Que uma boa parcela de parintinenses já nasce artista, isso não se discute. Criatividade é o que não falta, nota-se nas fantasias e alegorias inventadas e reinventadas a cada ano para o Festival Folclórico de Parintins. Talvez, por isso, alguns artistas dos dois bumbás resolveram usar de sua imaginação fértil para criar um terceiro bumbá que chamasse a atenção para a liberdade de escolha da preferência sexual de cada um. Foi assim que surgiu, resultado de uma brincadeira, a festa do Boi Boiola. Uma brincadeira séria, que já completou 15 anos em Parintins e este ano, pela primeira vez chega a Manaus, no próximo sábado (12), e o boi vem junto.
“Quem teve a ideia foi o Tarcísio Gonzaga, artista plástico do Caprichoso que este ano fez a fantasia da última noite da Sinhazinha da Fazenda”, contou o radialista, colunista social e promoter de eventos Frank Freitas, de Parintins. “Parintinense não só é criativo, como é brincalhão, então uma vez, numa reunião de amigos, o Tarcísio deu a ideia de criar o Boi Boiola no qual todos os personagens também seriam homossexuais: as personagens femininas, gays; e os personagens masculinos; lésbicas, e deu certo porque o que não falta na ilha são LGBTs”, acrescentou.
Da ideia à concepção, foi um passo. Assim surgiu o Boi Boiola, na cor róseo e branco, com uma flor na testa, batom nos lábios e cílios postiços. “Sim, o Boi Boiola é uma brincadeira, e sempre será uma brincadeira, mas que serve para chamar a atenção do por que algumas pessoas discriminam, em alguns casos de forma violenta, quem tem preferência pelo mesmo sexo”, falou.
Prova dessa discriminação é que, em 15 anos de existência, o Boi Boiola nunca foi convidado para fazer uma apresentação, ainda que especial, de poucos minutos, no bumbódromo da ilha Tupinambarana. Sua festa tem acontecido sempre depois que o Festival Folclórico acabou e estão na ilha praticamente só os parintinenses. Ano passado ele até veio para Manaus, mas de forma tímida, quase não apareceu.
“Esse ano iremos marcar a estreia do Boi Boiola na capital com uma grande festa e queremos contar não só com a comunidade LGBT, mas com todos que veem a preferência homossexual, tanto quanto a hétero, como algo inerente ao ser humano”, disse.
Em sua festa, o Boi Boiola estará acompanhado de todos os personagens dos outros dois bumbás parintinenses, héteros, e mais duas tribos: dos “boys’ e das “bibas”. A festa acontecerá na residência do empresário Murilo Rayol, na Ponta Negra, a partir das 21h, com o cantor Edilson Santana e convidados animando o evento. O ingresso é uma camisa ao preço de R$ 80. Serão disponibilizadas apenas 350 camisas. Mais informações: (92) 9 9158-6640.
O QUE? Festa do Boi Boiola
QUANDO? Sábado (12), a partir das 21h
ONDE? Residência do empresário Murilo Rayol, na Ponta Negra
INFORMAÇÕES? (92) 9 9158-6640
Entrevista
“Todos somos “meninas”, mas aí entra a formação psíquica para determinar se a pessoa será hétero, homo, bi, trans e o que mais a preferência permitir”
Jornal do Commercio: Freud foi dos primeiros, se não o primeiro, a afirmar que a homossexualidade não era doença. Isso há mais de cem anos, mas até hoje tem gente que quer “curar” os homossexuais.
Eliane Mezari: Como resultado de suas observações, Freud já havia concluído que a homossexualidade não era doença e teve a coragem de publicar isso em seus escritos científicos, numa época em que o comportamento era até considerado crime.
JC: Para a psicologia, o que é a homossexualidade?
EM: Trata-se de orientação sexual, lembrando que orientação não é escolha.
Teria fatores multifatoriais, porém não conclusivos, e obscuros também para a Psicologia, que a princípio buscava elucidar a questão pautada no Complexo de Édipo Freudiano.
JC: Por que existem pessoas homófobas? Seria uma homossexualidade retraída?
EM: Sempre houve rejeição ao longo da história. Há na verdade a cultura do desrespeito e do bullying com aquilo que é diferente do habitual. A Psicologia, é uma ciência que estuda a psiquê com extremo respeito às questões humanas e a individualidade de cada pessoa.
JC: As lésbicas, visivelmente, estão sendo bem mais liberais que os gays, pois se expõe publicamente. Isso seria resultado de séculos de subserviência da mulher à sociedade machista?
EM: Mulheres e homens homoafetivos, desenvolvem relações de afeto, se casam e formam famílias. Por serem relações que não são pautadas apenas em sexo, fluem naturalmente. Acredito que o fato da exposição pública dependa de cada região.
JC: Correntes da psicologia dizem que todos somos homossexuais, mas em alguns haveria, em maior ou menor grau, a negação. É isso mesmo?
EM: Se pensarmos na nossa formação genética somos todos a priori “meninas”. O que determina o sexo é uma questão cromossômica. Nós temos progesterona e testosterona, hormônio feminino e masculino. Teoricamente teríamos um pouco de cada sexo. Já a formação psíquica de identidade de gênero é o que vai determinar a orientação sexual e o transitar da pessoa em sua esfera social.






