A disposição de consumo voltou a crescer em Manaus, em setembro. Mas, o impulso se restringiu às famílias de baixa renda. Os dados locais da CNC (Confederação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) para o indicador de ICF (Intenção de Consumo das Famílias) revelam o 15º avanço consecutivo para a capital amazonense, em ritmo novamente superior ao da média nacional, e puxado pelos consumidores de baixa renda. Em um mês sem datas comemorativas relevantes, foram registradas melhoras na percepção sobre renda e emprego. Mas, a disposição de adquirir bens duráveis voltou a cair, apesar da avaliação positiva para o acesso ao crédito.
O ICF de Manaus marcou 95,1 pontos neste mês, 3,9% a mais que em agosto (91,5 pontos), e mais que o dobro da marca de 12 meses atrás (46,2 pontos). Este foi o melhor número para a cidade desde abril de 2020 (102 pontos), ainda no começo da pandemia. Com isso, o indicador já se aproxima da saída da zona de insatisfação (de 0 a 100 pontos). Desta vez, o ganho de otimismo veio apenas das famílias de renda abaixo dos dez salários mínimos, embora estas ainda sigam sob a marca da desconfiança (90,8 pontos). Já os consumidores mais abastados (140,5 pontos) diminuíram a intenção de compras em 0,78%, mas seguem “confiantes” desde novembro de 2022.
Manaus voltou a ter alta mais forte do que o da média nacional, embora esta ainda conte com pontuação mais elevada. O indicador marcou estabilidade em todo o Brasil, entre agosto e setembro, mantendo-se no quadrante positivo de confiança (102,6 pontos) pelo segundo mês consecutivo. No confronto com agosto do ano passado, houve nova escalada de dois dígitos (+21,5%). A CNC aponta que a perspectiva de consumo para os próximos três meses e o momento para aquisição de bens duráveis se destacaram na sondagem.
Em Manaus, a nova alta do ICF soma-se à quinta redução consecutiva dos números locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da mesma entidade. Mas, a despeito da melhora, as compras seguem embarreiradas pelo comprometimento de renda de 83,5% (548.209) das famílias da capital com contas antigas, sendo que 37,2% (244.154) estão inadimplentes. Já o Icec (Índice de Confiança do Empresário Comercial), também da CNC, emplacou seu terceiro mês seguido de discreta melhora no otimismo do setor, que indica maior disposição de contratar e investir, mesmo diante das reservas em relação à conjuntura econômica.
Renda e emprego
O ICF de Manaus avançou novamente em seis de seus sete componentes, na variação mensal. Mas, apenas três deles já estão no nível de satisfação –ligados ao emprego e às perspectivas. As melhores taxas de crescimento vieram do nível de consumo (+10%) e renda atuais (+7,1%), assim como das perspectivas de consumo (+6,7%) e profissional (+5%). Já as percepções sobre as condições de emprego atual (+1,8%), acesso ao crédito (+1,2%) subiram em ritmo bem menor. O dado negativo veio novamente do “momento para duráveis” (-3,1%)
O nível de consumo atual ainda é o principal fator que puxa a média de Manaus para baixo. Apesar dos aumentos seguidos, o subindicador ainda aparece com o pior escore da lista (71,3 pontos) –embora as famílias com renda acima de dez mínimos tenham pontuação quase duas vezes maior (140 pontos). Na média, nada menos do que 54,5% dos manauenses estão indo menos às compras do que no ano passado, enquanto 25,7% já dizem que estão comprando mais e 18,1% não veem diferença.
A perspectiva de consumo (104,9 pontos) ultrapassou a linha divisória da satisfação, e a avaliação sobre a renda familiar atual (97,6 pontos) já se aproxima dessa marca. A maior parte das famílias de Manaus já esperam compras maiores nos próximos meses (41,2%), enquanto o grupo que aposta em cenário inverso (36,3%) voltou a encolher, e 18,7% aguardam estabilidade. Em paralelo, um percentual cadente de 34,1% dos entrevistados em Manaus diz que a renda familiar piorou em relação ao cenário econômico de 12 meses atrás, ao passo que 31,7% enxergam melhora e 33,5% consideram que está igual.
A perspectiva profissional (110,7 pontos) ainda coleciona o melhor número da lista. A fatia de consumidores que preveem melhora nos próximos seis meses (48%) aumentou sua vantagem em relação aos que têm opinião contrária (37,3%), mas o percentual de indecisos (14,8%) também subiu. O mesmo se dá sobre a situação atual do emprego (109 pontos). O grupo dos que se sentem “mais seguros” profissionalmente (33,1%) supera o dos que se dizem “menos seguros” (24,1%) por uma vantagem maior, ao passo que 22,9% entendem que está igual. Já a cota de desempregados subiu para 19,9%.
Um dos fatores capturados pela sondagem que obteve menos melhora foi o da situação atual do crédito (90 pontos): 41,8% consideram que o acesso ainda está mais difícil do que no ano passado. Em contrapartida, 31,7% já apontam que ficou mais fácil e 22,8% não veem diferença. Em sintonia, o “momento de aquisição de bens duráveis” (82,4 pontos) voltou a cair e 54,2% ainda consideram que esta não é a melhor hora para isso. O grupo dos confiantes nas compras recuou para 36,6%. As dificuldades e cautelas ainda predominam entre as famílias com renda inferior a dez mínimos.
“Processo de estabilidade”
O presidente em exercício da Fecomércio-AM, Aderson Frota, diz que o indicador confirma “pequena recuperação” da atividade comercial e reflete o incremento de vendas com o Dia dos Pais. “Estamos na expectativa que o Dia das Crianças tenha um aumento mais significativo. O consumo está aumentando, ainda que de uma forma muito raquítica, mas demonstrando que entramos em um processo de estabilidade. É claro que não vamos esperar índices muito expressivos nos próximos meses. O crescimento será muito lento, porque o consumidor ainda está em níveis muito altos de inadimplência”, ponderou.
Texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC aponta que quatro em cada dez famílias brasileiras têm intenção de compras nos próximos três meses –a maior proporção desde março de 2015. O presidente da entidade, José Roberto Tadros, lembra que, além das compras sazonais, os feriadões do segundo semestre também impulsionam o consumo das famílias, o que deve se refletir nas vendas do setor. “Embora o indicador principal mostre estabilidade, a alta da projeção de consumo para o último trimestre do ano e a maior segurança no emprego, em geral, são boas notícias para o varejo, que se prepara para o período de maior faturamento do ano, com datas comemorativas importantes”, frisou.
No mesmo texto, a economista da CNC responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, aponta que, em âmbito nacional, houve melhora na percepção das famílias para aquisição de bens duráveis, e isso ocorreu em virtude da redução dos juros e da inflação mais baixa. “A maior segurança no emprego oferece mais tranquilidade para os consumidores comprarem a prazo. Os dados refletem, principalmente, o momento do mercado de trabalho formal, que ainda apresenta alta nas contratações, mesmo que o ritmo da criação de novas vagas esteja desacelerando”, encerrou.







