Cantando a Zona Leste

Em: 22 de maio de 2025
Nauj Jama é mais um menino da periferia que não se contentou com a discriminação e o preconceito e mostra que par vencer na vida, basta querer.

Quando os bairros da Zona Leste de Manaus começaram a surgir, na década de 1980, a partir de invasões, uma seguida da outra, eram sinônimos de perigo, pobreza e marginalidade. Ao longo das décadas as coisas mudaram. Os bairros cresceram, se fortaleceram economicamente, mas ainda assim o estigma da Zona Leste continua. Artistas tentam mudar isso, enfrentando barreiras e preconceitos. Um deles é o músico e multi-artista Nauj Jama que, apesar do nome indiano, é ‘cria’ do Tancredo Neves.

“Sou o reflexo de tensões vividas no cotidiano de jovens das periferias brasileiras, transformando vivências e observações da realidade em arte e resistência. Sigo em meu objetivo de salvar vidas com o poder gigantesco que a arte tem, pregando e reverberando a frase: a arte salva”, poetizou.

Nauj lembra que começou a fazer música quando ainda tinha uns oito anos, apenas por ouvir muita música nas rádios, em estilos diversos, rock, rap, funk, pop, house, e flashbacks, enquanto a irmã as escutava, arrumando a casa.

“Eu e meu primo pegávamos uma caixa, dois lápis de cor e batíamos na caixa fazendo ritmo de funk. Em cima dessa ‘base’ eu colocava paródias de funks que tinha escrito, coisas de criança como ‘tome banho’, ‘não maltrate os animais’, ‘respeite sua mãe’, entre outras”, lembrou.

O menino cresceu e agora Nauj Jama acaba de lançar seu primeiro EP (Extended Play), ‘Sou seu maior pesadelo’, com dez raps no estilo boombap, que podem ser ouvidos no Spotify, no YouTube e em todas as plataformas de música.

“Esse título é porque nós, artistas independentes, causamos medo em quem não tem originalidade em seus trabalhos, muitas das vezes ignorando sua realidade e mentindo sobre seu contexto. O pesadelo, também, pode ser atribuído a artistas que não querem que você ‘cresça’, e fazem de tudo para te colocar pra baixo e desmotivar, não divulgam teu trabalho, e ao te ver evoluir, te enxergam como um pesadelo”, explicou.

 

Sem perder a essência

Sem poder contar com o apoio financeiro de ninguém para produzir, gravar e divulgar suas músicas, Nauj Jama resolveu ele mesmo aprender a fazer de tudo.

“Eu produzo os meus projetos musicais. Quando você não consegue apoio, precisa aprender a fazer sozinho. Aos poucos consegui comprar os meus equipamentos e agora tenho o privilégio de me produzir completamente desde a captação até a distribuição das músicas. E ainda ajudo outros artistas que, como eu, também são independentes, com isso fortificando esse cenário artístico”, disse.

Apesar de ‘Sou seu maior pesadelo’ ser composto somente por raps, Nauj pretende lançar músicas em outros estilos apreciados pelo público manauara como reggae, forró e samba.

“Sem perder minha essência, o que de fato sinto, o que eu acompanho pelo meu bairro, vivências reais, sejam elas mais felizes e leves ou mais frias e pesadas”, afirmou.

“Preciso cantar sobre o mundo em que vivo. Eu venho de um mundo ‘alaranjado’, onde tem mais casa sem reboco do que diploma, mais ‘sede por dinheiro’ do que de obter conhecimento, até porque nesse mundo, muitas das vezes o estudo não faz sentido, as crianças crescem mais cedo, e o sangue escorre mais facilmente assim como o suor. E mesmo assim, por esse mundo eu ouço risadas, vejo sorrisos, presencio batalhas. A desigualdade é notável, mas mais notável que isso é a nossa vontade de superar tudo e continuar indo em frente”, ensinou.

 

Vencendo a maré

Como acontece nos dias de hoje, é pelas redes sociais que Nauj Jama tem o retorno sobre seu trabalho com curtidas, elogios, mensagens de apoio e suporte, principalmente de jovens dos 20 aos 30 e poucos anos, muito embora crianças e um público mais adulto costume comentar a respeito de seus raps.

“As coisas estão fluindo, os lançamentos seguem tendo uma importância para o público, recebo respostas mais explícitas sobre o meu trabalho, além de ser bastante cobrado para realizar novos lançamentos. Dizem que sou uma referência, que sou diferente, e que ‘não tem como eu não dar certo’. Isso é novo para mim porque não fui acostumado a receber elogios. Esse carinho todo me motiva a continuar, até porque a um tempo atrás isso era apenas um sonho, e vejo que esse sonho está se tornando real”, comemorou.

Entre os incentivos recebidos por Nauj, frases como ‘sua música dá esperança’ o fazem querer ser um exemplo não só para a Zona Leste, mas para os jovens das demais periferias de Manaus.

“Quando se conquista algo, de forma honesta, morando num bairro carente como o Tancredo Neves, isso soa como se estivéssemos nadando contra a maré, e vencendo, por isso fico feliz sabendo que motivo outros jovens a fazer o mesmo”, finalizou.

Além das redes sociais, Nauj Jama pode ser visto e ouvido se apresentando em projetos pela cidade, como Movimento Nepal Vive, Anauê, Zonalesticos e Crianças do Guetto, e em espaços culturais como Curupira Mãe do Mato e Muiraquitã.

Para acompanhar sua agenda, Instagram: @Naujjama

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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