Chegada de cubanos gera reações diversas

Em: 28 de agosto de 2013
Envolta em polêmica, contratação de médicos de Cuba reforça reflexão sobre prioridades do governo
Envolta em polêmica, contratação de médicos de Cuba reforça reflexão sobre prioridades do governo

O programa Mais Médicos começou a receber os primeiros cubanos, no sábado (24), que pretendem trabalhar nos municípios do interior do país. Mas os conselhos regionais de medicina afirmam que não vão conceder o registro profissional aos estrangeiros. Já o Ministério da Saúde afirma que eles vão poder exercer legalmente a profissão a partir de setembro. Por outro lado, o Congresso Nacional prorrogou por 60 dias a MP (medida provisória) nº 621, de 8 de julho de 2013, que institui o Programa Mais Médicos. O ato está publicado na edição de terça-feira (27) do DOU (“Diário Oficial” da União), assinado pelo presidente da Mesa do Congresso, senador Renan Calheiros.
Foi instalada a comissão mista, em 13 de agosto, para analisar a MP. Agora, depois de ser analisada na comissão, onde foram apresentadas emendas ao texto original do Poder Executivo, a matéria seguirá para votação no plenário da Câmara e depois no do Senado. A MP do programa era para ser votada até 6 de setembro, pelo congresso, sendo prorrogada até o dia 6 de novembro de 2013.

Posição do governo

O Programa Mais Médicos foi lançado pelo governo federal para levar profissionais de saúde a municípios onde há falta de médicos. O programa é criticado pelas entidades de classe que são contra a contratação de estrangeiros nos casos em que não houver oferta de profissionais brasileiros. O governo tem feito reuniões com parlamentares para negociar a aprovação da MP.
Segundo o projeto inicial, anunciado no início de maio, o governo brasileiro estudava contratar 6 mil médicos cubanos para trabalhar, principalmente, em áreas remotas do país. O Conselho Federal de Medicina, porém, expressou “preocupação” com a possibilidade de médicos estrangeiros atuarem no Brasil sem passar por exames de avaliação, alegando que isso poderia expor a população a “situações de risco”.

Ministro divulga programa

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, viajou pela região Norte para divulgar o programa ‘Mais Médicos’ lançado pelo governo federal no início de julho.
Em sua passagem pela capital amazonense, no início de agosto, o ministro foi homenageado por políticos, recebeu crítica de manifestantes da classe médica e assinou a Portaria que assegura R$ 52,7 milhões para a saúde no Amazonas. Com isso, o recurso anual passará dos atuais R$ 534,7 milhões para R$ 587,5 milhões.
Padilha prometeu dar uma atenção especial à saúde da mulher no Amazonas além de reforçar ações de medida de alta complexidade. O ministro afirmou também, que vai financiar 30 ambulâncias novas para o município de Manaus.

Aleam alerta

O Amazonas conta com recursos federais de R$ 1,4 bilhão para o Governo do Estado e R$ 1,9 bilhão às cidades amazonenses. Além de 25% dos royalties do petróleo, que passarão a ser investido na saúde, de acordo com levantamento do deputado José Ricardo Wendling (PT).
Para o deputado petista o governo federal, por meio do Programa Mais Médicos, tem surpreendido com algo a mais para os Estados e os municípios brasileiros, já que pela medida provisória nº 621/13, que institui o programa no país, além de definir a atuação de médicos nas cidades, também prevê a ampliação de cursos de Medicina e de vagas em unidades de saúde.
Segundo o parlamentar, a intenção do governo federal é clara em contratar mais profissionais na área e criar as condições para a atuação de médicos em qualquer lugar do Brasil. “Mas precisamos chamar a atenção do Estado para a correta aplicação das verbas federais, já que a União repassa recursos anuais para Estados e municípios investirem na saúde”, frisou José Ricardo.

Perguntas mais frequentes

São vários os questionamentos sobre a chegada dos médicos cubanos para participarem do Programa Mais Médicos, criado pelo governo Dilma Rousseff. Duas são singulares à política-econômica do país e pertinentes ao Amazonas: Como Cuba chegou a ter tantos médicos? E por que tem tanto interesse em “exportar” seus serviços médicos para outros países? As respostas foram repassadas através de informações da chancelaria cubana divulgadas pelo site BBC Brasil, no dia 9 de junho.
Em Cuba, os profissionais da área de saúde têm uma função bem mais ampla do que simplesmente atender à população local. Já há algum tempo, a exportação de serviços médicos tornou-se crucial para a economia da ilha. O contingente de profissionais de saúde cubanos fora da ilha incluem atualmente 15 mil médicos, 2,3 mil oftalmologistas, 5 mil técnicos de saúde e 800 prestadores de serviço trabalhando em 60 países e gerando lucros milionários ao regime -as cifras mais otimistas falam em até US$ 5 bilhões o que corresponde a R$ 10,6 bilhões ao ano.

Médicos por petróleo

De acordo com a BBC os serviços que os médicos cubanos prestam à Venezuela, por exemplo, permitem que Cuba receba 100 mil barris diários de petróleo. E também há profissionais cubanos atuando em outros países. São cerca de 4 mil na África, mais de 500 na Ásia e na Oceania e 40 na Europa.
Segundo fontes oficiais, a Venezuela pagaria esses serviços por consulta, a mais barata custaria US$ 8 (R$ 17) em 2008. Já a África do Sul pagaria mensalmente US$ 7 mil (R$ 14,9 mil) por cada médico da ilha.
Segundo a BBC para muitos países em desenvolvimento, o atrativo dos médicos cubanos é que eles estão dispostos a trabalhar em lugares que os locais evitam, como bairros periféricos ou zonas rurais de difícil acesso -onde moram pessoas de baixíssimo poder aquisitivo. Além disso, em geral eles também receberiam remunerações mais baixas.

História cubana

O tema dos profissionais de saúde cubanos no exterior é um dos muitos que dividiram Cuba e EUA. E Washington chegou a criar um programa para facilitar os vistos para médicos cubanos que estejam trabalhando em outros países.
No início da década de 1960, Cuba contava com apenas 6 mil médicos, sendo que a metade emigrou após a Revolução na ilha. A crise sanitária que se seguiu a essa debandada alertou o governo para a necessidade de formar profissionais de saúde em ritmo acelerado, como relata o site da BBC.
Em 1963 foi organizada a primeira missão de saúde ao exterior, apesar da escassez de médicos, Cuba enviou alguns de seus profissionais à Argélia para apoiar os guerrilheiros que acabavam de obter a independência. Eram os primeiros de 130 mil colaboradores que, ao longo dos anos, já trabalharam em 108 países.
Meio século depois, o país tem 75 mil médicos, ou um para cada 160 habitantes, é a taxa mais alta da América Latina. Boa parte dos médicos que ficaram na ilha após a Revolução viraram professores, foram abertas faculdades de medicina em todo o país e se priorizou o acesso de estudantes ao setor. Tudo facilitado pelo fato de o ensino ser gratuito.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar