No final de 2008, a morte de um engenheiro sul-africano no Rio de Janeiro alarmou o Brasil, pois, inicialmente, acreditou-se que a causa era o arenavírus. Segundo José Pascoal Simonetti, da Fiocruz, caso se tratasse realmente desse vírus, o país enfrentaria um problema, pois está despreparado para lidar com eventos deste tipo, que são classificados como classe 4 -de alto risco individual e para a comunidade. “Para começar, a morte ocorreu em uma maternidade carioca e as amostras biológicas do paciente foram manipuladas por diferentes pessoas”, contou o pesquisador na quarta-feira, 23, durante apresentação no 6º Congresso Brasileiro de Biossegurança, realizado na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), junto ao 1º simpósio Internacional de Biosseguridade e Pesquisa de Uso Duplo.
Atualmente medidas simples como o uso de EPI (Equipamento de Proteção Individual) ainda não são unanimidade no país entre os profissionais que atuam em laboratórios e hospitais. A própria lavagem de mão não é feita por todos. “Certa vez, um rapaz que trabalhava em um laboratório de medicina diagnóstica confidenciou que nem sempre utilizava jaleco, luva e máscara e ainda fumava na bancada de análise”, revelou Simonetti. De acordo com o palestrante, situações como essa são bem comuns e não se trata de falta deconhecimento, mas sim de necessidade treinamento e conscientização para que os profissionais coloquem em prática as medidas de biossegurança. “No caso, o profissional afirmou que agia desta forma, pois não tinha tempo. O treinamento é importante também para investigar os problemas que estão levando à negligência e, então, adequar as medidas de segurança à realidade de cada ambiente de trabalho”, ressaltou.
Uma outra necessidade destacada pelo pesquisador é uma maior atenção por parte das instituições de ensino para questões de biossegurança. Quando se fala em medicina diagnóstica, por exemplo, a própria recepção, distribuição, transporte e manutenção das amostras biológicas já exigem medidas de segurança. “Até hoje, vemos no país que muitos profissionais, na falta de transporte especializado, utilizam os próprios veículos. Também é comum ver geladeiras que guardam reagentes e amostras serem utilizadas para armazenar alimentos”, lamentou.
De acordo com o cientista, a utilização de lâmpadas de raios UV (ultra-violeta) e de substâncias como agarose e brometoetílico também requerem medidas de biossegurança. O descarte de resíduos também tem de ser especial nessas situações.
Segundo Simonetti, para evitar que sejam adquiridos produtos de proteção individual que não são tão eficientes, comissões de biossegurança devem participar do processo de compra desses equipamentos. Ele afirmou ainda que considera que auditorias são, muitas vezes, necessárias exatamente para averiguar se as medidas de biossegurança estão sendo adotadas dentro dos laboratórios. O pesquisador lembrou que profissionais da limpeza também devem receber treinamento. Vale destacar que profissionais da área de saúde apresentam mais risco de contaminação. Dados apresentados por Simonetti, revelam que, quando comparados à população em geral, enfermeiros apresentam risco de contaminação de três a 20 vezes maior. No caso de patologistas, essa taxa é de seis a 11 vezes e, para técnicos de laboratório, de duas a nove vezes.
Pesquisa em laboratórios ampara crítica
José Pascoal Simonetti apresentou ainda um estudo que foi realizado por Francisco José Camilo Hernandes, durante elaboração da dissertação de mestrado apresentada na USP (Universidade de São Paulo), sob orientação de Edison Luiz Durigon, sobre a construção de laboratórios com nível 3 de segurança em unidades da USP, Unesp (Universidade Estadual Paulista) e Instituto Adolfo Lutz. Embora o estudo tenha se concentrado em laboratórios, o pesquisador destacou que as estratégias também poderiam ser aplicadas para construção de hospitais.
Segundo Simonetti, essas unidades devem contar com pessoal treinado, adotando medidas de biossegurança, mas também dispor de estruturas físicas, como ambientes com facilidade de limpeza e descontaminação, taxa de ventilação de renovações de ar (utilizando o sistema Hepa) e acesso restrito. Entretanto, para que tais melhorias sejam implementadas nas unidades, é necessário avaliar o custo de instalação e manutenção. “Tem de ter definido para sempre um orçamento para manutenção corretiva e preventiva”, finalizou.







