Depois de quase dez anos fechado. Isso mesmo. Quase dez anos fechado, abandonado e entregue à marginalidade, finalmente o prédio onde funcionou por 14 anos, e voltará a funcionar a Biblioteca Municipal João Bosco Pantoja Evangelista será entregue, em abril, para a população, restaurado e com algumas novidades.
Desde o dia 20 passado o acervo da biblioteca, que estava na Casa de Restauro, na rua Costa Azevedo, começou a ser transferido novamente para o belo prédio, que embeleza aquela área desde o final do século 19.
Cerca de 32 mil títulos, de acordo com a Manauscult (Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos), coordenadora da biblioteca, entre jornais, revistas e documentos raros datados do século 17, integram o acervo da João Bosco Pantoja Evangelista.
O prédio foi fechado em agosto de 2011 para reforma e reparos na instalação elétrica e hidráulica, com prazo de doze meses para ser reaberto, mas o que aconteceu foi o inexplicado abandono do espaço paulatinamente ocupado por marginais e desocupados sendo totalmente saqueado e depredado. Na época a imprensa divulgou que o acervo levado para a Casa de Restauro constava de ‘mais de 13 mil exemplares’.
Em 2014 o prédio foi incluído nas ações de revitalização do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) Cidades Históricas, mas entre 2015 e 2016 o Ipham (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) tentou, e não conseguiu, aprovar os projetos de revitalização do espaço, consequentemente não obtendo a liberação dos recursos.
Graças à famosa burocracia brasileira, o prédio amargou fechado até julho do ano passado quando, através do programa ‘Manaus Histórica’, da prefeitura, começou a ser restaurado.
“As obras resgatam características arquitetônicas do prédio, que recebeu adaptação ao ar moderno do século 21, incluindo sala de projeção, área de acervo em Braile, um café box para atendimento aos frequentadores e itens específicos de acessibilidade, como elevador, piso tátil e banheiros para portadores de necessidades especiais”, explicou Daniel Herszon, coordenador técnico do ‘Manaus Histórica’.
Dr. Thomas
Apesar de constar no seu frontão o ano de 1908, sabe-se que no prédio funcionou a ‘Liverpool School of Tropical Medicine’, fundada em 1898, a primeira instituição no mundo a pesquisar e ensinar a medicina tropical.
Destaca-se um nome ilustre que morou e trabalhou no local, o médico canadense Harold Howard Shearme Wolferstan Thomas, ou simplesmente Dr. Thomas.
Dr. Thomas trabalhava para a ‘Liverpool School of Tropical Medicine’, na Inglaterra, e foi enviado a Manaus, em 1905, para estudar a febre amarela na região amazônica. Chegando aqui, o médico trabalhou no laboratório do Dr. Figueiredo Rodrigues montando, depois, seu próprio laboratório de análises clínicas denominado ‘The Yellow Fever Research Laboratory’ e posteriormente ‘Manáos Research Laboratory’, localizado no prédio onde décadas depois viria funcionar a Biblioteca Municipal.
“O Dr. Thomas também tinha outra casa na Vila Municipal, hoje Adrianópolis, onde está a Faculdade de Enfermagem, mas acredito que tenha trabalhado e morado no palacete da rua Monsenhor Coutinho até sua morte, em 1931”, falou o historiador Fábio Augusto.
Depois o prédio pertenceu a particulares e ficou bastante popular no final da década de 1970 e início da década seguinte quando nele funcionou o Pinguim, misto de lanchonete e bar frequentado principalmente por jovens que iam até lá degustar os sorvetes do estabelecimento.
Em 1995 o palacete foi desapropriado pela prefeitura visando ocupá-lo com a Biblioteca Municipal João Bosco Pantoja Evangelista, criada em 1967, e que ocupara inicialmente um espaço alugado na avenida Joaquim Nabuco. Depois de passar por outros endereços, a Biblioteca funcionou num prédio, na rua da Instalação, até 1997, quando ganhou a sede definitiva, na rua Monsenhor Coutinho, ao lado da praça do Congresso.
Quem foi?
E quem foi João Bosco Pantoja Evangelista para receber tal homenagem? Nascido em Manaus, em 7 de março de 1938, João Bosco era administrador formado pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro. Foi técnico da Codeama (Comissão de Desenvolvimento do Estado do Amazonas), professor de ciências políticas, na Faculdade de Ciências Econômicas da UA (Universidade do Amazonas) e professor na Espea (Escola de Serviço Público do Estado do Amazonas). Nas artes foi escritor e poeta, um dos fundadores do Clube da Madrugada, em 1954. Presidiu a Ube (União Brasileira de Escritores) seção Amazonas. Publicou o jornal literário Nossos Dias, editado em 1956, em Manaus. Foi assessor especial do Governo Amazonas, cargo que exercia quando do seu falecimento em 4 de agosto de 1973. Dois anos depois, através de Decreto Municipal nº 27, de 12 de março de 1975, a Biblioteca Municipal recebeu seu nome.







