O valor da cesta básica em Manaus emendou um quarto mês consecutivo de baixa, em outubro. O preço caiu 1,41% e passou de R$ 642,32 para R$ 633,25, em queda menos acentuada do que a do mês anterior (-2,27%). Conforme a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, levantada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), essa foi a retração mais acentuada do país, e a cidade foi acompanhada por apenas mais dez capitais brasileiras. Nos últimos seis meses, a alimentação básica acumulou retração de 5,73% na capital amazonense.
De acordo com o levantamento, sete dos 12 produtos que compõem a cesta básica de Manaus ficaram mais baratos na passagem de setembro para outubro. A lista do Dieese inclui arroz agulhinha (-4,36%), manteiga (-4,24%), tomate (-3,74%), leite integral (-2,28%), carne bovina de primeira (-1,58%), pão francês (-0,37%) e café em pó (-0,03%). Em contrapartida, óleo de soja (+4,35%), feijão carioca (+3,25%), farinha de mandioca (+0,58%), açúcar cristal (+0,27%) e banana (+0,26%) continuaram ficando mais distantes dos bolsos dos consumidores manauaras.
A análise semestral confirma redução no custo da alimentação básica na cidade. De abril a outubro, foram registradas nove quedas acumuladas, incluindo tomate (-23,87%), arroz agulhinha (-19,75%), açúcar cristal (-9,34%), farinha de mandioca (-8,95%), banana (-2,62%), manteiga (-2,52%), pão francês (-1,16%), leite integral (-0,87%) e feijão carioca (-0,63%). Na outra ponta, os três itens que sofreram majoração de preços no mesmo período foram óleo de soja (+5,81%), café em pó (+3,50%) e carne bovina de primeira (+1,86%). Vale lembrar que a pesquisa do Dieese só voltou a ser realizada na cidade a partir de maio deste ano.
As quedas mais expressivas de preços no levantamento do Dieese ocorreram em Manaus/AM (-1,41%), Recife/PE (-1,29%) e Belém/PA (-1,27%). Já as maiores altas de setembro vieram de São Luiz/MA (+3,11%), Palmas/TO (+2,59%) e Florianópolis (+1,66%). Com o novo corte médio no preço médio da alimentação básica, a capital amazonense teve o quinto mais baixo valor entre as unidades federativas nortistas, ficando à frente apenas de Rio Branco/AC (R$ 631,08) e Porto Velho/RO (R$ 618,86). A cidade ocupa a 19ª posição no ranking brasileira, onde São Paulo/ (R$ 847,14) e Aracaju/SE (R$ 550,18) ficaram nos extremos.
Safras, tarifaço e estoques
A presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, avalia que a “queda suave” da cesta básica amazonense foi influenciada pela oferta de alimentos, queda de preço de algumas commodities, fatores específicos de cada produto, ou medidas governamentais – embora iniciativas como esta não tenham evitado a nova alta do café. “Considerando-se a atual conjuntura e a proximidade do fim de ano, acreditamos em estabilidade de preços dos produtos e uma breve queda em função do aumento da produção. Se considerarmos a tendência observada desde maio, acreditamos numa queda suave ao final de 2025”, conjecturou.
A consultora empresarial, professora universitária e conselheira do Cofecon, Denise Kassama, vai na mesma direção. “Essa é uma tendência, porque as safras foram muito boas e aumentaram a oferta dos principais alimentos no mercado, reduzindo a pressão dos preços. E também teve mais abate de carne, que ainda sofre o ‘tarifaço’. Como Manaus está distante dos grandes centros produtores, as aquisições são de grande porte e mantêm o estoque regulador. Temos que acompanhar a evolução das produções e o contexto atual, para entender se vai aumentar ou reduzir a oferta. Esse ano não há previsão de seca extrema, o que significa que não vai haver comprometimento da navegabilidade nem custos adicionais, o que é uma boa notícia”, comentou.
O economista, e ex-supervisor técnico regional do Dieese, Inaldo Seixas, concorda. “Tivemos um grande número de cidades com aumentos de preços, mas as altas foram pouco significativas. Temos a recuperação da valorização do real, além de um aumento da produção de alguns produtos, e isso fez com que, apesar da demanda forte por conta do aumento da renda do trabalhador e do mercado do trabalho aquecido, a gente conseguiu manter queda no preço dos alimentos. Temos de ver os fatores climáticos e, talvez, os produtos da cesta de Natal tenham algum aumento. Mas, o que se espera até o fim do ano é uma certa estabilização dos preços em Manaus”, ponderou.
Já o consultor empresarial e professor universitário, Leonardo Marcelo Braule Pinto, se mostra mais cético quanto à evolução dos preços no curto prazo. “A queda acumulada chega a 5,73% nos últimos seis meses, sinalizando notável descompressão inflacionária, e refletindo fatores sazonais e o aumento da oferta de commodities no mercado. Apesar do alívio geral, a pesquisa acende um alerta para a continuidade da alta em produtos essenciais, como o óleo de soja e o feijão carioca. Mas, não é normal baixar preço em nosso país, infelizmente. Prefiro ficar meio pessimista e mais reservado, até como alerta para que as pessoas se preparem”, sentenciou.
Salário mínimo
De acordo com o Dieese, em outubro, o trabalhador de Manaus que sobrevive ganhando salário mínimo (R$ 1.518) precisou trabalhar 91 horas e 47 minutos para adquirir sua cesta básica. O tempo necessário para bancar o gasto essencial foi menor do que apurado no mês anterior (93 horas e 5 minutos). Considerando o salário mínimo líquido, após o desconto de 7,5% da Previdência Social, o mesmo trabalhador precisou comprometer 45,10% de sua renda mensal para bancar a alimentação de sua família, fatia igualmente inferior à registrada em setembro (45,74%) e também abaixo da média nacional (49,29%).
O Dieese estima que, com base na cesta básica mais cara do Brasil (a de São Paulo), e em uma família padrão de dois adultos e duas crianças, o valor do salário mínimo necessário deveria ser de R$ 7.116,83, em cifra 4,69 vezes maior do que o mínimo atual (R$ 1.518). A instituição cita a “determinação constitucional” que estabelece que a remuneração pelo piso nacional deveria ser suficiente para suprir as despesas com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência.
“Vivemos em uma realidade em que, infelizmente, o consumidor ainda tem de fazer malabarismo para sobreviver e manter a família, principalmente se ele tiver apenas um emprego. Então, a maioria das pessoas trabalha de carteira assinada em algum lugar e, no outro horário, vão fazer um trabalho como autônomo, motorista de aplicativo, entregador, etc, para poder conseguir suprir o consumo de coisas básicas. A diferença entre o que é necessário para consumir e o que o trabalhador ganha ainda é muito grande e gera muita desigualdade social”, lamentou Leonardo Marcelo Braule Pinto.
Michele Lins Aracaty e Silva concorda que o peso do custo da cesta básica em relação ao salário-mínimo é crescente. “Em 2019, era de menos de 40%, e hoje se aproxima de 50% do valor, constituindo um desafio mensal para as famílias assalariadas”, comparou. Mas, a presidente do Corecon-AM vê dificuldades em aumentar o mínimo na calibragem defendida pelo Dieese. “É totalmente inviável, pois elevaria os custos de produção das empresas, dificultaria a empregabilidade e afetaria as contas públicas, elevando o valor necessário para aposentadorias, pensões, BPC e demais pagamentos atrelados ao mínimo (custo fiscal), além de elevar a inflação”, encerrou.















