O avanço das apostas online está inibindo as vendas do comércio, a arrecadação tributária e o PIB, no Brasil em geral, e no Amazonas em particular. A conclusão vem de estudo da CNC, que estima que o crescimento das ‘bets’ drena de R$ 24 bilhões a R$ 240 bilhões por ano dos orçamentos das famílias brasileiras. No cenário otimista, a economia nacional sofre perdas de R$ 60,60 bilhões, disseminadas no faturamento do setor (R$ 39 bilhões), no Produto Interno Bruto (R$ 19,5 bilhões) e no recolhimento de impostos (R$ 2,1 bilhões). No pessimista, o prejuízo chega a R$ 597,50 bilhões.
De acordo com o levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o avanço da jogatina online estaria gerando perdas de R$ 1,06 bilhão a R$ 5,81 bilhões para a cadeia produtiva da economia amazonense. Assim como ocorrido na média nacional, o tombo mais significativo seria sentido nos ganhos dos comerciantes, com retração de R$ 709 milhões a R$ 3,44 bilhões. Como consequência, o PIB do Amazonas sofreria reduções de R$ 305,95 milhões a R$ 2,25 bilhões, enquanto a arrecadação amargaria cortes de R$ 43,90 milhões a R$ 119,06 milhões, conforme o cenário.
Ao citar estimativas do Banco Central, o estudo informa que as famílias brasileiras apostaram R$ 240 bilhões nas ‘bets’ em 2024. Em paralelo, o comércio brasileiro perdeu R$ 103 bilhões de seu faturamento anual potencial com o redirecionamento dos recursos das famílias para os jogos online. A sondagem ainda mostra que 1,8 milhão de brasileiros entraram em situação de inadimplência por comprometer a renda, por esse motivo. As famílias de menor renda, saltaram de 26% para 29% dos inadimplentes na base consumidora nacional, entre janeiro e dezembro. No Amazonas, esse percentual era de 47,5%.
Defesa da regulamentação
Em texto divulgado à imprensa, a CNC reforça que as perdas do comércio são significativas com as ‘bets’ e ocorrem, “pelo descontrole financeiro” das famílias. “As apostas on-line estão amplificando desigualdades e desviando recursos fundamentais, afetando diretamente o funcionamento da economia formal e o acesso das famílias a bens e serviços”, lamentou o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros.
A entidade enfatiza que não é contra a liberação do jogo em si, mas reforça a importância da regulamentação da atividade para mitigar os danos das apostas para a economia. Entre as medidas propostas, destacam-se a imposição de limites para os jogos online, campanhas de conscientização e programas de apoio a viciados.
Outra sugestão é a regulamentação anterior de cassinos físicos, que, segundo o Projeto de Lei nº 2.234/22, pressupõe a criação de uma Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) específica para o setor, com potencial de arrecadação de até R$ 22 bilhões anuais em tributos, e esses recursos poderiam ser direcionados para áreas como saúde e educação e diversos programas sociais, criando um círculo virtuoso e benéfico para a sociedade.
“Os dados deixam claro que o impacto das apostas vai além do aspecto financeiro, interferindo diretamente na capacidade do comércio varejista e de outros setores importantes para o desenvolvimento do país. A regulamentação, além de promover arrecadação formal, pode mitigar esses desvios prejudiciais”, economista-chefe da CNC, Felipe Tavares.
“Potencial desperdiçado”
O presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota, concorda que o varejo brasileiro vem perdendo força diante do avanço das ‘bets’ e da falta de regulamentação da jogatina no Brasil. “Em 2024, os brasileiros gastaram um valor expressivo e estonteante com o jogo, e isso acabou tirando vigor do comércio. Era melhor se nós investíssemos na regulamentação dos casinos físicos, pela vantagem que eles teriam de gerar arrecadação e renda de forma muito expressiva. E teríamos o país arrecadando R$ 14 bilhões em tributos”, considerou.
O dirigente avalia que, além de inibir as perdas com as ‘bets’, a opção da regulamentação dos cassinos também traria ganhos diferenciados ao Amazonas. E cita Las Vegas (EUA), como exemplo a ser seguido. “Nós poderíamos desenvolver a região, pelo seu apelo ao turismo na natureza, com o crescimento de atividades econômicas de alta expressividade e empregabilidade. A Amazônia é um potencial desperdiçado. Las Vegas era um deserto e hoje tem cassinos e oferece atividades de gastronomia, exposições comerciais e palestra e uma série de benefícios sociais”, comparou.
“Baixa renda”
A nova presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, considera que as perdas geradas pelas ‘bets’ são proporcionalmente maiores no Amazonas e na região Norte, que possuem rendimentos médios familiares abaixo da média nacional, e indicadores mais elevados de endividamento e inadimplência. “Os maiores apostadores são as famílias enquadradas nas faixas de renda baixa ou muito baixa, o que agrava ainda mais a situação de vulnerabilidade socioeconômica dificultando ainda mais a sustentabilidade financeira familiar”, enfatizou.
A economista observa ainda que, dentro do cenário regional, variáveis atreladas às dificuldades logística e de infraestrutura elevam os preços de bens e serviços dificultando o acesso da maior parte das famílias, pelo chamado “Custo Amazônico”. “Portanto, a redução da renda disponível ora direcionada para as apostas impacta no bem estar das famílias e no agravamento da realidade regional”, ressaltou.
“Frustrações e compulsões”
O psicólogo clínico, Thiago Filgueiras de Freitas, conta que o vício em jogos apareceu pela primeira vez como um transtorno impulsivo em 1980, na terceira edição do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Ele lembra que a porta de entrada das ‘bets’ no Brasil foi aberta pelo governo Michel Temer (2016-2018), com a assinatura da Lei nº 13.756/2018, que liberava as apostas com quota fixa. Mas avalia que as apostas online atendem uma “evolução natural do comportamento do brasileiro”, pois um estudo do IBGE de 2016 já revelava que 14% dos gastos dos brasileiros eram direcionados a apostas do jogo do bicho – que continua sendo ilegal.
“As consequências de jogos como o do ‘tigrinho’ causam preocupação. Vão do aumento do endividamento ao adoecimento mental e até o suicídio. Do ponto de vista da psicologia, há várias hipóteses para explicar porque as pessoas buscam as ‘bets’. Podemos levar em consideração o desejo de obter renda rápida. Outro aspecto importante é que cada indivíduo é singular nas suas necessidades, e alguns buscam refúgio nos jogos para lidar com frustrações e compulsões. É de suma importância buscar ajuda profissional com a psicologia e psiquiatria. Na atualidade, a terapia padrão ouro para tratar a dependência tecnológica é a cognitivo-comportamental”, arrematou.







