Quem caminha pela av. Eduardo Ribeiro, certamente não presta muita atenção nos prédios que a ladeiam, misto de construções seculares com arquitetura modificada, alguns deles abandonados e edifícios construídos sobre casarões, que não tiveram a mesma sorte, e foram demolidos na década de 1970. Um destes edifícios é o Manaus Shopping Center cuja construção iniciou em 1974 e terminou em 1976. É considerado o primeiro shopping de Manaus, muito embora só tenha feito sucesso como tal, nos seus primeiros anos.
Pois o Manaus Shopping Center foi construído no terreno onde existiu um estabelecimento que praticamente durante toda a sua existência de 60 anos foi referência em Manaus: o cine Odeon. No dia 21 de fevereiro completou 90 anos de sua inauguração, em 1913, noticiada pelo Jornal do Commercio (em grafia da época).
“Ás 8 horas da noite de hoje serão feitas as primeiras experiências de electricidade e de movimento do apparelho cinematographico, devendo para isso correr uma pellicula. Para essa inauguração os sympathicos emprezarios da nova casa de diversões vieram expresamente convidar-nos”.
“Os ‘sympathicos emprezarios’ eram Moreira e Lages sobre os quais só descobri seus prenomes e nada mais, mas, com certeza, para investirem num cinema, deveriam ser ricos comerciantes, comuns na Manaus daquela época”, revelou Ed Lincon Barros, pesquisador das histórias dos cinemas de Manaus.
O nome Odeon deve ter sido uma referência ao cine Odeon, do Rio de Janeiro, inaugurado em 1909, onde o célebre Ernesto Nazareth tocava piano na sala de espera e compôs sua mais famosa música, o tango brasileiro ‘Odeon’, naquele ano. Odeons eram teatros cobertos da Grécia antiga.
Em 1914, Moreira e Lages venderam o Odeon para o empresário Maximino de Miranda Corrêa, proprietário da Cervejaria Miranda Corrêa que, neste mesmo ano arrendou a sala para a empresa J. Fontenelle & Cia.
Primeiro com ar condicionado
Em 22 de fevereiro de 1913, dia seguinte à inauguração da sala de cinema, o Jornal do Commercio publicou:
‘Com assistência dos representantes dos jornaes desta capital, inauguraram hontem á noite, os srs. Moreira Lages e Cia. o cinema Odeon, de sua propriedade e sito á avenida Eduardo Ribeiro’.
Segundo o pesquisador Adriel França, além do Jornal do Commercio, em 1913, circulavam na cidade ao menos oito jornais com circulação regular.
Continuando, a matéria detalhava.


‘Installado com conforto e sobria elegância, apresenta essa nova casa de diversões um bello salão de espera, amplamente illuminado por 21 focos elétricos e vários ventiladores que nelle conservam constante e agradável temperatura’.
Diferente do Odeon do Rio, parece que o Odeon baré não tinha um pianista distraindo o público, ao menos a matéria só se refere ao ‘bello salão de espera’. Por que não trouxeram Ernesto Nazareth, que chegou a ter um envolvimento com Manaus, mais especificamente com a Cervejaria Miranda Corrêa? Mas essa é outra história. A matéria destaca ainda os 21 ‘focos elétricos’. O que seriam? Lâmpadas? E os ‘vários ventiladores’. Curiosamente, segundo Ed Lincon, o Odeon seria o primeiro cine de Manaus a ter ar condicionado central, em 1953.
E segue a matéria.
‘A sala de espectaculos dispõe de 380 commodas cadeiras, podendo comportar até 500 espectadores e sendo servida por 35 focos elétricos e 12 ventiladores’.
380 cadeiras e 500 espectadores. 180 ficavam em pé? E novamente os focos elétricos e os ventiladores, novidades numa Manaus cujas noites eram escuras e os dias já eram calorentos.
Novo e sem beleza
E o repórter do JC estava atento a tudo.
‘A cabine de projecções se acha collocada em compartimento isolado convenientemente, de forma a evitar qualquer perigo de acidentes’.
Os ‘acidentes’ seriam incêndios, pois as películas dos primeiros filmes eram feitas de nitrato de celulose, o primeiro plástico inventado no mundo, altamente auto inflamável.
Chegamos a outra informação relevante: o primeiro filme exibido.
‘Foi passada, com grande nitidez, a película Os filhos do general’.

E só. Ed Lincon não conseguiu descobrir mais nada sobre esse filme: produtora, ano de produção, diretor, atores, sinopse. Possivelmente era um filmeto de alguns minutos, comuns naquele início do cinema comercial.
A matéria encerra com uma comemoração.
‘Em seguida, serviu-se uma taça de champagne, correspondendo ao brinde á imprensa feito, o dr. Th. Vaz, do Diario Official’.
Adriel França também não conseguiu identificar quem seria Th. Vaz.
Em 1952, em nome da modernidade, o belo palacete do Odeon sofreu uma radical transformação em sua arquitetura, reabrindo, em 1953, como um novo prédio, porém, sem a beleza de antes. O novo cine continuou fazendo sucesso pelos 20 anos seguintes até sucumbir à chegada da televisão. Em 18 de janeiro de 1973, a sala foi vendida por Alberto Carreira da Silva, seu então proprietário. Novamente, em nome da modernidade, o cine agora foi demolido pela Construtora Adolpho Lindenberg e, em seu lugar, surgiu o Manaus Shopping Center, que chegou a ter uma sala de cinema no terceiro andar, onde terminava a escada rolante do edifício, o Studio Center, fechado em 1989.
O cine Odeon ainda guarda outras interessantes histórias em suas seis décadas de existência, mas serão contadas numa próxima vez.
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