do dia a dia, e propor desafios para os alunos. E outra coisa: incentivar os alunos a ler porque hoje em dia os problemas de matemática trazem textos explicativos os quais você precisa entender para conseguir resolver os problemas”, falou Wilson. “A conquista das medalhas é uma vitória dos alunos e um orgulho para nós, professores, em ver que o nosso trabalho está sendo bem feito”, completou. “Também não devemos esquecer do suporte que a direção da escola nos dá: bons livros, material didático e uma sala específica para o estudo da matéria”, lembrou Saraiva. “E temos liberdade para trabalhar o conteúdo. Isso é muito importante. Com o sucesso dos alunos, notamos o interesse de outros em querer fazer parte do grupo que estuda matemática”, revelou Mona Lisa.

“Além do lanche, que é servido para os alunos, os que estudam matemática ainda têm direito a almoçar aqui na escola, pois ficam alguma horas a mais no Waldocke”, explicou o coronel Alysson.

Uma escola numa área vermelha

Cada um dos seis alunos têm histórias diferentes, porém, parecidas com relação ao seu gosto pela matemática. “Comecei a gostar de matemática por causa do professor Mael. Suas aulas são diversificadas, além do currículo diferenciado. Ele ensina matemática através de brincadeiras”, explicou Thiago.

“Comecei a aprender matemática com meu pai Roberto, que era professor de matemática, e depois com meus irmãos, que também gostam da matéria”, contou Ana Flávia.
“Desde muito novo sempre entendi os números e o meu pai Gilson ajudou demais. Ele sempre me ensinou que tudo na vida é possível”, revelou Felipe.

“Desde pequena gostava de ler, mas tinha dificuldades com as contas. Meu pai Rosenir e minha mãe Érida me ajudaram bastante. Os professores das outras escolas onde estudei me indicaram o Waldocke e realmente aqui me aperfeiçoei na matemática”, falou Alessandra.

“Primeiro os meus pais, depois os colegas aqui no Waldocke e depois os professores me fizeram gostar de matemática”, disse Luiz.

“No começo achava a matemática fácil. Depois os cálculos foram piorando até começar a estudar com o professor Mael, que me passou confiança, e eu voltei a entender e gostar de matemática”, completou Raphaela, que fala inglês fluentemente e aprendeu sozinha, principalmente na internet. Ela já se prepara para fazer o discurso, em nome do grupo, em Bangcoc.

A Escola Waldocke está localizada na comunidade São Pedro, na antiga invasão da Carbrás, de 2004, no Tarumã, considerada uma das áreas vermelhas da cidade. Avessos à falta de serviços de saúde e segurança na região, os seis garotos, na faixa etária de 13 e 14 anos, cursando a 8ª série, estão mais preocupados é com sua viagem à Tailândia, que acontecerá no próximo dia 1º de agosto. Serão 30 horas de viagem e cinco dias no país asiático, na primeira grande conquista de suas vidas conseguida graças aos seus conhecimentos.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar