Sem serem obrigadas, 67 mulheres partiram do Brasil rumo à Itália, para atuar como enfermeiras junto à FEB (Força Expedicionária Brasileira) durante a Segunda Guerra Mundial. Duas delas voltaram com graves problemas emocionais, resultado do que presenciaram no conflito, e agora são título ao mais novo livro do Prof. Dr. Daniel Mata Roque, 2º vice-presidente da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira, e diretor da Pátria Filmes e do Festival Militum, no Rio de Janeiro, e Fernando Porto. ‘De Altamira a Zilda’ traz a biografia de Altamira Pereira Valadares e Zilda Nogueira Rodrigues, reformadas com neurose de guerra após o regresso ao Brasil.
“Também falamos das demais enfermeiras e de sua experiência coletiva na guerra e no pós-guerra. Pensamos que essa ideia ‘De Altamira a Zilda’, coincidentemente de A a Z, daria uma ideia de completude do grupo, de uma história coletiva de todas as enfermeiras da FEB”, falou Daniel.
E quem eram essas mulheres?
“Algumas já eram enfermeiras, outras fizeram um curso de emergência da Cruz Vermelha; muitas eram de famílias militares e viram uma oportunidade de seguir a tradição guerreira da família, outras queriam agarrar uma oportunidade de emprego, algo difícil para as mulheres em 1940; algumas eram mães e viúvas, outras eram jovens recém-chegadas aos 20 anos. Eram de vários estados e de todas as regiões do Brasil, brancas e negras, ricas e pobres. A maioria nunca se casou, algumas casaram com colegas veteranos da FEB ou até com militares estrangeiros que conheceram na Itália”, revelou.
Sofrimento por toda a vida
Apesar de ficarem na retaguarda, longe das batalhas, essas enfermeiras devem ter presenciado cenas terríveis, o que lhes afetou o emocional para a vida toda.
“Ninguém volta o mesmo de uma guerra, depois de testemunhar tanta morte e destruição, os horrores que um ser humano pode fazer com outro ser humano. Muitos veteranos da FEB, homens e mulheres, trouxeram traumas profundos da experiência bélica. As capitãs Altamira e Zilda, ao serem reformadas, sofreram com crises de pânico e de choro, pesadelos constantes, delírios auditivos e visuais, depressão, dores físicas e até tentativas de suicídio”, relatou.
Durante a guerra as 67 enfermeiras tinham o mesmo posto militar, como 2º tenente, e não havia uma chefia do grupo. Nenhuma morreu durante o conflito nem houve condecorações por bravura, visto que o trabalho delas era mais à retaguarda, nos hospitais, cuja distância da frente de combate variava de três a cinco quilômetros até longas estradas, a depender da estrutura e da complexidade do hospital e do atendimento.
“No entanto, podemos dizer que todas se destacaram por sua bravura. Pensar no significado de um grupo de mulheres brasileiras, ainda na primeira metade do século 20, quando tinham tão pouca autonomia financeira, política e social, se aventurando em um ambiente tão rígido, hierarquizado e masculino, voluntariamente abandonando o conforto e a segurança do lar, cruzando o mundo para atuar no que seria o maior conflito da história da humanidade, amenizando o sofrimento de compatriotas, aliados e até inimigos, é incrível e muito admirável”, enfatizou.
“Apesar das muitas dificuldades enfrentadas por todos os veteranos no retorno da guerra, acredito que essas enfermeiras tiveram sim reconhecimento, digamos que administrativo e burocrático, mas não o reconhecimento público que mereciam. Como toda a história dos pracinhas da FEB, a delas acabou, por muito tempo, esquecida e diminuída”, lamentou.

Bravas amazonenses
Duas amazonenses integraram a FEB como enfermeiras: Graziela Afonso de Carvalho e Semíramis de Queiroz Montenegro. A primeira é bastante mencionada no livro de Daniel, pois era a mais velha, nascida em 1899, e sofreu um dos mais graves acidentes que atingiram as enfermeiras durante seu serviço de guerra após o transbordamento do rio Arno e a consequente inundação do 38º Evacuation Hospital, instalado em barracas, onde trabalhava no serviço de cirurgia. Em meio ao tumulto da evacuação, Graziela caiu e fraturou duas vértebras e duas costelas. Formada pela Escola de Enfermeiras Anna Nery e filha do Coronel Raymundo Afonso de Carvalho, um oficial da polícia estadual e ex-governador do Amazonas, após o acidente, a amazonense passou meses internada no Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro. Foi a primeira enfermeira veterana agraciada com a Medalha de Campanha, em maio de 1945, recebendo-a ainda internada no HCE, das mãos do presidente Getúlio Vargas. Juntamente com Guilhermina Rodrigues Gomes, foram as primeiras reformadas por invalidez, incapazes de prover os próprios meios de subsistência, em 1946. Graziela Afonso de Carvalho foi também a primeira enfermeira da FEB a falecer, em 27 de junho de 1962. A outra amazonense, Semíramis, especializou-se no transporte aéreo de feridos, realizando diversas viagens entre o Brasil e a Itália para repatriar feridos graves até Natal-RN e, na sequência, para o Rio de Janeiro, no mesmo HCE.








