Chuvas fortes afetam comércio

Em: 31 de janeiro de 2022

As chuvas intensas de Manaus, ocorridas nesta segunda (17) geraram perdas humanas e materiais, tumultuaram ainda mais o trânsito, geraram protestos de moradores, e deixaram a cidade praticamente paralisada. Em paralelo, os negócios também sofreram novo degelo. Para o comércio, o temporal ajudou a esfriar ainda mais as vendas em um período já sazonalmente mais fraco, mas também piorado pelas incertezas advindas da economia e da disparada nas estatísticas da pandemia pela variante ômicron. E os efeitos dessa dinâmica já se fazem sentir no aumento de demissões do setor.

A capital amazonense registrou pelo menos 96 ocorrências, com destaque para os alagamentos (35), segundo a Defesa Civil e o IMMU (Instituto Municipal de Mobilidade Urbana). Entre as ocorrências de deslizamentos, duas tiveram vítimas fatais, na Cidade Nova e na comunidade Fazendinha, ambas na zona Norte. O sistema de monitoramento de trânsito e transporte, que atua 24 horas no Centro de Cooperação da Cidade, registrou mais de 28 episódios, sendo seis de acidentes com danos materiais e dois com vítimas lesionadas e um com uma vítima fatal, na avenida Noel Nutels – onde um ciclista colidiu com um poste. 

As chuvas também geraram protestos. Moradores do bairro Jorge Teixeira, zona Leste, chegaram a fechar as duas pistas da avenida Brigadeiro Hilário Gurjão e queimaram caixas, pneus e restos de árvores. A manifestação foi transmitida ao vivo em redes sociais. Os participantes disseram que as alagações são frequentes no bairro, sempre que chove. A polícia compareceu, mas não foram registrados incidentes mais graves e os moradores acabaram liberando parte da avenida, após conversa com as autoridades.

De acordo com o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), só pela manhã, a precipitação chegou a 80 milímetros, com maior índice pluviométrico na zona Norte da capital. Por conta disso, o órgão emitiu um alerta laranja de perigo de chuvas intensas em 13 municípios do Sul e Centro do Amazonas, com validade até esta terça (18). As demais localidades, inclusive Manaus, estão em alerta amarelo, com chuvas entre 20 e 30 milímetros por hora ou 50 milímetros por dia, além de ventos intensos de 40 a 600 quilômetros por hora. O órgão estima baixo risco de energia elétrica, queda de galhos de árvores, alagamentos e descargas elétricas.

Vacinas e demissões 

Para o varejo manauense, embora já esperadas para esta época do ano, as chuvas mais frequentes e intensas vêm ajudando a piorar um quadro de incertezas para o setor. Segundo o presidente da ACA (Associação Comercial do Estado do Amazonas), Jorge de Souza Lima, o movimento nas lojas da capital amazonense “está muito devagar” na primeira quinzena do ano, apesar das tradicionais liquidações oferecidas pelas empresas. 

Como se não bastasse, o dirigente destaca ainda que os dias iniciais de janeiro também foram de aumento na quantidade de desligamentos no varejo de Manaus. “Há uma semana que estamos tendo demissões no comércio. Principalmente em grandes magazines, mas quando começa assim, acaba acontecendo nas menores também. É até normal que o setor acabe dispensando alguns temporários contratados no final do ano, mas o que me chamou a atenção é que estão mandando embora muita gente antiga também, com dez, quinze anos de casa”, comentou.

O presidente da ACA, que chegou a passar pela área obstruída pelos moradores do Jorge Teixeira, concorda que as chuvas mais intensas e o aumento de ocorrências como as registradas ontem prejudicam ainda mais o setor, especialmente em meio a um novo surto de covid-19, em função da nova variante ômicron. 

“O trânsito de lá estava parado. A chuva e situações assim tendem a piorar tudo no setor, que já vive um momento de cautela. Enquanto isso, os supermercados estão cheios, mas a maior parte das pessoas está mais buscando se vacinar do que comprar. Está tudo muito tumultuado e, desse jeito, o pessoal acaba freando um pouco. Janeiro já não é bom e costuma render vendas apenas de material escolar. A falta do Carnaval também deve dar uma piorada nas vendas. Do jeito que está, acho que até março, tudo vai ficar parado”, lamentou.

“Trânsito caótico”

Mais incisivo, o presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, diz que fica preocupado em dias como o de ontem, marcados não apenas pelo temporal, como também por desabamentos e mortes. O dirigente assinala que a chuva, deixou o trânsito mais caótico e fez com que muitas pessoas evitassem frequentar as lojas, principalmente para comprar em locais sem estacionamento coberto. Já os protestos e o medo de se contaminar em um dia mais chuvoso entram como entraves adicionais.

“Todo momento de tensão social gera problemas assim. Há ainda o fato de que muitas ruas ficaram intransitáveis, principalmente nas áreas mais periféricas da cidade. E estamos no terceiro mês de chuvas. Temos de entender que o perímetro da cidade é grande. Mas, apesar da Prefeitura de Manaus apresentar uma dinâmica muito boa, inclusive na vacinação, essa é uma realidade que o poder público tem de enfrentar. Inclusive no caso de ocupações irregulares”, ponderou.

Frota também mostra preocupação sobre os efeitos das chuvas sobre as estatísticas da pandemia e da reação governamental a elas. “Estamos com os hospitais quase em colapso e com vagas praticamente exauridas. Por outro lado, a letalidade da doença está menor e com saldo bem menos negativo. Mas, não sabemos quais as pressões o governo pode sofrer a partir da piora dessas estatísticas. Infelizmente, as autoridades não sabem como funciona o setor e uma empresa. Esperamos que não queiram reprisar o mesmo filme de 2020 e 2021 e gerar punições indevidas ao comércio, que não gera aglomerações, nem é o culpado pelo aumento de casos”, arrematou. 

Boxe ou coordenada: Alerta desde a madrugada

Em matéria divulgada pela Semcom (Secretaria Municipal de Comunicação Social), o s7), as equipes do órgão estão em alerta, com mais de 60 ocorrências registradas. “Por determinação do prefeito David Almeida, estamos atuando em conjunto com as demais pastas de atendimento imediato, para que possamos dar o suporte do poder municipal às famílias afetadas pelas chuvas”, enfatizou.

O secretário executivo da Defesa Civil, coronel Fernando Junior Dias, salientou que a Defesa Civil atua na avaliação de risco das áreas afetadas pelos fenômenos naturais, como os das ocorrências de ontem. “Estivemos atuando juntamente com o Corpo de Bombeiro nos locais de soterramento, analisando os riscos das casas próximas e o atendimento às famílias, juntamente com a Secretaria da Mulher, Assistência Social e Cidadania, a Semasc, para que possamos atendê-los da melhor forma possível”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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