Batuques de Recife ecoam em Manaus

Em: 31 de julho de 2017
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O maracatu é o mais antigo ritmo afro-brasileiro e assim como o frevo, com um som marcante que ecoa lá de Pernambuco. Mas, há pouco mais de um ano Manaus possui um elo com os batuqueiros pernambucanos através do grupo Maracatu Pedra Encantada, idealizado pelo músico, designer e poeta Marcelo Rosa e pela instrumentista e designer Érika Tahiane. O casal amazonense ainda dirige o coletivo cultural Espaço NAVE onde desenvolvem várias atividades artísticas.

Em 2016 o casal foi ao Recife passar o Carnaval e, coincidentemente, este foi o ano do desfile do centenário da Nação de Maracatu Porto Rico. “Aí tivemos a ideia de montar um grupo de percussão que tocasse de tudo. De volta a Manaus, não demorou para Marcelo e Érika começarem a montar seu grupo denominado Maracatu Pedra Encantada. “Demos esse nome místico pela relação do maracatu com os rituais religiosos afro”, conta.

Marcelo e Érika lembraram que os integrantes da Nação de Maracatu Porto Rico os receberam com muito carinho. “Eles nos abraçaram e ficaram muito satisfeitos em saber que iríamos criar um grupo de maracatu em Manaus. Nós, aqui, sempre seremos um grupo de maracatu e nunca uma nação como eles, de Pernambuco, porque lá eles são o berço do batuque, das danças, das loas e dos rituais”, garantiu Marcelo.

Primeiros passos
Depois dessa viagem e da criação do grupo o casal trouxe a Manaus ninguém menos que o batuqueiro Rumenig Dantas para realizar a oficina ‘Maracatu Baque Virado’ e repassar seus conhecimentos. Na oficina, Rumenig contou a história do maracatu e ensinou sobre cada um dos instrumentos que compõe a ‘orquestra’, como a alfaia, o gonguê, a agbê, as timbas e as congas, entre outros. Explicou o que é o baque virado, as loas (toadas) e as raízes do batuque e da dança do maracatu com as religiões afro.
Rumenig nasceu e foi criado no bairro do Pina, onde também surgiu a Nação de Maracatu Porto Rico. No bairro,desenvolve trabalhos de cunho artístico e cultural desde 1997, misturando influências diversas de afoxé, maracatu de baque virado, música indígena, música africana, côco, ijexá, jongo, ciranda, baião, batuque de umbigada, entre outros.

O percussionista já desenvolveu trabalhos com Marisa Montes, Lenine, Alceu Valença, Gabriel O Pensador, Criolo, Devotos e outros, e já se apresentou na França, em excursão com a Nação Porto Rico.

Convidados a se retirar
Érika acrescentou que um grupo de maracatu com cinco integrantes já consegue ‘fazer barulho’. “Nosso grupo é variado, e os integrantes vão quando podem e quando querem participar das apresentações, sempre em torno de 15 a 20 batuqueiros, entre estudantes e vários profissionais. Temos a paulista Denise Gusmão, por exemplo. Ela aprendeu o maracatu lá em Pernambuco e sempre participa conosco quando chamamos”, disse.

Segundo o idealizador do grupo, instituições podem solicitar apresentações do Maracatu Pedra Encantada, em troca, este pede apenas uma ajuda de custo. “Já nos apresentamos em Presidente Figueiredo e Itacoatiara e, em Manaus, nossa mais recente performance foi no palco do Teatro Amazonas, no 5 Minutos em Cena. Começamos fora do Teatro e entramos pela porta principal, subindo no palco. E pensar que aqui mesmo, no Largo de São Sebastião, os seguranças já vieram impedir, por três vezes, nossa apresentação alegando que não tínhamos autorização para estarmos ali, tipo coisa do início do século passado quando a polícia perseguia os negros e os batuques”, lamentou Marcelo.

Adeptos de um modo de vida sustentável, as vestimentas do Pedra Encantada, são as saias feitas por eles mesmos com tecidos de guarda-chuvas reciclados, o uso de saias também tem explicação: no maracatu não existe gênero. Quem quiser integrar o grupo, todos os sábados, às 15h, eles realizam oficinas gratuitas para qualquer pessoa, de qualquer idade, na rua Comendador Clementino, 421, Centro. Mais informações: (92) 9 9482-7075 (Érika) e 9 9489-9285 (Marcelo)

Origem africana do maracatu
O maracatu é um ritmo musical, dança e ritual de sincretismo religioso com origem em Pernambuco. Conforme o “baque” ou batida, existem dois tipos: o Baque Virado (Maracatu Nação) e o Baque Solto (Maracatu Rural). O primeiro, bastante comum na área metropolitana do Recife, é o mais antigo ritmo afro-brasileiro; e o segundo é característico da cidade de Nazaré da Mata (Zona da Mata Norte de Pernambuco). 

É caracterizado pelo uso predominante de instrumentos de percussão de origem africana. Com ritmo intenso e frenético, teve origem nas congadas, cerimônias de coroação dos reis e rainhas da nação negra. Na percussão chamam a atenção os grandes tambores, as alfaias, que são tocados com talabartes (baquetas especiais para o instrumento). Estes dão o ritmo ou o baque da música e são acompanhados pelas caixas, ou taróis, ganzás e um gonguê ou agogô.

Da mesma forma que numa orquestra, ou numa escola de samba, a organização de uma Nação de Maracatu segue uma hierarquia. Em Pernambuco existem várias, e elas competem, desfilando no Carnaval. “Pela ordem os instrumentos são o agbê, o atabaque, o conguê, o ganzá e a alfaia, mas podem ser acrescentados outros, todos sob a ordem do mestre que, além de comandar tudo com um apito, ainda canta as loas”, ensinou Marcelo.

Há poucos anos houve um movimento de reação sócio-cultural em Recife que fundiu o ritmo maracatu com a influência da música eletrônica. Assim surgiu o movimento Manguebeat, criado por Chico Science, um maracatu moderno. Outras referências são a Nação Zumbi, a Mundo Livre S/A, a Mestre Ambrósio, entre outros seguidores do movimento.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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