“Belo Monte é um exemplo pragmático”

Em: 2 de março de 2018
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O ponto de vista dos povos que vivem nas florestas brasileiras é o mote do livro ‘Povos da floresta – cultura, resistência e esperança’, de Felício Pontes Jr., procurador regional da República. O livro, lançado no final de 2017, é uma compilação dos artigos publicados por Felício na revista Família Cristã, do Grupo Paulinas, nos quais, mais do que a teoria, há a vivência de um defensor de índios, quilombolas e ribeirinhos. Pontes denuncia, por exemplo, as irregularidades cometidas pelo governo federal e pelas grandes empreiteiras na construção da Usina de Belo Monte. A obra deixa claro que os povos da floresta são, segundo o autor, invisíveis aos arautos do “grande projeto de desenvolvimento” do Brasil. Em entrevista ao Jornal do Commercio, Felício Pontes falou mais sobre o assunto.

Jornal do Commercio – Quem são os povos da floresta?
Felício Pontes – O conceito jurídico de povos e comunidades tradicionais inclui, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores artesanais e todos os grupos diferenciados que possuam forma de viver diferente da sociedade dominante. Além desses povos, incluo no conceito de povos da floresta uma outra categoria normalmente esquecida, a dos migrantes sem-terra, que chegaram à Amazônia atraídos pela propaganda governamental de um grande projeto, desde os anos de 1970. Lembro aqui de um carismático casal de trabalhadores rurais em Nova Ipixuna/PA, o Zé Cláudio e a dona Maria. Lutavam para que ninguém vendesse as castanheiras centenárias aos madeireiros, apesar das ameaças. Uma vez o Zé me mostrou uns óleos e cremes que fazia a partir da castanha-do-pará. Mostrou que o preço pago pelo madeireiro em uma árvore era o lucro que tinha com a venda desses produtos, oriundos da florada de uma árvore apenas. A ideia era perigosa. Os madeireiros não podiam permitir que isso pegasse. E o Zé e a dona Maria foram mortos numa emboscada covarde, em 2011. Portanto, o conceito de povos da floresta é mais abrangente do que o conceito legal de povos e comunidades tradicionais.

JC – Na sua opinião, o que esses povos acham quando ‘poderosos’ chegam ao local onde eles vivem há décadas e começam a ditar ordens?
FP – Esses povos sofreram o processo de ‘invisibilização’, ou seja, a sociedade dominante não tinha interesse em mostrar ao Brasil que eles existiam. Ao contrário, quando foram notados, eram entraves ao ‘desenvolvimento’. Isso acarretou até genocídio, em alguns casos. A divulgação é peça-chave na estratégia de lutar contra o preconceito que sofrem até os dias atuais. Não se luta a favor daqueles que não se conhece. E a invisibilidade permite que tantas atrocidades sejam cometidas até hoje. Portanto, o livro pretende expor o que eles pensam diante dessas ameaças. Pretende expor uma visão do Brasil de um ângulo que não costuma frequentar os grandes meios de comunicação social.

JC – Na história brasileira os primeiros ‘poderosos’ seriam Pedro Álvares Cabral e sua comitiva?
FP – Sem dúvida, a chegada dos portugueses, sobretudo da forma com que foi realizada, atingiu um modo de vida que era e é diferente daquela que se tinha na Europa. Eu mesmo aprendo todos dias com os povos da floresta. Aprendo que cada qual é singular, é diferente do outro. Costumes, línguas, tradições… tudo muda de povo para povo. Chegava nas aldeias sempre a convite deles. Era sinal de que algo grave estava acontecendo, como invasão de madeireiros, grileiros, mineradores… Lembro dos araweté admirando as estrelas do céu, como seus antepassados, que lhes protegem, o que lhes faz renovar as forças todos os dias; dos munduruku compartilhando a criação dos filhos com a aldeia; dos zo’é que não compreendem o sentido de ‘propriedade’, pois ninguém pode ser dono de uma terra que serve a todos; lembro dos arara e o respeito ao pajé-curandeiro como um enviado de Deus, como são todos os que cuidam dos outros… A chegada dos ‘poderosos’ atinge esse modo diferente de viver e ver o mundo.

JC – E a história se repete. Belo Monte seria o exemplo mais recente?
FP – Belo Monte é um exemplo paradigmático. Ele mostra como não houve evolução em 500 anos quanto ao preconceito e desrespeito em relação ao povos da floresta. Em vários capítulos do livro cito Belo Monte com o objetivo de demonstrar que a única mudança foi que no século 16 havia uma política clara que levava ao genocídio. Hoje existe uma política disfarçada que leva ao etnocídio.

JC – A visão de quem está de fora é de que as pessoas que vivem na floresta precisam do progresso porque viveriam mal. Isso é uma verdade?
FP – A primeira questão é definir o que é progresso. Considero a palavra mais perigosa que existe. Ela está desde a propaganda das grandes mineradoras até na fala dos povos da floresta. Mas sempre em sentido diferente. Um dos capítulos do livro trata do modelo de desenvolvimento socioambiental. É um modelo redistribuidor de renda porque predomina a forma coletiva de uso da terra, como nas reservas extrativistas, terras indígenas, territórios quilombolas e projetos de desenvolvimento sustentável. É também o modelo dos povos que consideram que desenvolvimento é possuir exatamente o que já possuem: “água limpa e floresta protegida”, como diz o cacique-geral munduruku, Arnaldo Kabá. Nele se vê um conceito diferente de ‘progresso’. A segunda questão é o respeito à autodeterminação desses povos. Eles devem definir seu conceito de progresso e indicar a direção que pretendem seguir. Qualquer forma de tutela, é racismo.

JC – E quem ajuda as pessoas que vivem na floresta? Ou elas sempre perdem para os ‘poderosos’?
FP – Estamos vivendo um momento de transição. Antes, de um modo geral, esses povos eram tutelados: alguém dizia o que deveria ser feito com eles. Vigorava no Brasil, até 1988, a Doutrina do Integracionismo. Por ela, os povos indígenas, por exemplo, deveriam ser integrados à comunhão nacional. Ou seja, deixariam de ser indígenas, e passariam a ser brancos. Essa ‘integração progressiva e harmoniosa à comunhão nacional’, como a lei dizia, é a negação cultural da comunidade indígena, o que deve ser interpretada como a negação da própria comunidade. Portanto, a integração anula a preservação. Com a Constituição de 1988, houve uma ruptura desse modelo. Nasceu a Doutrina da Autodeterminação ou Pluralista, prevista no art. 231, da Constituição. Portanto, como se trata de mudança de mentalidade, é necessário uma nova geração para colocar em prática essa nova doutrina. E ela já nasceu. Vemos muitas ONGs, a Igreja Católica e algumas denominações evangélicas com esse perfil mas, sobretudo, o Ministério Público, que tem a função de defender os povos da floresta.

JC – Na Amazônia, qual o lugar onde os povos da floresta mais sofrem perseguições? Quem persegue e por que?
FP – As ameaças estão espalhadas por toda a Amazônia. Diria até mais, por toda a Pan-Amazônia, que engloba nove países. Essas ameaças vêm do que denomino no livro de modelo predatório de desenvolvimento. Ele se instalou na Amazônia, desde a década de 1970. Suas atividades principais são: madeira, pecuária, mineração, monocultura e energia hidráulica. Todas as vezes que ocorreram massacres na Amazônia houve, de um lado, um representante do modelo predatório defendendo uma das atividades citadas.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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