Cineastas do Amazonas a espera de uma grande oportunidade

Em: 3 de abril de 2019
Fazer cinema precisa de muito dinheiro, mas para os cineastas manauaras o que não falta é disposição
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Fazer cinema precisa de muito dinheiro, mas para os cineastas manauaras o que não falta é disposição

Fazer cinema, desde o primeiro filme ‘Chegada de um trem à estação de Ciotat’, de 1895, dos irmãos Lumière, nunca foi um trabalho de pouco custo. Passados mais de 120 anos deste fato, o cinema se tornou uma arte, porém, sempre se mantendo como a mais cara para se realizar.

Manaus até teve um dos pioneiros do cinema no país, o português Silvino Santos, que fez suas primeiras filmagens na Amazônia, em 1912, e por mais de 40 anos realizou 9 longas-metragens, 57 documentários e 26 filmes domésticos, enquanto foi bancado pelo empresário J. G. Araújo e depois sua família.

Desde então aparecem candidatos a cineastas tentando chegar às bilheterias recordes, ao tapete vermelho e ao glamour dos grandes festivais de cinema do mundo, mas esbarram nas dificuldades financeiras para realizar uma produção, ainda que pequena. Mesmo assim eles não desistem e, como disse Glauber Rocha, ‘com uma idéia na cabeça e uma câmera na mão’, produzem seus filmes que são vistos por amigos e uma reduzida platéia.

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A primeira experiência de Adson Moreira de Queiroz com uma câmera foi quando ele tinha uns 12 anos de idade.

“O professor de inglês pediu que nós encenássemos e filmássemos a cena de um filme falando em inglês. Eu nunca tinha pegado numa câmera, mas a minha filmagem foi a única na qual a câmera se movimentou”, lembrou.

“Na igreja do meu bairro, São Raimundo, o padre Zenildo tinha um projeto onde aprendíamos a fazer peças de teatro: escrever, atuar, produzir. Fiquei dez anos nesse projeto. Com o tempo, comecei a ser chamado por amigos para atuar nos filmes deles. Eu era ator e também produtor. Ajudava a fazer os cenários, a carregar equipamentos, e não tinha dinheiro pra ninguém. Qualquer custo que tivesse, bancávamos do próprio bolso. Mas com eles fui aprendendo a linguagem do cinema, mesmo usando aquelas câmeras manuais, que utilizavam fitas Mini DV”, riu.

Uma grande produção, um sonho

“Quando entrei na faculdade, escolhi o curso de Rádio e TV porque muitas disciplinas tinham a ver com produzir e filmar, e assim desenvolvi esse lado de querer fazer cinema”, contou.

Ainda na faculdade, Adson começou a estagiar em pequenas empresas que produziam programas para TV’s locais, filmando e produzindo.

“Em 2007 fiz meu primeiro filme, ‘Nômades Urbanos – malucos da estrada’, um documentário que mostra os hippies que viviam na praça do Congresso, em frente ao IEA. No ano seguinte fui ser professor estagiário de teatro no projeto ‘Jovem Cidadão’, da Secretaria de Cultura, depois me tornei professor efetivo e, em 2009, fui ser instrutor de cinema”, falou.

“E continuei fazendo filmes para a igreja de São Raimundo, filmes de 10 a 15 minutos, sempre contando alguma história escrita pelo padre sobre assuntos de interesse da comunidade. Ele chamava quem queria participar, e eu filmava. Desde 2016 o projeto do padre está parado, acho que por falta de verba”, lamentou.

“Eu continuo fazendo meus filmes, de dois a três minutos. O mais recente é ‘#Viva a vida’, de 2015, que conta a história de um casal de adolescentes que está, um ao lado do outro, mas conversando pelo celular”, revelou.

Ainda trabalhando na Secretaria de Cultura, Adson continua atuando com produções e filmagens para a Secretaria.

“Estou na área que gosto, produzir e filmar, e agora fazendo trabalhos para pessoas que estão criando canais no YouTube. Sim, gostaria de fazer uma grande produção cinematográfica, mas é um sonho, não impossível, mas difícil de se alcançar”, afirmou.

Falta de patrocínio

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Abelly Cristine: "ninguém ganha nada e ainda gasta do próprio bolso"
 

Abelly Cristine foi aluna de Adson na igreja de São Raimundo, em 2010, e desde lá não parou mais de produzir e dirigir filmes. Também fez faculdade de Rádio e TV, como ele.

“Meu primeiro filme, como diretora, foi ‘O tempo que volta’, de 2012, com dois minutos de duração e que participou do Amazonas Film Festival daquele ano”, recordou.

“Cheguei a produzir uns cinco desses pequenos filmes, por ano, para participar de eventos de cinema em Manaus e outras cidades. Alguns deles inscrevi para participar de festivais no Rio de Janeiro e São Paulo, mas é uma luta árdua que você trava com o pessoal do Sul e Sudeste”, lamentou.

“Aqui em Manaus temos um grupo de amigos que faz cinema e todos fazem de tudo, escrevem, produzem, dirigem, iluminam, sonorizam, editam. Ninguém ganha nada e ainda banca do próprio bolso algum custo que aparecer”, explicou.

“Meu filme mais recente ‘Tocaia’, está sendo rodado desde 2014. É um filme policial, de ação, com cenas de tiro. Muito trabalho. Deve ter a duração de uns 20 minutos. Será meu filme mais longo até agora e devemos encerrá-lo este ano”, adiantou.

“Temos equipamentos de cinema bons aqui em Manaus e um pessoal que sabe o que está fazendo, mas tudo é muito caro, muito difícil, então todos precisam trabalhar além de fazer cinema. O tempo que nos sobra, é quando damos andamento nas filmagens. Não somos amadores. Somos profissionais, apenas nos falta patrocínio e reconhecimento”, finalizou.

Todos os sábados, às 18h, a Secretaria de Cultura exibe os filmes produzidos pelos cineastas amazonenses, no Cine Teatro Guarany (avenida Sete de Setembro, anexo ao Centro Cultural Palácio Rio Negro). A entrada é gratuita.    

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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