A história do blues remonta-se ao século 17, e surge como forma de expressão de uma minoria, mais propriamente, para manifestar as angústias e aflições dos escravos negros da região sul dos EUA. O gênero musical representava intrinsecamente a expressão da cultura negra, e passou a ser conhecido com o término da Guerra Civil Americana, período em que passou a representar a essência do espírito da população afro. Do Mississipi onde surgiram as sonoridades próprias, virou febre em toda a América e revelou a partir daí o rock’n’roll e nomes como B.B.King.
Em diversas partes do mundo, surgem bandas que mantêm viva a energia e essência do gênero. Mas, um músico em particular, chama atenção ao enaltecer o chamado Blues Galego. Javier Prado, apresenta o trabalho solo “Malos Tempos”, onde o músico canta, toca e compõe as canções que refletem a realidade social e a idiossincrasia galega. Da Espanha, Javier apresenta aos leitores do Jornal do Commercio, um pouco sobre esta identidade do Blues.
Para conhecer o disco completo e os trabalhos da Cadelo Lunático, acesse: http://ocadelolunatico.com/malos-tempos/. No site da banda é possível conferir “Síntome bem”, versão em espanhol de “Felling Good”, de Nina Simone.
A terra das “Meigas”
A Galícia é uma das 17 comunidades autônomas da Espanha e abrange as províncias de Lugo, La Coruña, Pontevedra e Orense. A capital, Santiago de Compostela, é conhecida como o destino final dos peregrinos do conhecido Caminho de Santiago. E também pelo misticismo Celta, onde define a Galícia como a terra das meigas (bruxas) desde 600 anos antes de Cristo. A melhor época para visitar essa região é, definitivamente, durante os meses de junho e agosto, período quente e ensolarado. A região tem muito a oferecer, desde experiências culturais, enoturismo e sua gastronomia típica espanhola.
Jornal do Commercio: O Blues foi uma das principais fontes de diversos gêneros musicais americanos: jazz, soul, disco, rock’n roll, uma boa parte da música pop, da corrente folk urbana os anos 60 e, de modo significativo, da música country em todas as suas derivadas. Sua evolução, suas sucessivas mutações são inseparáveis as histórias do povo negro americano. Contrariando as origens do estilo musical, surge “O Cadelo Lunático”, um blues feito em galego. Como surgiu a ideia de produzir esse trabalho, que de certa forma exalta as questões sociais da Galícia?
Javier Prado: Desde a adolescência minha formação musical esteve ligada ao blues, enquanto meus colegas ouviam os estilos que estavam na moda naquela época (como era o caso do grunge) eu estava mais à vontade com os sons que vinham do Mississippi. Eu acho que tem a ver com a autenticidade que transmite essa música, sempre gostei de compor sobre o que acontece ao meu redor ou sobre aquilo que me acontece a mim diretamente, sem artifícios nem histórias inventadas, e o blues é a linguagem perfeita para fazê-lo.
Galiza vive um momento turbulento na política, e tudo o que está acontecendo ao nosso redor gera uma profunda indignação. De certo modo, o álbum é resultado deste sentimento e, sem dúvida, a música é o melhor meio para transmitir que não estamos de acordo com o que está acontecendo.
JC: Você se descreve um homem de “convicções políticas”. O que você pretende despertar nas pessoas com “Malos Tempos”, e suas canções?
JP: Nos tempos atuais há uma grande parte da sociedade que diz que não se interessa por política, que não quer saber nada de políticos, que isso não pertence ao seu mundo, na minha opinião isso só gera mais problemas. A desafeição política só leva a mais corrupção, ao individualismo e a falta de empatia com o próximo. A política está em tudo que nos rodeia, desde o ônibus que nos aproxima de nosso destino, até a pessoa que nos traz a carta com a mensagem que pode mudar nossas vidas, tudo é política, ainda que quiséssemos, não poderíamos viver à margem da política, e eu acho que “Maus Tempos” é uma representação dessa realidade.
Infelizmente, esta desafeição de que se falava se vê mais em pessoas jovens, sendo a juventude a parte da sociedade com uma ideologia política mais forte e válida, como dizia Celso Emilio Ferreiro, “Eu son un home de conviccións políticas, pero son moi simples. Non están programadas en un programa político. Estou contra a inxusticia, estou pola libertad, estou a favor de Galicia i estou contra a explotación do home polo home”.
JC: Conte um pouco a história da banda e sobre seu trabalho solo “Malos Tempos”.
JP: “Malos Tempos” nasceu em um momento de impasse da minha banda Moondogs Blues Party. Tivemos um ano reorganizando a banda e enquanto isso fui compondo alguns temas que não tinham lugar no Moondogs, nem pelo idioma, nem pelo tema. Em princípio, sua finalidade era apenas a de dar saída às minhas necessidades como compositor em uma época em que eu estava muito influenciado pelo grande artista galego Fran Pérez “Narf”, grande unificador das músicas do mundo lusófono, sob diferentes estilos, incluindo o blues. No entanto, não tinha uma crença firme de que essas canções pudessem conformar uma história, foi a Cristina, minha companheira, que insistiu para que gravasse e lhe desse uma forma de projeto novo, assim, pouco a pouco nasceu o disco de “Malos Tempos”.
Depois apareceram os compromissos para apresentá-lo ao vivo e como os temas tinham uma certa complexidade instrumental decidi montar uma banda com Olalla Ferga a bateria, Belém Tajes à voz e teclados e Maritxiña ao baixo. Esta banda trabalhou durante parte de 2015 e de 2016, apresentando o disco por várias cidades da Galiza, no entanto, a dia de hoje a banda está dissolvida e o projeto voltou ao seu formato embrionário, à espera que cheguem novas histórias.
JC: Como está atualmente a repercussão do blues galego em seu país? Já teve a oportunidade de levar este trabalho para outros lugares fora da Galícia?
JP: O blues é uma música que tem a capacidade de se conectar com todos os gostos e com uma grande variedade de público, uma vez que na Galícia, sempre teve seguidores e bandas. Aqui há grandes nomes do blues, como é o caso de Victor Aneiros que faz blues em galego ou Miki Nervio & the Bluesmakers que pertencem a uma linha ortodoxa de blues tradicional e que levam mais de trinta anos nos palcos. Eles têm aberto importantes vias para acercar este estilo ao público em geral e têm gerado o aparecimento de muitas bandas como é o caso de The Lakazáns, Blues do País, The Big Lis Gumbo Band, Natasia Zürcher. Porém, a efeitos comerciais o blues não deixa de ser uma música minoritária como em qualquer outra parte do mundo, pelo que sua visibilidade nos meios, as listas de vendas ou os palcos é muito reduzida.
JC: Percebo que várias canções são inspiradas em poemas extraídos do livro, Longa Noite de Pedra. Fale um pouco desta relação com Celso Emilio Ferreiro.
JP: Celso Emilio Ferreiro é um dos meus poetas favoritos e esse livro, da lírica de pós-guerra galega, sempre me fascinou pela atemporalidade de seus poemas. Enquanto gravava alguns de meus temas estava a ler “Longa Noite de Pedra” e foi bem assim como pouco a pouco surgiram as músicas que me inspiraram sua leitura, apareceram no disco de uma forma natural. Pode se dizer que Celso Emilio entrou no meu livro pela própria inciativa de suas palavras, encaixaram à perfeição com o momento que se vivia na sociedade não só galega senão também espanhola. É um livro de poesia de total atualidade.
A política, o passo do tempo, a morte. São temáticas recorrentes em minhas composições, daí que sua poesia se ajustou perfeitamente à história que leva o disco. Por exemplo, o poema “Non” quase não tive que o musicar já que tem grande força e ritmo interno, parecia como se o tivesse escrito o mesmíssimo Zack de la Rocha para denunciar a situação de injustiça social que gera o capitalismo.
JC: Deixe uma mensagem para os brasileiros, e o porque eles devem conhecer este belo trabalho
JP: Nos países lusófonos não só compartilhamos os sons de nossas línguas, do código que empregamos para nos comunicar, mas também compartilhamos a mesma forma de representar a realidade, por isso tanto o galego como o português têm uma visão do mundo muito semelhante.
Se essa equação se somasse a universalidade dos sentimentos que transmite uma música como o blues, acho que qualquer pessoa brasileira poderá desfrutar e se identificar com os ritmos e as histórias que se contam em “Malos tempos”, e eu vou ficar feliz com isso.







