Cobertura logística para a seca

Em: 12 de maio de 2026
Indústrias reforçam operações e apostam na BR-319 para reduzir impactos da estiagem no Amazonas.
Setor logístico debate estratégias para enfrentar vazante de 2026. (Divulgação)
Setor logístico debate estratégias para enfrentar vazante de 2026. (Divulgação)

Embora a seca de 2026 esteja na rota do setor produtivo, ainda não é possível precisar qual será sua intensidade. A indústria busca se proteger do risco de um repeteco de 2023, por meio da formação preventiva de estoques, mas aguarda os números oficiais e a posição dos especialistas, que só será possível ser apresentada em julho. As empresas de logística que atendem o Amazonas, no entanto, garantem que estão preparadas para oferecer soluções para garantir a eficácia – e a eficiência, na medida do possível – do translado dos insumos e manufaturados do PIM, independentemente das condições hidrológicas das rotas fluviais que atendem o Estado. 

Os empresários também esperam que as obras da rodovia BR-319 avancem sem novos sobressaltos jurídicos, para garantir a sinergia do transporte de mercadorias na região. Essas e outras informações foram apresentadas na 19ª reunião da Comissão de Logística do Cieam, realizada na tarde da última sexta (8). Acompanhado pela imprensa, o evento focou na Transpoamazônia 2026, feira logística marcada para o período de 27 a 29 de maio, no Centro de Convenções Vasco Vasques. As lideranças empresariais também trouxeram para o centro dos debates temas estratégicos que impactam na competitividade do PIM, como integração intermodal, transporte rodoviário e estrutura logística nacional.

Durante o evento, o presidente da Fetramaz (Federação das Empresas de Logística, Transporte e Agenciamento de Cargas da Amazônia) e presidente da Transportes Bertolini, Irani Bertolini, salientou que a BR-319 vai agilizar o transporte para o Amazonas. “A rodovia não vai retirar a carga da cabotagem, que trabalha com grande volume de peso. O que pode ser afetado é o transporte de balsas por Belém, que também atende carretas com carga fracionada. O preço do frete talvez até diminua alguma coisa. Mas, vai representar muito para o capital de giro e produtividade para as empresas, já que o translado deve ficar de sete a oito dias mais rápido”, estimou.

Procurado pela reportagem, logo após o evento, o dirigente explicou que o transporte dos insumos industriais, material de construção, e “itens pesados de baixo valor agregado” ainda deve ser feito majoritariamente pela navegação de cabotagem, mesmo com o asfaltamento da BR-319. “Pela rodovia, devem ser transportados principalmente peças para veículos, compras online, por exemplo. O preço, se não ficar igual, deve baixar. A licitação da rodovia já deve ocorrer neste ano e acredito que já nesse período [que será no período de verão] já começam as obras”, avaliou.

 

“Cautela e responsabilidade”

O gerente financeiro da Amazon Transportes, Daniel Di Gregorio, falou sobre integração modal. O executivo, que representa uma companhia que trabalha em sinergia com o Super-Terminais, disse à reportagem que as empresas estão preparadas para levar parte de sua estrutura para Itacoatiara, caso a vazante de 2026 retire o calado para navegação dos navios. “Já fizemos isso antes e temos todas as condições de repetir este ano, caso necessário. Estamos avaliando as condições diariamente, sempre em contato com especialistas, e com muita cautela e responsabilidade. As indústrias da Zona Franca e a população não ficarão desassistidos”, garantiu.

Em sua participação no evento, por videoconferência, o diretor-presidente da Braspress Transportes Urgentes, Urubatan Helou, falou da estrutura e vantagens do transporte rodoviário de cargas fracionadas, entre outros assuntos. Durante o evento, ele foi indagado a respeito da abertura do setor para empresas estrangeiras. “Isso pode trazer concorrência predatória, mas o mercado deve ser aberto, para que os preços possam ser reduzidos. Se isso acontecer, vamos competir para ver quem terá melhor planejamento, melhores processos, melhores tarifas. Já assistimos, no passado uma série de outras empresas que chegaram e já foram. As que aqui estão, são empresas amazônidas que há muito se consolidaram”, afiançou.

A administradora e assessora da Fetramaz, Vanessa Belfort apresentou informações sobre as feiras e congressos que integram a Transpoamazonia 2026. “O evento vai trazer grandes players da área de transportes. Ainda temos espaços para venda neste evento, que trará muitas oportunidades de negócios. Teremos também a reunião da CIT [Confederação Internacional de Transportes], que trará 43 países para conhecer as empresas” informou. A executiva garantiu também que as empresas estão “preparadíssimas” para a eventualidade da seca. “A gente tem problemas que só acontecem aqui e, por isso, temos soluções especificas para as mudanças climáticas”, completou. 

 

“Hora certa”

O presidente executivo do Cieam, Lucio Flávio Morais de Oliveira, disse à reportagem que a reunião foi “histórica”, já que contou com a participação de três empresas pioneiras da logística regional. “Resistiram e continuam resistindo com coragem, investindo na Amazônia. Foi uma excelente oportunidade de conhecermos mais a dimensão da infraestrutura logística atual e sua expertise para operar na ZFM”, enalteceu. “Falou-se também que os dois portos privados, mais a Receita Federal, estão preparados para antecipar novamente os piers flutuantes para Itacoatiara, na mesma operação realizada em 2024, caso haja necessidade”, emendou. 

O dirigente reforçou que todos estão envolvidos nos esforços de prevenção à seca, embora frise que só será possível estabelecer sua intensidade com apenas três meses de antecedência do pico de estiagem. “A indústria está envolvida no papel de planejar o estoque. Esperamos que o governo federal faça a dragagem, na hora certa, dos dois pontos críticos de navegação, que são a Foz do Madeira e o Tabocal. O Dnit está com todo o projeto pronto, mas precisa da batimetria, que a Marinha vai passar a partir de julho. Se a dragagem não acontecer na hora certa, esperamos que a operação de Itacoatiara funcione tão bem quanto funcionou em 2004”, enfatizou. 

O coordenador da Comissão de Logística do Cieam, Augusto Cesar Rocha, destacou que a Transpoamazônia foi o foco da reunião, pois se trata de um “mega evento de logística e fundamental para as Américas” e, quando se fala em logística, não se costuma mencionar tanto a importância do transporte rodoviário por balsas na região. “O que me chamou a atenção primeiro foi o tamanho dos negócios deles, muito maiores do que eu tinha conhecimento. O segundo foi a operação aérea da Braspress, com duas aeronaves voando entre Manaus e São Paulo, com cargueiro, diariamente. O terceiro foi o número de patentes que a Bertolini tem desenvolvido ao longo dos anos”, listou. 

O dirigente frisou que há certezas sobre a estiagem de 2026, mas ainda pouco se sabe sobre sua severidade. “Há uma estruturação para a montagem [das estruturas portuárias em Itacoatiara] e uma confiança muito grande com a BR-319 e que, a partir dela, a gente vai ter uma estrutura muito mais resiliente. A indústria, certamente, já está se preparando, como vem fazendo nos últimos dez anos. E estamos trazendo os especialistas, além de militar pelo asfaltamento da BR-319. Lembrando que, em 2023, fomos os únicos a afirmar que haveria seca, mas isso só foi possível na virada de junho para julho. Mas, espero que tenhamos uma vazante típica”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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