Classe C já não é motor de gastos

Em: 18 de julho de 2014
Inflação e endividamento pesam; classe AB responde agora por 61% do avanço
Inflação e endividamento pesam; classe AB responde agora por 61% do avanço

Antes ávidos por comprar produtos recém-lançados e ter acesso a marcas de qualidade superior, o consumo da classe média já não é mais a locomotiva dos gastos em supermercados brasileiros.
A classe C, que nos últimos cinco anos foi impulsionadora dos gastos com comida, bebida e higiene, perdeu seu posto para a classe AB, neste ano, segundo estudo feito pelo Instituto Nielsen.
Do crescimento de 7% registrado no gasto das famílias com abastecimento do lar neste ano até abril, a classe AB contribuiu com 61% enquanto a C participou com só 34%. A queda é expressiva, se compara a 2013, quando a classe C teve participação de 49%, e a AB de 35%.
O dado de 2014 indica uma tendência afirma o índice Nielsen.
“Este grupo não perdeu a relevância, continua sendo o mais importante em volume, até por ser uma parcela maior da população, mas seu papel no crescimento mudou. O consumo subiu em todas as categorias de produtos, mas quem impulsionou dessa vez foi a classe AB”, diz Olegário Araújo, diretor do Nielsen.
A troca pode ser explicada pelo endividamento da classe média e pela inflação, que a forçou a rever os gastos.
“Pode ter sido uma contenção para racionalizar e pagar o restante das contas. É um malabarismo necessário para segurar os gastos”, diz.
O aumento do consumo da classe C ficou abaixo da média nas compras de bolachas, sobremesas prontas, cervejas e sabões em pó e líquido.
Foge à regra o segmento de higiene e beleza, que leva a fama de ‘indulgência’. “A categoria cresce ou cai pouco mesmo em situações de crise ou de economia ruim, pois o consumidor se permite levar o xampu ou hidratante que vai melhorar a autoestima”, diz João Basílio, presidente da Abihpec, que reúne o setor.
O estudo destaca também a queda de 3,6% nas idas ao mercado, mas com elevação do tíquete médio a cada visita. O comportamento é típico de momentos inflacionários, em que o consumidor antecipa as compras e estoca em casa para garantir o valor do dinheiro antes que a mercadoria seja remarcada.
“Funciona como gestão do orçamento, evitando a compra por impulso”, diz Araújo.
A maior demanda da classe média por marcas baratas e a procura por feiras e mercado informal, também favorecem a mudança, segundo Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular.

Jantando em casa
No grupo AB, por outro lado, o avanço veio da mudança de hábito dos consumidores da classe B, que em busca de economia reduziram a frequência em restaurantes.
A substituição pela alimentação em casa aparece no aumento de gastos com perecíveis, que avançou 14,5%, categoria que mais cresceu.
A classe alta é a que menos sente o momento econômico, enquanto a média e a baixa sofrem com a desaceleração do emprego e da renda, afirma o professor de varejo, Juracy Parente, da FGV-SP.
“A alimentação representa um percentual menor nas classes mais altas, que são menos sensíveis ao aumento de preços. Mas, na classe mais baixa, a inflação os forçou a reavaliar a cesta de compras. É possível que isso tenha se refletido no consumo”, diz.
Para Adriano Amui, professor da ESPM-SP, os limites de consumo da classe C já podiam ser previstos.
“No segundo mandato de Lula, depois que a alta do crédito já havia sido usada para carro e eletrodoméstico, veio o ‘trade-up’ na alimentação, que é o acesso a produtos mais caros. Com a inflação, medidas de restrição começaram a ser tomadas”.
Para Fábio Pina, economista da Fecomércio-SP, o aumento do consumo não foi acompanhado por avanço semelhante na capacidade produtiva no país. “É difícil manter aquele fenômeno de inclusão por bastante tempo”.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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