‘Ó abre alas, que eu quero passar…’, marchinha que é repetida no Carnaval desde 1899 foi composta por uma mulher pioneira, Chiquinha Gonzaga, também a primeira mulher a tocar, compor e viver da música, a partir de 1877, e a reger uma orquestra, em 1885, no Rio de Janeiro.
Mais de cem anos se passaram e as mulheres continuam a impor o seu pioneirismo na música, como as garotas do ‘Samba com as Moças’, primeiro grupo de sambistas amazonenses formado somente por mulheres.
“O projeto de formação do grupo começou há uns dois anos através de um grupo de WhatsApp”, lembrou Alessandra Vieira, idealizadora do ‘Samba com as Moças’.
“Eu toco surdo e participava de um grupo de percussionistas e lá fiquei conhecendo a Thayane Rios, que toca tantan. Foi então que percebemos que éramos as únicas mulheres do grupo. O restante eram todos homens. A partir daí começou nosso interesse, e dificuldade, em criar um grupo que tocasse samba formado somente por mulheres”, contou.
“No início eu e a Thayane decidimos qual ritmo iríamos apresentar. Como sabíamos tocar instrumentos do samba, decidimos pelo samba, mas aí vieram as dificuldades”, falou.
Desde então, as duas amigas passaram a percorrer os mais variados ambientes musicais da cidade em busca de outras meninas e só no final do ano passado elas conseguiram reunir oito.
“Estávamos atrás de meninas cantoras e instrumentistas, mas é incrível como elas praticamente não existem. Não se encontram em qualquer esquina, como acontece com os homens. São raras. Essa deficiência foi o que mais nos impulsionou, pois sabíamos que seríamos novidade e uma ponte para introduzir mais mulheres amazonenses nesse universo ainda bem masculino”, acrescentou.
De mulher em mulher
Como em qualquer grupo de samba que se preze, o cavaquinho é imprescindível. Uma cavaquinista foi o primeiro alvo de Alessandra e Thayane até que uma caiu no colo do ‘Samba com as Moças’, e ela veio de longe.
“Conhecemos a Aléxia Fernandes num show quando ela nos falou que tocava violão e cavaquinho. Ela é de Anori e outra notícia boa que nos deu é que estava querendo mudar para Manaus. Foi convidada pro grupo e topou na hora”, disse.
“Violão também é importante, e como até agora não apareceu nenhuma violonista, recorremos a ninguém menos que um homem. A Aléxia, lógico, vai ficar só no cavaquinho. Pro violão chamamos o Aílton Freitas, mas ele sabe que é nosso parceiro até que surja uma violonista”, avisou.
De mulher em mulher, instrumentista em instrumentista, o ‘Samba com as Moças’ foi tomando forma. Alessandra Vieira (surdo), Thayane Rios (tantan), Aléxia Fernandes (cavaco), Ailton Freitas (violão), Izabel Barros e Renata Bentto (voz), Rafaela Bittencourt (pandeiro), Hácara Ariela (bateria), e Carla Machado (flauta).
Todas as integrantes já tinham ligação com a música e trazem no currículo trabalhos anteriores. Com exceção de Alessandra, que é coordenadora municipal de cultura, em Rio Preto da Eva, e Thayane, que trabalha na área da saúde, em Manaus, as outras meninas e Ailton fazem apresentações nas noites manauaras.
“Gosto de dizer que não somos um grupo de pagode, mas um grupo de sambistas. Tocamos pagode, porque as pessoas gostam e pedem, mas nossas músicas são o samba de raiz cantados por Dona Ivone Lara, Jorge Aragão, Noite Ilustrada, Beth Carvalho, Benito di Paula, Zeca Pagodinho, Alcione, entre vários outros feras do samba”, listou.
O primeiro show
“Outra deficiência, que pretendemos sanar com o tempo, é que enquanto os homens tocam e cantam, as mulheres ou só tocam, ou só cantam. Por isso o nosso grupo ficou tão extenso”, falou.
Em 20 de janeiro, no Largo de São Sebastião, nas comemorações do dia de São Sebastião, depois de muitos ensaios, finalmente o ‘Samba com as Moças’ estreou para um público que lotou a praça.
O grupo conta atualmente com três músicas autorais no repertório e pretende incluir mais, mesclando autorais com músicas conhecidas. Em setembro do ano passado, no Fecani (Festival da Canção de Itacoatiara) uma destas músicas, ‘Ei, Mulher!’, de autoria da Alessandra, concorreu no festival, interpretada por Renata Bentto que, como Alessandra, também é de Rio Preto da Eva.
“Agora nosso objetivo permanece sendo o inicial: fazer shows cantando samba com um grupo musical formado somente por mulheres”, afirmou.
E que continuem seguindo o exemplo de Chiquinha Gonzaga cuja obra inclui peças para piano, piano solo e canto, em diversos ritmos, como tangos brasileiros, canções, polcas, valsas, habaneras, fados, baladas, modinhas, choros, mazurcas, dobrados, duetos, serenatas e peças sacras. Tão importante foi esta mulher para a música brasileira que, desde 2012, na data de seu nascimento, 17 de outubro, passou a ser comemorado o Dia da Música Popular Brasileira.
Para conhecer melhor o trabalho do ‘Samba com as Moças’, é só acessar o Instagram @sambacomasmocas, o Facebook e o YouTube. Outras informações pelo fone: 9 9325-4416.






